Lakeshore Entertainment
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Filmes inspirados na obra de Philip Roth poucas vezes estavam à sua altura

Entre os diretores que participaram das suas adaptações estão Barry Levinson, Isabel Coixet, James Schamus, Robert Benton, Larry Peerce e Ewan McGregor

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2018 | 14h22

A prosa envolvente de Philip Roth seduziu os cineastas desde os anos 1960, quando seu Goodbye, Columbus deu origem a Paixão de Primavera (1969), dirigido por Larry Peerce. Richard Benjamin e Ali MacGraw formam o jovem casal protagonista. O rapaz e a moça sentem forte atração entre si, mas, como provém de famílias judaicas de mentalidades muito diferentes, acabam enfrentando dificuldades.

Aquele que é talvez seu livro mais conhecido na primeira fase da carreira, O Complexo de Portnoy, também foi para as telas em 1972 e de novo com Richard Benjamin assumindo o papel principal. Alexander Portnoy, jovem brilhante e problemático, conta sua vida e suas dificuldades sexuais. Fala, em particular, da impossibilidade de se livrar da imagem da mãe dominadora.

Revelações, adaptado de A Marca Humana (2003), e dirigido por Robert Benton, toca no tema da linguagem politicamente correta e nos estigmas que vêm do passado ao presente como fantasmas. Um professor (Anthony Hopkins) envolve-se com uma aluna (Nicole Kidman) e vê a vida desmoronar por conta de uma expressão considerada ofensiva por alguns alunos da Universidade. A sutileza de Roth faz com que o próprio personagem seja um afro-americano de pele clara, circunstância arruinada no filme pela má escolha de Hopkins para o papel.

Esse tema tão comum a Roth — o amor entre o homem mais velho e a mulher jovem — reaparece no tocante Fatal (2008), inspirado em Animal Agonizante. Ben Kingsley é o professor de literatura David Kepesh, que inicia uma relação com a aluna de origem hispânica Consuelo (Penelope Cruz). Linda e muito, muito mais jovem que ele. As dificuldades do relacionamento, as expectativas de vida (inclusive quanto à duração) e problemas sexuais surgem num contexto perturbador e surpreendente.

Mesmo tema de fundo (embora com desenvolvimento bem diferente) surge em O Último Ato (2014), versão do romance A Humilhação. Dirigido por Barry Levinson, o filme põe em cena (literalmente) o grande Al Pacino. Ele interpreta Simon Axler, ator famoso que começa a esquecer suas falas no palco. Em crise, Axler envolve-se com uma ninfeta bissexual que o tira do eixo. A garota é vivida por Greta Gerwig, de Frances Ha, e que concorreu ao Oscar de direção com Lady Bird.

Nos dois últimos filmes inspirados em Philip Roth temos um recuo a fatos marcantes da história dos Estados Unidos. Em Indignação (2016), de James Schamus, o protagonista Marcus (James Schamus), chega à universidade com muita dificuldade e tem de enfrentar preconceitos. Na época, os Estados Unidos estão envolvidos na Guerra da Coreia e o conflito repercute na história particular do personagem.

Da mesma forma, em Pastoral Americana (2016), filme dirigido e interpretado por Ewan McGregor, veem-se os limites claros da auto-idealização da sociedade americana. McGregor faz Swede Levov, esportista, bom cidadão, um modelo de homem norte-americano, que se casa e forma a família perfeita. Pelo menos até descobrir que sua filha Merry (Dakota Fanning) envolveu-se de forma radical na tempestade histórica dos anos 1960.

O leque temático e imaginativo aberto pelas obras de Roth serviu perfeitamente a um cinema que tem alguma coisa a dizer a seu público. O ambiente judaico, as questões familiares e sexuais, o amor na idade adulta e na velhice, os relacionamentos entre parceiros de idades diferentes, a velhice e a morte, as injustiças e preconceitos existentes em uma sociedade auto-indulgente, a interferência das circunstâncias históricas nas vidas particulares, o papel do acaso — tudo isso forma um rico veio temático e ficcional que o cinema soube aproveitar. Embora poucas vezes os filmes estivessem à altura das obras em que se inspiram. 

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