Filmes cubanos estão mais críticos

Os dois longas-metragens de ficção cubanos em competição no Festival de Havana - Lista de Espera, de Juan Carlos Tabío, e Hacerse el Sueco, de Daniel Dias Torres - são muito parecidos. Ambos de boa feitura, apostam na comédia de costumes como maneira de revelar alguns dos problemas do país, até havia pouco cuidadosamente jogados para debaixo do tapete.Excesso de burocracia, envolvimento de parte da população em atos ilícitos como aluguel de suas casas a estrangeiros, tráfico de produtos proibidos, como lagostas, charutos e rum de origem duvidosa, falta de motivação, etc. Tudo isso está nos filmes, nas entrelinhas e mesmo nas linhas das histórias. Estão também, temperando a crítica, o senso de humor, o proverbial jeitinho cubano, tão parecido neste ponto com o brasileiro, a ironia, e acima de tudo, o amor por um país meio desconcertado, mas com o qual as pessoas se identificam de maneira muito sólida.Em Lista de Espera, Tabío - que foi co-diretor de Morango e Chocolate e Guantanamera com Tomás Gutiérrez Aléa, o mais importante diretor da ilha, já falecido - encena um microcosmo criado por acaso.Num terminal de ônibus, em uma cidadezinha perdida no interior de Cuba, um grupo de passageiros espera condução para levar cada um ao seu destino. Como tudo demora, e nada funciona, o grupo vai permanecendo por ali. Vão-se criando laços e forma-se uma verdadeira comunidade alternativa. Algo assim como Auto-Estrada do Sul, o conto de Cortázar em que um congestionamento monstro perto de Paris cria uma teia de relações humanas temporárias. Em Lista de Espera, o ator cubano Jorge Perrugoría (de Estorvo) está inesquecível como o falso cego que tenta se aproveitar dos companheiros.Já em Hacerse el Sueco, a história é outra. Bjork (Peter Lohmeyer) é um professor de literatura que vem de Estocolmo, e aluga um quarto na casa de uma família cujo chefe é um policial aposentado por ter enfartado durante um assalto. Bjork quer um convívio natural com o povo da ilha e, por isso, vai se instalar nessa casa de cômodos em Centro Havana.Precisa fazer pesquisa de campo, conhecer o hábito e a forma de falar dos moradores. Por isso, estranha quando os cubanos passam a comportar-se diante dele de maneira artificial, muito contida e polida, para que tenha boa impressão do país. Numa das melhores sequências do filme, a vizinhança a peso de dinheiro fornece uma boa briga ao estrangeiro, com direito a rituais de feitiçarias e outras manifestações "típicas". Essa dialética entre a naturalidade e a artificialidade é uma pequena esperteza do diretor. Permite olhar o país como se fosse pelo ponto de vista de um estrangeiro, descontaminado, portanto, do hábito.Mas o filme evolui em outras direções, uma delas, a principal, uma trama policial com misteriosos assaltos que começam a acontecer desde a chegada do estrangeiro. O fato de ele se instalar na casa de um tira aposentado também não deve ser tido por uma coincidência. Enfim, uma trama bem amarrada, mas em tom deliberadamente fake, porque, afinal, trata-se de uma comédia.A platéia - E, tal como a Lista de Espera, a comédia está formatada de modo a estabelecer um diálogo fácil com o público. Especialmente com o público cubano. Dá gosto assistir a esses filmes em Havana, com uma platéia participativa, que ri das situações porque se reconhece imediatamente nelas. Ou seja, as pessoas sabem que o filme está o tempo todo falando delas, o que é a melhor definição de ficção: uma história contada com personagens que os espectadores reconhecem como seus heterônimos potenciais. Aquilo poderia estar acontecendo com eles, por que não?A comédia crítica é uma possibilidade estética e também um limite político. Por exemplo, não aconteceria por aqui algo como La Ley de Herodes, com seu sarcasmo devastador sobre a realidade política mexicana. Ou, para ficar num exemplo doméstico, algo como Cronicamente Inviável, de Sérgio Bianchi, com a sua falta de saídas em qualquer direção e absoluta ausência de senso de humor.Decadentismo - Vem, no entanto, do Chile, aquele que talvez seja o mais consistente drama apresentado nesta 22ª edição do Festival de Havana. Coronación, de Silvio Caiozzi, é uma adaptação de um romance de José Donoso, provavelmente o mais importante romancista chileno. O filme, que já venceu o Festival de Huelva, na Espanha, inscreve-se, como destacou um crítico local, na grande família estética do decadentismo, que inclui obras como A Queda da Casa Usher, de Poe, Os Buddenbroks, de Mann, O Leopardo, de Lampedusa