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Filmes podem distorcer fatos históricos na memória das pessoas

Segundo estudos sobre a memória, público tende facilmente a adotar fatos distorcidos de filmes históricos como sendo reais

Jeffrey M. Zack, THE NEW YORK TIMES

20 de fevereiro de 2015 | 03h00

Entre os indicados para o Oscar de melhor filme deste ano há quatro películas baseadas em histórias verídicas: Sniper Americano (sobre o atirador de elite Chris Kyle); O Jogo da Imitação (sobre o matemático britânico Alan Turing), Selma (que fala da aprovação da Lei sobre Direito de voto em 1965) e A Teoria de Tudo (sobre o físico Stephen Hawking).

Cada um deles foi criticado por apresentar os fatos de maneira imprecisa. Será que Selma ignora a dedicação de Lyndon B. Johnson ao direito de voto dos negros? O Jogo da Imitação representará de maneira equivocada a natureza da obra de Turing, assim como A Teoria de Tudo de Hawking? Sniper Americano abranda os conflitos militares que pretende descrever? O público poderá pensar: E isso importa, realmente? Não podemos separar o mundo do cinema do real? Infelizmente, a resposta é não. Estudos mostram que se você assiste a um filme – mesmo que seja sobre acontecimentos históricos que você conhece – suas convicções podem ser modificadas por “fatos” que não são reais.

Em um estudo publicado pela revista Psychological Science em 2009, uma equipe de pesquisadores pediu a estudantes universitários que lessem ensaios e depois assistissem a trechos de filmes históricos contendo informações imprecisas e que não se coadunavam com os textos.

Embora tivessem sido alertados de que os filmes poderiam conter distorções factuais, os estudantes apresentaram cerca de um terço dos fatos falsos dos filmes num teste posterior.

Em outra pesquisa, publicada na revista Applied Cognitive Psychology em 2012, outra equipe de estudiosos, reproduzindo a experiência, tentou eliminar o “efeito de desinformação”, pedindo explicitamente aos estudantes que analisassem recortes à procura de equívocos. Não funcionou. Os estudantes mostraram-se mais propensos a aceitar as inverdades. Quanto mais os estudantes mergulhavam nos clipes, mais suas memórias eram contaminadas. 

Por que temos tanta dificuldade em separar os “fatos” de um filme, dos fatos reais? Uma das hipóteses é que nossa mente está bem equipada para lembrar de coisas que vemos ou ouvimos – mas não para lembrar a origem dessas memórias.

Consideremos a seguinte história sobre a evolução: à medida que os nossos distantes ancestrais se tornavam mais capazes de comunicar fatos entre si por meio da linguagem, e de armazená-los em sua memória, isso os ajudou a sobreviver. Se um caçador na savana se aproximava de um olho d’água, se ele fosse capaz de lembrar que havia ocorrido um ataque de leão naquele mesmo lugar, poderia salvar sua vida. Mas recuperar a memória fonte (foi meu primo que me falou sobre isso? Ou foi meu irmão?) era menos crucial. Consequentemente, os sistemas do nosso cérebro referentes à memória fonte não são firmes e, aliás, estão predispostos ao fracasso.

Esta história é especulativa, mas combina bem com o que sabemos a respeito da memória fonte. Em termos cognitivos, a memória fonte se desenvolve relativamente tarde nas crianças; e em termos neurológicos, depende de maneira seletiva do córtex pré-frontal, uma região do cérebro que também amadurece tarde.

A memória fonte também é frágil, extremamente sensível às vicissitudes do envelhecimento, de lesões e doenças. Os pacientes com danos no córtex pré-frontal apresentam falhas de memória fonte que exageram os erros cotidianos que todos cometemos. O sujeito de uma pesquisa que sofrera uma lesão desse tipo acreditava que determinado edifício em seu bairro estava sendo usado para fins sinistros; mais tarde, soube-se que sua interpretação paranoica do prédio era consequência de um filme de espionagem ao qual ele assistira 40 anos antes.

Num estudo de 1997, pacientes com lesões semelhantes receberam listas de palavras ou sentenças lidas por dois pesquisadores, um homem e uma mulher. Os pacientes reconheceram facilmente se haviam ouvido uma frase ou não, mas encontraram grande dificuldade para identificar qual dos pesquisadores a lera. Entretanto, é importante observar que esta tarefa também era particularmente difícil para sujeitos sadios. Nenhum de nós é imune aos perigos da memória fonte.

A debilidade da memória fonte nos deixa sempre, até certo ponto, à mercê de filmes imprecisos. Há algo que possamos fazer? A pesquisa descrita acima revelou uma técnica que ajuda: se a informação equivocada é explicitamente destacada e corrigida quando é encontrada, sua influência se reduzirá substancialmente. Mas a aplicação desta estratégia – o emprego de comentários para a verificação do fato para acompanhar o filme, levando sempre o historiador ao cinema com a gente – poderá ser um problema. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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