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Filmes de Miguel Gomes são destaque na Mostra Internacional de Cinema

'As Mil e Uma Noites', 'O Inquieto', 'O Desolado' e 'O Encantado' serão exibidos no Cinesesc

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2015 | 16h00

Que ninguém nos ouça, muito menos Renata de Almeida, diretora da Mostra. Ela tem um cuidado tão grande pelo evento que ocorre em 25 salas que talvez fique triste ao saber que muitos diretores brasileiros sonham com a exibição dos filmes deles no Cinesesc, que seria a melhor de todas (pela projeção). Neste domingo, o cinéfilo pode muito bem lançar âncora na sala da Rua Augusta e lá ficar, a partir das 3h da tarde. Começando nesse horário, o Cinesesc exibe a íntegra da trilogia As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, O Inquieto, O Desolado (17h30) e O Encantado (20 h). No fim do terceiro, lá pelas 23h15, haverá debate do autor com o público.

Na abertura do 1.º, o próprio Gomes apresenta seu dilema – é possível fazer filmes com comprometimento social e que sejam, ao mesmo tempo, abertos para o maravilhoso? Ocorre um problema, a equipe o transforma em refém e Gomes, tal como uma Sherazade, começa a desfiar suas histórias. O leitor pode crer que vai viajar no encantamento durante as mais de oito horas da projeção integral, mas há um episódio no segundo filme – as lágrimas da juíza – que ajuda a entender por que, isoladamente, O Desolado foi indicado por Portugal para concorrer a uma vaga no Oscar.

Imenso como é – grande filme e filme grande –, As Mil e Uma Noites não é a única atração do domingo, que terá também o nacional Boi Neon, de Gabriel Mascaro, premiado no Rio; Que Viva Eisenstein! – Dez Dias Que Abalaram o México, de Peter Greenaway; e Três Lembranças da Minha Juventude. O novo Arnaud Desplechin retoma a história do personagem Paul Dedalus, de Mathieu Amalric, em Como Eu Briguei (por Minha Vida Sexual). Dividido em seções – três capítulos –, o filme passeia na imaginação enquanto Paul, adulto, lembra sua viagem à antiga URSS, quando ainda era garoto; o amor de juventude; e a traição do melhor amigo, tudo isso permeado pela doença da mãe, que o fragiliza.

Como em Marcel Proust – Em Busca do Tempo Perdido –, a madeleine que desencadeia o fluxo das lembranças é o passaporte de Paul, que pode ou não ser falso, e por que. O filme é um típico Desplechin, que não dispensa a narração, tela dividida, personagens falando diretamente para a câmera e efeito chamado de íris, em que a tela vai escurecendo até o diminuto círculo que chama a atenção para algum detalhe. Quentin Dolmaire e Lou Roy-Lecollinet são os jovens protagonistas, e ambos são maravilhosos. Em Cannes, em maio, havia gente revoltada porque Três Lembranças não integrou a competição. O filme estava em outra seção – Quinzena dos Realizadores –, na qual também passou a trilogia de Miguel Gomes.

Em Berlim, em fevereiro, também havia gente revoltada contra o inglês Greenaway, que, em Que Viva Eisenstein!, toma suas liberdades ficcionais para ilustrar, graficamente inclusive, um episódio controverso da biografia do diretor de O Encouraçado Potemkin. No fim dos anos 1920, Eisenstein estava tendo problemas com a censura do regime comunista. Convidado pelo escritor Upton Sinclair, ele foi atraído aos EUA, com a possibilidade de filmar o romance de Theodore Dreiser, Uma Tragédia Americana. O livro teria duas versões – a homônima, de Josef Von Sternberg, de 1931, e Um Lugar ao Sol, de George Stevens, em 1951.

Como sua versão nunca se concretizou, Eisenstein foi ao México desenvolver outro projeto que o atraía – um filme sobre a cultura mexicana. Filmou muito, mas um imbróglio envolvendo a produção e outro, o seu passaporte, fizeram com que Eisenstein nunca pudesse montar o material. O diretor, garantem seus biógrafos, era um gay reprimido que sublimava seus instintos. A ficção de Greenaway é sobre o presumível amante mexicano de Eisenstein, com quem ele perde a virgindade numa cena quase explícita de sexo anal. Em vez de dizer que simplesmente não gostaram do que viram, críticos que cultuam Eisenstein resolveram desqualificar o filme pela imprecisão de detalhes históricos.

 

DESTAQUES

'A Estreita Faixa Amarela'

O longa do mexicano Celso García ficou entre os mais votados do público e está sendo submetido à apreciação do júri. Cinco homens sofrem para pintar faixa amarela de estrada que liga duas cidades.

'Olmo e a Gaivota'

Documentário nas bordas da ficção. Petra Costa filma atriz francesa numa montagem de A Gaivota. Ela descobre estar grávida e a vida interfere na arte.

'Casanova 70'

Marcello Mastroianni faz o anti-Casanova, que precisa de perigo para não fracassar na cama. Destaque da mostra de Mario Monicelli.

'A Ovelha Negra'

O filme de Grimur Hakonarson concorre com Que Horas Ela Volta? a uma vaga no Oscar.

'Terra e Sombra'

O filme do colombiano César Augusto Acevedo foi outro escolhido pelo público para concorrer ao troféu Bandeira Paulista.

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