Filosofia de Evaldo Coutinho chega ao cinema

O filósofo, escritor, crítico decinema e professor Evaldo Coutinho completou 90 anos no mêspassado, num momento em que sua obra consegue ultrapassar afronteira acadêmica e intelectual para chegar ao grande públicopor intermédio da cinebiografia A Composição do Vazio. Deautoria do também pernambucano Marcos Enrique Lopes, o filmeversa sobre o sistema filosófico criado por Coutinho, que temcomo personagem principal a morte.Respeitado e admirado por nomes como a filósofa paulistaMarilena Chauí e o paraense Benedito Nunes, Coutinho dedicoutoda a sua vida ao desenvolvimento da sua doutrina, exposta emcinco livros que têm como título geral A Ordem Fisionômica. Eletambém escreveu sobre arquitetura e cinema, mas sempre numavisão conectada ao seu sistema filosófico.Introspectivo e muito tímido, de grande simplicidade eafetividade, Evaldo Coutinho teve a certeza de que a sua vocaçãoestava voltada para a abstração e a especulação filosófica aindaquando cursava Direito, no início da década de 30. Ávido leitorde filosofia, sentia grande afinidade com Spinoza, sobre quemchegou a escrever um ensaio em comemoração ao terceirocentenário da sua morte em 1932. Ele se identificava com a visãoimanentista de Spinoza descrita no livro A Ética.Teologia do Eu - Spinoza foi deixado de lado já em 1934, quandoEvaldo Coutinho teve uma intuição acerca do Ser. "Intuí quequando o indivíduo morre, extingue-se também o universo queestava com ele", afirmou. "A morte, por isso, representa umahecatombe universal." O filófoso percebeu que o universo não éimutável, nem permanente, sendo algo que nasce e morre a cadainstante, a cada nascimento e morte das pessoas. "É uma espéciede cintilação do ser, que acende e apaga."Sua obra é solipsista porque se baseia na crença de que cadapessoa tem em si o mundo inteiro, o qual morre com ela. "É umaespécie de Teologia do Eu, tudo ocorre em mim, comigo",explicou, comentando que a sua visão é melancólica e "nãooferece contentamento metafísico nenhum". Ele acredita quemesmo a alma religiosa que ele afirma ter vai desaparecer com asua morte. "A morte pessoal é absoluta, daí a morte de alguémser a morte universal.""Eu sou o autor de todos os autores", diz. "Todos osfilósofos e Spinoza vão morrer comigo." A perspectiva de quesua obra vai sobreviver à sua morte, é considerada por EvaldoCoutinho como "uma idealidade quanto ao futuro". Ao seu ver, ofuturo é inexistente, é produto do pensamento. "Só o passadoexiste e o presente é a elaboração do passado." Até 1948,Evaldo tomou notas e fez anotações acerca do assunto.Neste ano, começou a escrever, a dar forma à sua doutrina. Àmão. Depois, como tinha uma letra difícil de ser entendida,passou três anos e meio para bater à máquina, usando apenas umdedo. A cópia do manuscrito serviu como revisão do trabalho, quesó começou a ser editado em 1978, com a publicação do primeirodos cinco volumes, A Visão Existenciadora, pela EditoraPerspectiva, de São Paulo.

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