Olhar Distribuição
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Filmes como ‘Ferrugem’ e ‘Yonlu’ discutem a juventude e o mundo da internet e dos aplicativos

Produções compartilham temas da maior atualidade e importância, como os linchamentos morais na era da internet

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2018 | 06h00

Além de ser premiado autor de teledramaturgia, George Moura também é roteirista e/ou consultor de roteiros para cinema. Exerceu a função em Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor, e o filme venceu o prêmio da categoria – o Redentor – no Festival do Rio do ano passado.

Moura também é consultor no roteiro de Ferrugem, e o longa de Aly Muritiba venceu os Kikitos de melhor filme e roteiro no recente Festival de Gramado. Com todas as diferenças que possam ter, Aos Teus Olhos e Ferrugem – que estreia nesta quinta, 30 – compartilham um tema da maior atualidade e importância, os linchamentos morais na era da internet.

Acusado de pedofilia nas redes sociais, o professor de natação Daniel de Oliveira não tem nem chance de se defender em Aos Teus Olhos. E a adolescente de Ferrugem vira pária social na escola depois que vaza o vídeo que o namorado e ela fizeram, tendo relações sexuais.

Nesta quinta também estreia Yonlu, de Hique Montanari, baseado na história real de garoto de 16 anos que foi buscar apoio num grupo de suicidas na internet. Em vez de um abraço amigo para enfrentar – e superar – a crise, recebeu o empurrão para a morte e suicidou-se diante da câmera.

Que mundo é esse? O que está ocorrendo com essa juventude refém do celular, das redes sociais? Que tipo de crise, que mal-estar a consome?

São questões que interessam aos pais, a educadores e aos jovens, bem-entendido. O cinema escancara a angústia. Na semana passada estreou Benzinho, de Gustavo Pizzi, coescrito pelo diretor com sua atriz e ex-mulher, Karine Teles. Benzinho é belíssimo – em Gramado, concorrendo com Ferrugem, venceu os Kikitos de melhor filme do público e da crítica, mais os prêmios de melhor atriz e melhor coadjuvante, para Karine e Adriana Esteves.

Apesar dos prêmios, e elogios, Benzinho está fazendo uma miséria de público, seguindo as pegadas de outros filmes elogiados – O Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida, e Como É Cruel Viver Assim, de Júlia Rezende. Ou seja – a par dos problemas sociais, existenciais (e estéticos) que todos esses filmes colocam, há também o estigma.

A produtora Mariza Leão radiografou o problema na edição de domingo, 26, do Estado. O mercado está hoje formatado para os blockbusters, não existe mais espaço para o filme pequeno, ou mesmo médio, autoral. Esse outro cinema tem de procurar alternativas, plataformas, provedores.

O futuro, sentencia Mariza, é Netflix, é Amazon. Ferrugem e Yonlu, com toda a sua complexidade e riqueza, estão entrando para o sacrifício? Para se somar às estatísticas dos filmes de 10 mil caso também da anteriores? Essa talvez seja uma avaliação reducionista, porque Aos Teus Olhos e Ferrugem integram uma carteira de filmes da Globo que, na emissora, são chamados de ‘pequenos grandes filmes sobre temas urgentes’.

Assista ao trailer de Ferrugem

A Globo Filmes seleciona esses projetos e os produz por meio da renúncia fiscal. São filmes que têm supervisão artística de Guel Arraes e George Moura para a emissora, um com crédito de produção, outro de supervisão de roteiro. E, embora eventualmente possam fazer público reduzido nos cinemas, são filmes que depois passam em horários nobres da emissora, atingindo números de espectadores compatíveis com os de blockbusters.

Tal é a importância de um filme como Ferrugem. Do ponto de vista do diretor e corroteirista Muritiba, pode-se dizer que suas ficções – caso, também, da anterior Para Minha Amada Morta – são contaminadas por sua atividade como documentarista, que decorre, e muito, da função primeira como agente penitenciário.

Seu documentário O Agente é muito fruto dessa experiência, que depois se reflete nas ficções, que são histórias de crimes. Tanto Para Minha Amada Morta como Ferrugem contam histórias sobre como imagens – a descoberta de um vídeo que expõe um adultério, outro vídeo que transforma uma garota numa vadia para a comunidade inteira de WhatsApp da sua escola – levam a desdobramentos perigosos.