ou Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Rangel. São obras que refletem sobre a inevitável voracidade do tempo e a maneira como ele atinge e corrói tudo o que parece às vezes tão sólido: uma família, uma mansão, uma dinastia, uma classe social.No caso de Coronación, há uma velha senhora aristocrática, ora lúcida, ora esclerosada, que é cuidada por um neto já idoso e por duas criadas. O estopim da desordem chega com a contratação de uma nova criadinha, de origem índia, jovem, bonita, que desperta o desejo do senhor da casa, a ira da matriarca e a inveja das colegas mais velhas.Além disso, a mocinha começa a namorar um rapaz confuso, que não anda exatamente em boas companhias. Será ela o elo entre o ascético interior da casa e o mundo lá fora, povoado de gente agressiva, de mau-gosto e às vezes desonesta. O populacho, enfim.Extratos sociais - Um grande drama humano, mas também social, pois cada personagem representa um extrato social bem definido. Há a velha aristocrata, prestes a morrer, e seu neto, que já degradou a origem e, sintomaticamente, não teve filhos. Os empregados, que zombam dos patrões, mas são obrigados a viver à sombra deles. Os ladrões, que são o lumpesinato, sem consciência nenhuma, e tentam tirar proveito de alguma maneira. Toda essa liga política é feita sem nenhum esquematismo. A obra não fala do social - apenas deixa que ele entre em sua composição, impregne o subtexto e tire dele o seu sentido mais geral. Mas ficar por aí seria empobrecer esse filme complexo. Há também a conferir todo um filão do erotismo não realizado (e, portanto, amplificado) que liga o patrão idoso à criadinha esquiva. Lembra, em alguns momentos, o grande Buñuel de Esse Obscuro Objeto do Desejo. A sequência que mais fica na memória é a da coroação, que dá título ao romance e ao filme, na qual as empregadas, bêbadas, coroam a velhinha moribunda. Uma epifania, existencial e política. Enfim, um filme que ainda vai dar o que falar. Tem pinta de campeão.Itália - O diretor Pasquale Scimeta, de Placido Rizzotto, costuma dizer que é muito influenciado pelo Brasil. Quando filmava em Corleone, na Sicília, essa história de luta pela posse da terra, disse que conversou com um sindicalista brasileiro e este lhe disse algo assim: "Você está mostrando uma história italiana, de 50 anos atrás, que está acontecendo neste exato momento no Brasil". Placido Rizzotto, que dá título ao filme, foi um líder camponês, devidamente "desaparecido" pela máfia, quando se comprovou que seus interesses eram divergentes. Scimeta diz mais: sua identificação com o Brasil não é apenas temática, mas estilística: "Acho que sou mais influenciado pelo Cinema Novo brasileiro do que pelo neo-realismo italiano", diz. De fato, em Placido Rizzotto essa ressonância está na forma épica como os episódios são narrados, um tom às vezes barroco, às vezes seco como conduz o desenvolvimento desse drama social.Embora nunca estejam em competição, os italianos são sempre muito esperados em Havana. Este ano organizaram um mostra sintética como seis filmes novos (Placido Rizzotto, Pães e Tulipas, A Língua do Santo, Os Cem Passos, Prefiro o Barulho do Mar e O Guerrilheiro Johnny) e três em homenagem ao ator Vittorio Gassman, morto em junho: Perfume de Mulher, I Soliti Ignoti e A Família. Quem veio representar a retrospectiva de Gassman foi o filho mais novo do ator, Jacobo Gassman, que estuda cinema em Nova York. Botou a boca no trombone. Disse que na América Latina seu pai tinha sido mais lembrado do que em seu próprio país de origem. Alusão clara ao vexame do Festival de Veneza, que praticamente esqueceu Gassman em sua edição de setembro último.A mostra italiana, organizada pelo jornalista Gianni Minà, agradou muito ao público de Havana, com sua mistura equilibrada entre dramas políticos (Os Cem Passos, O Guerrilheiro Johnny, Placido Rizzotto), pessoais (Prefiro o Barulho do Mar), uma comédia (A Língua do Santo) e uma comédia romântica de alta classe (Pães e Tulipas). Mas nenhuma noite foi tão mágica como aquela no Cine Riviera, que apresentou Perfume de Mulher, uma atuação magnífica de Gassman no papel do militar amargurado porque ficou cego em um acidente. "Era um dos seus dois filmes preferidos, sendo o outro Aquele que Sabe Viver (Il Sorpasso), de Dino Risi", disse Jacobo Gassman. Basta rever esse filme para sentir o tanto que a Itália e o mundo devem a Vittorio Gassman. Vê-lo atuar é uma das formas possíveis da felicidade.

Agencia Estado,

15 de dezembro de 2000 | 16h22

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