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Filmes expressaram repulsa ao golpe militar

Obras são muitas, mas ainda ignoram aspectos essenciais do período

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2017 | 06h00

Seria injusto dizer que o cinema brasileiro não se ocupou do golpe de 1964 ou dos efeitos da ditadura sobre a sociedade. Não só o fez como o elegeu por tema logo após o acontecimento histórico. Já no ano seguinte, 1965, aparecia O Desafio, de Paulo César Saraceni. Através da história de um jornalista de esquerda (Vianninha) que tem um caso com uma burguesa casada (Isabella), Saraceni recria o clima de desespero, mas também de resistência, que se armava no imediato pós-golpe. Com cenas documentais, contém uma longa sequência do show Opinião, com a então novata Maria Bethânia cantando Carcará, canção de protesto de João do Vale, aquela do “pega, mata e come”.

Em 1967, é lançada a obra-prima do período, Terra em Transe, de Glauber Rocha. Em forma alegórica, pretende não apenas dar início a um processo de “digestão” do golpe em andamento, como examinar algumas estruturas da sociedade brasileira que faziam possível este e outros golpes e tornavam irrisória a resistência de setores progressistas da sociedade a eles. 

Cinquenta anos passados, Terra em Transe é, ainda, a mais radical radiografia da nossa “alma social”, dos fatores profundos que nos condenam, até hoje, a ser como somos. Os meetings políticos transformados em carnaval, o populismo caricato, a traição das elites, o vezo autoritário, o tortuoso relacionamento entre intelectuais e povo - tudo está lá, na genial intuição de Glauber. Revê-lo é contemplar o Brasil da sua época, e também o Brasil de hoje.

Após 1968, com o fechamento total do regime depois do AI-5, o cinema, como outras artes, refugiou-se no domínio da alegoria para driblar a censura. Em tempos de trevas, as luzes remanescentes piscam às escondidas. Desse modo, um diretor consagrado, como Nelson Pereira dos Santos, falava do Brasil em filmes sinuosos como Azyllo Muito Louco e Como Era Gostoso Meu Francês. Joaquim Pedro de Andrade, em Os Inconfidentes, usava os Autos da Devassa como roteiro e falava menos de Tiradentes e da Minas do Brasil Colônia que das lutas pela liberdade no país do seu próprio tempo, dominado pelos generais. Esses deslocamentos temporais e formais serviam para iludir censores, mas também para fazer acenos à luta política.

Com a proximidade da redemocratização, o tom começa a mudar. Ao transcrever o livro de Graciliano Ramos, o mesmo Nelson Pereira dos Santos faz do seu Memórias do Cárcere um hino duro da resistência e da busca da liberdade. Nessa mesma época, também vem à luz aquele que é o filme-símbolo desse período - Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho. Iniciado como ficção, foi interrompido pelo golpe, em 1964. Tentaram destruir os negativos e os personagens foram perseguidos. Tudo voltou à tona quase 20 anos depois, quando as filmagens foram retomadas, agora como um documentário que buscava as figuras perseguidas pelo golpe. Pelo reencontro de Dona Elizabeth Teixeira, a viúva do líder camponês que era o herói do primeiro filme, Coutinho simboliza um país que, após longo intervalo de trevas, reatava enfim o fio da História e podia seguir adiante.

Um marco da época de transição foi Pra Frente, Brasil, de Roberto Farias, cuja história denunciava a tortura, de modo naturalista e sem disfarces. Produzido em plena ditadura, sofreu todo tipo de pressão. A história é a de um homem (Reginaldo Faria) preso por engano pelos órgãos de repressão e torturado nos porões do regime. Nunca Fomos Tão Felizes, de Murilo Salles, conta uma história de relacionamento entre pai e filho tendo por fundo a luta armada de resistência ao regime. A trama é baseada em conto de João Gilberto Noll.

Nesse umbral aberto pela redemocratização, começam a surgir filmes que representam aspirações democráticas tanto dos diretores como do público. Deve ser lembrado Jango, o documentário de grande sucesso de Silvio Tendler, que reconstituía o governo e a conspiração contra João Goulart.

Com a normalização democrática, essa produção se intensifica. A memória da resistência armada ao regime, do exílio e da tortura, ganha muitos títulos, em documentário ou em ficção. Para enumerar, saem filmes como O Que É Isso, Companheiro, Zuzu Angel, Lamarca, Cabra Cega, Ação Entre Amigos, Yara, Batismo de Sangue, 70 e Galeria F. (ambos de Emilia Silveira), entre outros. Recordam figuras da guerrilha (Carlos Lamarca, Carlos Marighella, Iara Iavelberg), ou ações da luta armada, como o sequestro de embaixadores para resgate de prisioneiros políticos (O Que É Isso, Companheiro?, Hércules 56 e 70). Houve cineastas que utilizaram o período como material de ficção, como Ação Entre Amigos, de Beto Brant, ou Cabra Cega, de Toni Venturi. A memória da tortura também não esteve ausente com Que Bom te Ver viva, de Lúcia Murat, Corte Seco, de Renato Tapajós, e Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton.

Esse conjunto de filmes, no entanto, ainda deve ser considerado deficitário, dada a importância do período para a História brasileira. Em geral, investe num memorialismo que não toca questões políticas mais delicadas ou tenta entender estruturas que tornaram tais fatos possíveis. Uma exceção é Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, que ilumina a trajetória de um empresário financiador dos aparelhos de repressão em São Paulo, o dinamarquês Henning Albert Boilesen, do Grupo Ultragaz. Tema espinhoso, o da colaboração de parte do empresariado com as masmorras da ditadura, raramente debatido pelo cinema brasileiro. A exceção de Cidadão Boilesen ilustra uma tese do crítico Jean-Claude Bernardet sobre as dificuldades do cinema brasileiro em enfrentar algumas esferas de poder da sociedade brasileira, notadamente a Justiça, o sistema financeiro e a mídia, em especial no relacionamento entre elas e a ditadura.

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