Filmes alternativos da China causam impacto no exterior

As platéias do outro lado do mundo adulam e dão prêmios aos filmes alternativos chineses, mas encontrar espectadores em casa é algo muito mais difícil. Tuya´s Marriage, dirigido por Wang Quan´an, ganhou o prêmio principal do festival de Berlim no sábado, depois da vitória de outro filme chinês, Still Life, no festival de Veneza, em setembro. Os dois foram feitos com orçamentos baixos, são dramas que ressaltam o custo humano e ambiental da rápida expansão econômica chinesa, mas é improvável que encham as salas de cinema da China ou as prateleiras das lojas de DVD. Alguns diretores chineses que estiveram em Berlim neste ano argumentam que o problema é o mesmo em qualquer país, onde as grandes produções e as comédias românticas dominam os cinemas em detrimento dos filmes mais sérios. Mas outros acham que a diferença entre os dois "gêneros" de filmes aprofundou-se na China, tornando mais difícil ainda o apoio a produções de orçamento baixo. "Acho que esta divisão é uma coisa muito estranha, e não é normal ver algo tão evidente como está agora na China", disse Wang. Ele argumenta que a diferença entre filmes de arte e o cinema comercial não era tão grande há 20 anos, quando Zhang Yimou fez seu aclamado Red Sorghum, que por coincidência também ganhou o Urso de Ouro de Berlim em 1988. "Naquela época, quando não tínhamos tal divisão -- era um filme artístico, mas era visto pelo público comum no mundo, foi sucesso entre intelectuais e críticos, bem como entre os espectadores comuns", disse Wang à Reuters. "Não é bom ter esta divisão tão forte entre dois gêneros." Quando ele começou a filmar Tuya´s Marriage (O Casamento de Tuya) sobre a vida de uma família de pastores cuja sobrevivência é ameaçada pela desertificação das estepes da Mongólia, Wang lembra-se que as pessoas diziam que ninguém na China gostaria de ver o filme, a não ser "algumas autoridades políticas". Censura Muitos diretores dizem que agora é uma boa época para se fazer filmes na China, apesar do desafio de se encontrar audiência doméstica e das brigas com os censores. Zhang Yang, diretor do filme Getting Home, exibido neste ano em Berlim, mas fora da competição principal, disse que agora há "um momento muito bom" para jovens diretores. "Não é como era antes, quando um filme era totalmente cortado em pedaços e morto se não passasse (pelos censores)." Fang Li, produtor de Lost em Beijing (Perdido em Pequim), que competiu em Berlim, disse que o cinema chinês mudou muito desde a época em que o herói costumava ser camponês forte. Ele disse que as decisões da censura não são motivadas muito pela política, mas sim pela maneira como as gerações pensam sobre sexo, violência, aposta e outros tipos de comportamento. Seu filme ressalta como a censura continua sendo uma grande decepção para diretores de filmes de arte. Os produtores da obra sobre a Pequim moderna conversaram com os censores durante semanas antes de concordarem em fazer uma versão modificada. Por causa da falta de tempo, Fang disse que o filme não censurado foi exibido em Pequim, o que representa possíveis sérias consequências para ele e para a diretora Li Yu. Em 2006, Lou Ye foi proibida de fazer filmes por cinco anos depois da exibição do seu Summer Palace (Palácio de Verão) em Cannes sem aprovação. Li e outros diretores pediram o estabelecimento de um sistema de classificação similar ao do Ocidente, em vez de uma decisão de "sim" ou "não". "Na China existe apenas uma categoria", disse o produtor de Hong Kong Nansun Shi, que fez parte do júri em Berlim. "Ou passa, ou não. Isso não funciona mais."

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