Filmes pornôs marcaram cinema da era Collor

No governo Collor (1990-92), o cinema brasileiro chegou ao fundo do poço. Embrafilme e Concine (Conselho Nacional de Cinema) foram extintos por decreto em 15 de março, dia da posse do novo e controvertido presidente. Mesmo assim, 105 longas brasileiros foram lançados. A maioria, filmes de sexo explícito.Esse dado - surpreendente, pois é voz corrente que nos anos Collor a produção se aproximou do zero - está disponível nos arquivos dos festivais de Brasília, Gramado e da mostra Cinema Brasileiro/Anos 90: Nove Questões. Esta mostra deu origem a excelente catálogo, editado pelo Centro Cultural Banco do Brasil/Rio (com curadoria de Eduardo Valente, João Luiz Vieira e Ruy Gardnier). Os pesquisadores constatam o desaparecimento do público dos cinemas que exibiam produção nacional, mas provam que a atividade resistiu.Antônio Leão confessa que a parte mais difícil da pesquisa que antecedeu seu Dicionário de Filmes Brasileiros, que agora é lançado, se deu no campo do cinema erótico (em especial do filme de sexo explícito). Os filmes eram realizados sem obediência a leis trabalhistas. Ninguém se preocupava em documentar nomes de "atores" ou técnicos.Muitos dos filmes de sexo explícito realizados entre 1990 e 1995 (quando desaparecem dos cinemas e migram para o vídeo doméstico) estão ausentes do valioso Dicionário de Leão.O balanço dos anos Collor prova que aquele foi mesmo um tempo de penúria para o cinema brasileiro. O País, que chegara a ocupar 30% de seu mercado interno com produção nacional (nos anos 70, Dona Flor vendeu quase 11 milhões de ingressos), viu tais índices se reduzirem a míseros 0,04%. Mas é preciso reafirmar que, no ano de instalação do furacão Collor, 47 filmes brasileiros foram concluídos e lançados. Vinham, de projetos iniciados ainda no governo Sarney; 16 eram filmes com algum empenho cultural. Os outros 31 eram obras pornográficas.Em 1991, foram realizados 44 filmes, sendo 19 obras não-pornográficas. A produção de 25 filmes de sexo explícito testemunhava a capacidade de sobrevivência do gênero. Em 1992, ano do impeachment de Collor, a produção nacional chegou ao seu momento mais difícil. Foram concluídos apenas nove filmes. Até a produção pornográfica se viu reduzida a quase nada: dois títulos.A situação era tão difícil em 1992, que o Festival de Brasília foi obrigado a ir buscar cineasta onde estivessem e exibir os filmes que aparecessem, sem nenhuma seleção. O Festival de Gramado, sem dispor da produção nacional, virou latino.Em 1993, foram realizados 11 filmes, sendo 2 pornográficos. Em 1994, já com a Lei do Audiovisual, criada no governo Itamar Franco, foram produzidos 14 filmes (dois pornográficos). A partir de 1995, o filme de sexo explícito desaparece dos cinemas (dos 13 filmes realizados, nenhum se filiava ao gênero). Com o Plano Real, o videocassete se popularizou. Tornara-se mais simples ver pornografia entre as quatro paredes de um quarto. A partir de 1996, com a indicação de O Quatrilho ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o cinema mostrou que havia superado seu momento mais crítico.

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