Filmes que dizem não à guerra no CCSP

Difícil não recorrer a Paul Virilio, o arquiteto que se tornou um dos mais originais e polêmicos pensadores da atualidade, ao associar o desenvolvimento técnico - que considera uma catástrofe - à produção e ao controle da velocidade e da guerra. A relação entre desenvolvimento tecnológico, conquista militar e controle social que Virilio estabelece em livros como Velocidade e Política e Guerra e Cinema deveria estar sendo a base para se refletir sobre o que a TV mostra desde quinta-feira, quando começou o ataque dos EUA ao Iraque. Que tal lembrá-la, agora, a propósito do evento que o Centro Cultural São Paulo (Av. Vergueiro, 1.000) promove, a partir das 9 horas? Trata-se de uma maratona contra a guerra. Em todo o mundo têm ocorrido manifestações contra a ofensiva americana no Iraque. O CCSP escolheu a via do cinema para protestar (e refletir). Durante todo o dia de hoje, estarão em exibição, com entrada grátis, filmes agrupados sob o título geral de Não à Guerra. Serão mais de 15 horas de programação, começando com Johnny Vai à Guerra, de Dalton Trumbo. Às 23 horas, terá início o último programa: Falcão Negro em Perigo, de Ridley Scott. Entre esses extremos, serão exibidos: M.A.S.H., de Robert Altman, às 11 horas, Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, às 13 horas, Paisà, de Roberto Rossellini, às 16h30, Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick, às 18h30, e Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick, às 20 horas. No seu admirável episódio de 11´09"01, o diretor japonês Shohei Imamura já havia mostrado que não existe guerra santa. Pode valer para Osama Bin Laden, mas também vale, com certeza, para o presidente George W. Bush, que tenta transformar a guerra com o Iraque numa cruzada contra o mal, quando se sabe que os reais motivos dessa guerra são outros (poderio bélico e econômico, consolidação dos EUA como o império). O filme que abre a programação é de um horror verdadeiramente angustiante e perturbador. Dalton Trumbo, homem de esquerda, foi uma das vítimas célebres do macarthismo. Ele não pôde receber o Oscar de roteiro que ganhou por Arenas Sangrentas, em 1956, assinando como Richard Rich. O único filme que dirigiu, Johnny Vai à Guerra, baseado em seu romance, passa-se na cabeça de um mutilado de guerra reduzido a um tronco e a uma cabeça, apenas. Esse homem não fala, não ouve, não vê, não pode mover-se. É prisioneiro do próprio corpo, uma experiência de um horror absoluto, que produz angústia e mal-estar no espectador. Há outro corpo destroçado na cena mais horripilante de Falcão Negro em Perigo. Ridley Scott, tantas vezes criticado por seu esteticismo de diretor vindo da publicidade, fez uma terrível anatomia da guerra. O burocrata obsessivo que comanda a guerra no filme, sem ligar para custos (econômicos e humanos), é um sujeito poderoso que você vê todos os dias na televisão. Os demais filmes não impressionam menos: Altman usa a arma do humor contra a guerra, Coppola explica a derrota americana no Vietnã por meio da crítica a uma sociedade que perdeu seu centro moral e Rossellini reafirma o neo-realismo por meio de relatos (várias histórias) sobre as relações entre o povo italiano e as forças aliadas que avançavam pelo país, no fim da 2.ª Guerra Mundial. Kubrick fez sua comédia de humor negro mais devastadora do que M.A.S.H. para criticar o uso da bomba. Seu filme expõe o tema obsessivo que percorre uma das obras mais extraordinárias do cinema: a dissolução da palavra como elo que une e organiza os homens. Preste atenção naquele telefone vermelho. Malick usa de extrema beleza visual para mostrar, também ele, a destruição de corpos na mais sangrenta batalha no front do Pacífico, a de Guadalcanal. São filmes fortes. Estimulam a reflexão sobre a guerra. Talvez valha encerrar citando um mestre, David Lean. Era um cético que amava as rebeliões, mas nunca acreditou que elas, um dia, pudessem se tornar a rotina na vida dos homens.

Agencia Estado,

24 de março de 2003 | 10h53

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