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Filme narra a história de cubanos infiltrados que planejam derrubar ditadura de Fidel Castro RT Features

Filme 'Wasp Network’ vai abrir a 43.ª Mostra de Cinema de São Paulo

Longa do diretor francês Olivier Assayas tem Édgar Ramírez, Wagner Moura e Gael García Bernal no elenco

Mariane Morisawa, Especial para O Estado

13 de outubro de 2019 | 07h00

VENEZA - Foi o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira quem fez chegar às mãos do diretor francês Olivier Assayas, por meio de seu produtor francês, Charles Gillibert, o livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, sobre um grupo de cubanos infiltrados nos movimentos anticastristas em Miami. “Eu acho que ele me procurou por causa de Carlos, o Chacal”, disse Assayas ao Estado durante o Festival de Veneza, onde o filme Wasp Network fez sua estreia mundial, em competição – o longa abre a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, para convidados, no dia 16, com presença do cineasta e dos atores Édgar Ramirez e Leonardo Sbaraglia, além de Wagner Moura. “Eu achei o material extraordinário, mas muito difícil de adaptar.” 

O livro conta a história completa dos chamados Cinco de Cuba, que, depois de presos pelas autoridades americanas, recusaram acordos e cumpriram longas penas por suas atividades. Assayas achou melhor focar em alguns dos personagens, especificamente em René González (o venezuelano Édgar Ramírez), que parte para os Estados Unidos sem deixar nem bilhete para sua mulher Olga (a espanhola Penélope Cruz) e os filhos. Em tese, foi tentar uma vida melhor – mas, na verdade, se infiltra em organizações que tentam derrubar o governo de Fidel e depois o do seu irmão Raul Castro, inclusive explodindo hotéis em Havana. Vive como um imigrante comum, com dificuldade financeiras. “Eles eram espiões proletários”, contou Assayas. “É difícil entender o que faz uma pessoa aceitar abandonar a família, mas, no fim, eles eram soldados. Acho que eles foram os últimos de uma geração que estava disposta a morrer por seus ideais.”

Outro personagem importante é Juan Pablo Roque (Wagner Moura), tenente-coronel das Forças Aéreas Cubanas, que nada sete horas até a base de Guantánamo para pedir asilo ao governo americano. Ele também se infiltra na Wasp Network (“rede de vespas”, na tradução), mas vira agente duplo para o FBI. Torna-se celebridade local ao fazer uma cerimônia de casamento espetacular com Ana Margarita Fernandez (a cubana Ana de Armas, de Blade Runner 2049), que depois abandona ao retornar a Cuba

O elenco ainda conta com o mexicano Gael García Bernal, como o chefe da rede, e o argentino Leonardo Sbaraglia (de Dor e Glória, o último filme de Pedro Almodóvar), como o líder de um dos grupos anticastristas. É quase um dream team da América Latina. “Minha intenção era ser autêntico e usar apenas atores cubanos”, disse Assayas. “Mas eu vi que não dá para escrever um roteiro que custa mais do que seus filmes independentes e usar só atores desconhecidos. Então pensei: Por que não ir atrás dos melhores?” O cineasta já tinha trabalhado com Édgar Ramírez, que fez o personagem-título da minissérie Carlos, o Chacal, mas não conhecia Wagner Moura. “Eu o adorei assim que conheci. É uma das coisas que o cinema proporciona: não apenas ele era o homem certo para o papel, mas também para ser meu amigo”, disse Assayas. Para o diretor, trabalhar fora da França é uma oportunidade “de conhecer atores de outras culturas, que falam outra língua, o que abre meu mundo e também renova meu prazer em fazer filmes”.

Rodar em Cuba foi uma caixinha de surpresas. “Não tivemos tantas restrições quanto eu pensava. Eles nos deixaram filmar coisas que não imaginei que iam permitir”, disse o diretor. Por exemplo, o lobby de um dos hotéis que sofreu atentado de um grupo anticastrista, mas também uma base aérea, com três caças MiG no ar. “As coisas mudaram no meio do caminho, porque as tensões políticas com os Estados Unidos acabaram afetando.” Édgar Ramírez contou que as regras eram alteradas o tempo todo. “Algumas permissões eram retiradas. Era toda uma burocracia, o que não é surpreendente nem estranho para mim, que venho da Venezuela. É um lugar complicado. Sou jornalista e faço muitas perguntas. Algumas pessoas estavam dispostas a responder, e outras, não, o que diz muito sobre o estado de coisas.”

Assayas disse que tinha uma visão errônea sobre a ilha, uma coisa mais turística, com os carros antigos e as casas coloridas. “Mas os cubanos levam uma vida muito difícil. É deprimente ver tanta pobreza no centro de Havana”, disse. “Para nós, era estranho porque ficávamos numa Cuba que tem seu próprio dinheiro, em que há restaurantes caros. Claro que vemos esse contraste em outros países, mas ali a população não tem acesso à internet, é um país sem democracia. A sensação é a de que não vai durar muito. Mudanças vão acontecer.” 