Ferrugem divide-se em duas partes. Na primeira, pelo ângulo da garota, o que se conta é a história do vazamento do vídeo. Na segunda, do ângulo de um amigo, não apenas as consequências como descobertas – revelações surpreendentes. Para Muritiba, suas duas ficções – vem aí uma terceira, Deserto Particular – estão embasadas num fenômeno muito contemporâneo.

O temor do homem diante do empoderamento feminino, dessa nova mulher que não tem mais medo de assumir sua sexualidade. Do ponto de vista da carteira de filmes globais, o tema é outro – os jovens dominam as ferramentas dos celulares, dos aplicativos, mas ainda não têm maturidade para avaliar suas implicações morais. Diante disso, as eventuais fraquezas narrativas de Ferrugem tornam-se secundárias.

Assista ao trailer de Yonlu:

ENTREVISTAS: 

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'Ferramentas mudaram, problemas, não'
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Alyy Muritiba, diretor de 'Ferrugem'

Sua obra de cineasta, especialmente as ficções, tem muito a ver com o tema contemporâneo dos afetos...

Os dois filmes, Ferrugem e Para Minha Amada Morta, têm muitos pontos em comum. Ambos possuem personagens masculinos sensíveis e introspectivos, e além do mais homens que são perturbados pelas novas questões do empoderamento feminino e do afeto. Em ambos os filmes, o disparador do drama é sempre um vídeo; no anterior era um VHS, agora um conteúdo do WhatsApp, e nos dois a imagem tem uma força sexual que mexe com a vida das pessoas que a descobrem. Então, de alguma forma, acho que se pode dizer que estou fazendo o mesmo filme, guardadas as diferenças que personalizam cada obra.

Que história foi essa de querer fazer um filme com os jovens, não só sobre eles?

Tem a ver com a paternidade, com o fato de meus filhos estarem crescendo e eu querer colocar nos filmes os assuntos que converso com eles. Discutia com minha ex-mulher a questão do celular, quando liberar o celular para eles. O primeiro esboço de história era muito ingênuo, tinha mais a ver com a minha experiência dos anos 1980, de querer sair com garotas. Quando chamei a Jessica Candal para escrever comigo, ela trouxe a contemporaneidade, a questão do pertencimento, que é tão importante para o jovem de hoje. Estar no grupo... Mas isso, no fundo, também tem um lado muito antigo. Sou de uma cidadezinha do interior da Bahia em que ser malfalado era uma sentença de morte. Então essa coisa da menina galinha, do garoto garanhão, do rótulo, cara, não mudou tanto. As inseguranças permanecem, as ferramentas é que mudaram. 

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‘Uma história para afirmar a vida’
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Hique Montanari, Diretor de 'Yonlu'

Como começou seu envolvimento com a história de Yonlu?

Em 2006, soube, como todo mundo, da história do músico Vinicius Gageiro Marques, que havia transmitido a própria morte na internet, mas só depois soube da real dimensão do fato, e do personagem. Quando o disco dele saiu no exterior, quando seus múltiplos talentos passaram a ser divulgados e investigados. Mas nunca havia pensado nisso como tema de filme. Foram mais de dez anos entre o fato e o filme, tempo mais do que suficiente para que o projeto amadurecesse.

Trata-se de uma ficção, não de um documentário...

Houve sempre a preocupação de se basear em fatos reais, mas não ceder ao sensacionalismo nem explorar a imagem da morte. O filme foi muito pesquisado e documentado, mas a encenação se impôs desde logo.

Por que contar essa história?

Porque esse garoto de 16 anos possuía um talento excepcional. Precisava de um abraço. A maldade humana no fórum virtual em que se discutia suicídio provocou sua morte. E o que ele sofreu foi muito sádico, muito cruel. Fiz o filme para afirmar a vida e também porque é importante que essa história seja discutida por pais, educadores. Não se trata de querer condenar a internet, mas refletir sobre seus excessos, seus perigos. Em uma das primeiras telas do filme, temos a frase em português que é o título (em inglês) do disco lançado por David Byrne no selo Luaka Bop. Uma Sociedade na Qual Nenhuma Lágrima É Derramada É Inconcebivelmente Medíocre. Ela resume o pensamento de Yonlu, vivido por Thalles Cabral, ator que fez a novela Amor à Vida. 

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