Filmes de Peter Weir em edições para colecionadores

Cineasta australiano nascido em 1944, Peter Weir tinha 31 anos quando ganhou projeção internacional com um filme de clima inquietante e beleza ensolarada - Picnic na Montanha Misteriosa, sobre o desaparecimento de um grupo de moças. O filme não oferece explicações para o que ocorre no fatídico piquenique do título. Os críticos, impressionados, acharam o cineasta mais do que simplesmente promissor. Weir passou a ser um dos grandes do cinema da Austrália. Dez anos mais tarde, ele se estabeleceu em Hollywood com A Testemunha, que fez grande sucesso de público e crítica, e, desde então, sua reputação é de cineasta que consegue tornar palatável para as grandes platéias os temas mais espinhosos. Guerra, conflitos culturais, o medo da morte, o poder da mídia, a poesia como arma contra a mediocridade - o cinema de Weir costuma ser tão eclético quanto sólido. Três dos filmes mais famosos do cineasta estão agora saindo em DVD, em edições para colecionadores da Paramount. Gallipoli, A Testemunha e O Show de Truman chegam carregados de extras. Todos oferecem making of (e Truman tem dois!), acrescidos de trailers, galerias de fotos, tudo o que você queria saber sobre o diretor e seu método. Aos 61 anos, ele ainda não perdeu a capacidade de surpreender, à qual soma o que parece um paradoxo - um profissionalismo irrepreensível. Nem sempre Weir acerta, ou pelo menos, às vezes ele desconcerta. Gallipoli reconstitui a guerra de 1915, quando as forças australianas foram usadas pelos ingleses nos Dardanelos, culminando no massacre do título, quando foram dizimadas pelos turcos. Após o dedo acusador lançado contra a Inglaterra, causou espanto ver Russell Crowe, num filme mais recente de Weir - O Mestre dos Mares -, defender a bandeira inglesa e o espaço daquele navio como a pátria pela qual valia morrer. Weir perdeu suas origens no cinema globalizado? É mais fácil encontrar uma constante temática do que um estilo no cinema de Peter Weir. Como John Huston, que afirmava não ter consciência de possuir um estilo, Weir é do tipo que muda a toda hora para se adaptar às histórias que quer contar. Sejam comédias ou dramas, elas celebram um tipo de personagem - o homem que não se deixa dobrar pela adversidade e/ou faz descobertas assombrosas sobre si mesmo - num mundo em perigo. Gallipoli é de 1981; A Testemunha é de 1985; O Show de Truman é de 1998. O primeiro era, na época (e permanece até), o filme mais caro produzido na Austrália. Os outros dois foram produzidos em Hollywood. Weir deu um de seus primeiros grandes papéis ao futuro astro Mel Gibson, em Gallipoli. E ele voltaria a dirigir o ator em O Ano em Que Vivemos em Perigo, de 1982. Gallipoli conta a história desse dois australianos jovens que têm em comum a habilidade como corredores. Um, Mark Lee, sonha com a glória de ser soldado. O outro, Gibson, duvida da honrarias das guerras, mas é ambicioso a ponto de participar dela movido pelo interesse pessoal - na frente de combate, ele acredita, é possível ganhar um bom dinheiro. Ambos integram a Cavalaria australiana, que os ingleses vão lançar contra os turcos, nos Dardanelos. A primeira parte do filme sugere uma saga de aventureiros, com direito à reconstituição de uma feira em cidade do interior, um baile de despedida dos jovens soldados e incidentes variados que integram a maioria dos relatos sobre o rito de passagem. A segunda parte continua tão ou mais impressionante do ponto de vista técnico, mas o tom trorna-se cada vez mais soturno, sob os acordes do Adágio de Albinoni, que acompanha os navios que, na sombra da noite, conduzem os jovens para o sacrifício. Apenas 24 horas após o desembarque de 20 mil australianos e neozelandeses em Gallipoli, oito mil já estavam mortos ou feridos. A praia vira um banho de sangue no qual se empilham os cadáveres e o massacre é alimentado pela estupidez dos comandantes militares. No fim da campanha, oito meses depois, eram raros os sobreviventes. Mesmo que não seja tão grande, Gallipoli reabre a vertente antimilitarista de clássicos como Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick, ou King and Country, de Joseph Losey. Weir faz uma crônica das ilusões perdidas de seus heróis, que serão marcados para sempre pela terrível experiência. Quatro anos mais tarde, Weir já estava em Hollywood dirigindo o astro Harrison Ford no papel do policial da cidade grande que se infiltra numa comunidade amish para proteger garoto que assistiu a um assassinato. A Testemunha constrói-se na oposição entre a dinâmica do tira e o imobilismo deste mundo parado no tempo e no qual se vive, hoje, como há 300 anos. Weir passa o estranhamento para o espectador e também explora sutilmente a tensão sexual entre Ford e a mãe do garoto, interpretada por Kelly McGillis. A história de amor é condenada à impossibilidade. E nunca chega a aflorar, por conta das diferenças culturais que cavam um abismo entre o casal de protagonistas. A Testemunha ganhou o Oscar de roteiro (para Earl W. Wallace, William Kelley e Pamnela Wallace). Mais engenhoso ainda, o roteiro de Andrew Nicol para O Show de Truman - O Show da Vida transforma Jim Carrey neste sujeito que não tem consciência de viver sob os holofotes da TV, desde que nasceu. Só Truman não sabe que é produto da experiência de um diretor megalomaníaco, que grava sua vida 24 horas por dia, para transmissão, ao vivo, pela TV. Nicol e Weir anteciparam, há oito anos, o que se transformaria numa praga a assolar as TVs de todo o mundo - os reality shows tipo o Big Brother Brasil, atualmente no ar, na Globo. Nicol, que depois virou diretor (mediano), escreveu um roteiro original, no qual são transparentes as influências de Franz Kafka e George Orwell. Do primeiro, O Show de Truman recolhe a idéia de um personagem preso num labirinto; e do segundo absorve a idéia da engrenagem que sufoca o indivíduo e na qual a conquista e manipulação da imagem implicam num controle totalitário que leva à perda da liberdade pelos cidadãos. Truman adquire, progressivamente, consciência de sua situação. A partir de um momento, o suspense do público é - ele conseguirá escapar à sua prisão? É mais do que uma discussão sobre a mídia. O Show de Truman põe em xeque o próprio conceito de Deus. Weir, realmente, sabe tornar os temas difíceis acessíveis para o grande público. Gallipoli. Austrália, 1981. Com Mel Gibson e Mark Lee. A Testemunha (Witness). EUA, 1985. Com Harrison Ford e Kelly McGillis. O Show de Truman (The Truman Show). EUA, 1998. Com Jim Carrey, Laura Linney e Ed Harris. Todos dirigidos por Peter Weir e lançados em DVD pela Paramount. Nas lojas, R$ 29,90 cada

Agencia Estado,

01 de março de 2006 | 11h48

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