Mostra de Cinema de São Paulo
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'Filmo para cumprir um papel social', diz o cineasta argentino Fernando Solanas

Solanas apresenta na Mostra de Cinema de São Paulo o filme 'Viaje a Los Pueblos Fumigados', que ovacionado em Berlim e recebeu elogios praticamente unânimes da imprensa mundial

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2018 | 06h00

Fernando Solanas, o maestro do cinema argentino, está de volta à Mostra Internacional de Cinema. Encontrou o País muito pior que há dois anos. “Mas o que se passou? Achei que o Brasil poderia ter resistido a essa direitização do mundo.” Solanas é uma raridade. Não é só um artista, um cineasta. É também político. Já foi candidato à Presidência da Argentina, preside o comitê de Meio Ambiente do Senado da nação. Por isso mesmo, não pode ser ignorado. “Não me deu capa, essa imprensa burguesa.” Viaje a Los Pueblos Fumigados – o longa que ele apresenta na Mostra – foi ovacionado em Berlim e recebeu elogios praticamente unânimes da imprensa mundial. “Me puseram em cantos de página, o que eu mostro não interessa a muita gente.”

Agro é tech, agro é pop. Você liga a TV – no Brasil – e encontra a propaganda direto. O longa de Solanas acrescenta – agro é morte. “É um filme extraordinário, que chega ao coração”, segundo a definição do diretor da Berlinale, Dieter Kosslick. E Hollywood Reporter, a bíblia do showbiz – “Solanas oferece um grito do coração contra os pesticidas e outros métodos daninhos de cultivo da terra. É um filme necessário.” Mas não muito palatável, o maestro reconhece. “Não tenho feito filmes que o espectador possa ver no sábado à noite, ‘con su pareja’, com seu amor. Faço filmes para a segunda-feira, para serem diluídos durante a semana.”

Não espere de Solanas uma palavra de apoio ao presidente argentino Mauricio Macri, um dos arautos do neoliberalismo econômico no continente. “Elegeu-se prometendo resolver os problemas da Argentina. Dizia possuir a melhor equipe econômica, mas são problemas macro, endêmicos. Ninguém os resolveria em apenas quatro anos. Piorou. Estamos numa crise brutal. A Argentina está em recessão, com o maiores juros do mundo. A saúde pública está sucateada e um acordo com o FMI aumentou a austeridade. E é um país potencialmente muito rico, como o Brasil. Virou esse horror. Buenos Aires se orgulhava de não termos a pobreza estampada nas ruas. Agora está lá, e ninguém mais liga. É uma tragédia.”

Solanas codirigiu com Octavio Getino o clássico militante La Hora de Los Hornos, nos anos 1960. Fez obras de ficção, foi premiado em Cannes com Tangos, o Exílio de Gardel. Em 2004, com Memoria del Saqueo, iniciou uma série de ‘documentales’ sobre a crise argentina. Seguiram-se La Dignidad de Los Nadie, Argentina Latente, La Próxima Estación, Oro Impuro, Oro Negro, La Guerra del Fracking e, agora, Viaje a Los Pueblos Fumigados. Não fala só o cineasta, mas o político, o senador que milita pelo meio ambiente no Senado do país vizinho.

“Houve uma revolução tecnológica aparentemente benéfica. As máquinas ajudaram a racionalizar o cultivo e surgiram esses produtos químicos que alteram a composição da flora e da fauna, com o objetivo de evitar que doenças, insetos ou plantas daninhas prejudiquem as plantações. Parece ótimo, mas o problema são as consequências, os efeitos correlatos e prejudiciais. O veneno está no alimento que consumimos, A fumigação espalha-se no ar e atinge comunidades inteiras. O câncer prolifera, a terra não consegue absorver essa quantidade de agrotóxicos. Não absorve nem a água. Temos tido inundações catastróficas na Argentina.” Alguns momentos – muitos – de Viaje poderiam estar num filme de Vincent Carelli, em Martírio, por exemplo.

“A soja virou hoje o principal produto de exportação da Argentina. Toda a economia do país depende dela. E a soja é transgênica. As sementes são modificadas em laboratório, que as vendem (junto) com o produto químico adequado. Cada vez mais essas sementes transgênicas são produzidas para territórios inóspitos. Desertos, florestas. Tem havido um avanço sobre territórios que, constitucionalmente, pertenciam aos índios na Argentina. As terras dos índios encurtam cada vez mais. Fauna e flora são destruídas. As populações estão desnutridas, sem nenhum tipo de assistência. Crianças índias não vão à escola, nunca viram um médico, são subnutridas. É um crime, é genocídio, que, como eu mostro no filme, é cometido com a convivência de todos.”

Todos, quem? “Políticos, empresários, juízes, todos unidos em defesa de um sistema que está destruindo, criminosamente, o meio ambiente, mas com o qual são coniventes porque a economia e o funcionamento do governo, do país, dependem disso. Só pensam nos lucros a curto prazo, não têm compromisso com o amanhã.” Dito assim, o futuro que se desenha para a humanidade é apocalíptico. Mad Max, sem Mel Gibson para nos salvar, desenha-se cada vez mais no horizonte. Solanas ri da comparação, mas diz que há esperança, sim. O próprio filme desenha um modelo alternativo, a agricultura orgânica. “É uma forma de resistência que, na Europa e nos EUA, avança cada vez mais. Em nossos países, parece uma coisa meio hippie, mas na América, a própria Justiça tem aplicado multas milionárias aos grandes conglomerados. O filme cumpre seu papel. Na Argentina, temos vendido milhares de DVDs para escolas, sindicatos. Não filmo para ganhar dinheiro, mas para cumprir um papel social. Filmo nas minhas férias no Senado, monto, como posso, no restante do ano. Fala-se mal dos políticos, na Argentina, mas é um trabalho duro, para quem ainda acredita em comprometimento.” E ele revela: “Estou louco para voltar à liberdade da ficção. Estou escrevendo um roteiro. O tema será de novo a crise argentina, mas com outro viés.”

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