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'Não acho que seja um filme tendencioso’, diz Édgar Ramirez

Ator é o piloto René González em 'Wasp Network', filme de Olivier Assayas que vai abrir a 43.ª Mostra de Cinema de São Paulo

Entrevista com

Édgar Ramirez

Mariane Morisawa, Especial para O Estado

13 de outubro de 2019 | 07h00

VENEZA - Em Wasp Network, o ator venezuelano Édgar Ramírez faz o piloto René González, que abandona a família para uma missão secreta nos Estados Unidos: fingir-se de imigrante para infiltrar organizações anticastristas que tentam derrubar o regime em Cuba. Ramírez conversou com o Estado

 

Mariane Morisawa - Sua formação como jornalista ajuda a interpretar personagens?

Édgar Ramírez - Com certeza. Atuar é uma forma poética de explorar a natureza humana. Mas os jornalistas também fazem isso, com perguntas. O jornalismo me ajudou com uma metodologia. Quando eu fiz Gianni Versace (na minissérie American Crime Story), consegui contatar um dos melhores amigos do estilista. Levou quatro meses para ele se abrir. Foi um trabalho jornalístico. 

 

Qual era seu conhecimento de Cuba antes de começar o projeto?

Cuba sempre foi muito presente na história da América Latina, até antes da revolução. Foi importante para a Coroa Espanhola e era a Hong Kong das colônias. 

 

Passar um tempo lá mudou sua visão?

Cuba, para qualquer latino-americano, é um dos lugares mais malucos da América Latina. Porque, na comparação, tem menos pobreza do que outros países da região, mas também é um dos países com mais desigualdade. E isso é uma grande ironia, quando se passou mais de 60 anos sacrificando a vida de tantas pessoas em nome da igualdade e termina sendo um lugar onde alguns têm acesso a restaurantes e praias bacanas, e a maioria da população é proibida de frequentar. A política não me impressiona em nada. Não me expresso politicamente no meu trabalho. Se quiser saber quais são minhas causas, cheque meu Instagram

 

Mas se houvesse um filme sobre a situação da Venezuela hoje, você se interessaria em fazer?

Dependendo da história, do personagem e do conflito humano, sim, com certeza. Se for uma história tendenciosa, não me interessa. Eu não acho que Wasp Network seja tendencioso.

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Em tempos difíceis, 43.ª Mostra de Cinema de São Paulo vem forte e com seleção extensa

São 300 filmes, incluindo 60 brasileiros; obras premiadas nos maiores festivais e autores de importância reconhecida

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2019 | 07h00

Importantes festivais de cinemas do País tiveram de adiar suas datas e até abrir crowdfunding para se viabilizar neste ano. Os cortes de patrocínios à cultura têm sido drásticos. Nesse cenário que se torna crítico, a Mostra de Cinema de São Paulo inicia firme e forte na quarta-feira, 16, sua 43.ª edição. Ministério da Cidadania, governo do Estado, Prefeitura, Itaú e Sabesp garantem a realização do evento de cinema mais importante da cidade.

Será uma mostra surpreendente, potente, anuncia a própria diretora do evento, Renata de Almeida. Até dia 30 serão exibidos cerca de 300 filmes. Em torno de 60, um quinto, brasileiros. Renata destaca o DNA brasileiro, presente desde o cartaz de Nina Pandolfo, do qual foi retirada uma vinheta de grande sensibilidade – “Um oásis nestes tempos de tanta brutalidade e grosseria”, segundo Renata –, mas também nos filmes de abertura e encerramento. 

A mostra abre-se com Wasp Network, de Olivier Assayas, produção de Rodrigo Teixeira a partir do best-seller de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, em presença do diretor e dos atores Édgar Ramírez e Wagner Moura. Encerra-se com Os Dois Papas, produção internacional dirigida por Fernando Meirelles, com Jonathan Pryce e Anthony Hopkins como os papas Francisco e Bento XV que discutem os rumos da Igreja (e do mundo).

Assayas receberá o Prêmio Leon Cakoff e a Mostra anuncia uma retrospectiva com 14 títulos, desde mais antigos como Irma Vep até Clean, da fase em que foi casado com Maggie Cheung, até obras como Depois de Maio, sobre o célebre Maio de 68, Horas de Verão, Vidas Duplas e a série completa dedicada a Carlos, com Édgar Ramírez como o terrorista que se tornou conhecido como Chacal. Meirelles também produz outra pérola da programação, o documentário The Great Green Wall, dirigido por Jared P. Scott, que representa sua vertente ecológica.

Já que foi citado o Prêmio Leon Cakoff para Assayas, outro importante autor – além de amigo do evento –, o israelense Amos Gitai, também receberá o mesmo prêmio. Amos comemora na Mostra datas redondas de seus grandes filmes – os 30 anos de Berlim-Jerusalém e os 40 de Laços Sagrados – Kadosh. Lança o livro Em Tempos Como Estes, uma compilação da correspondência de sua mãe, Efratia Gitai, entre 1929 e 1994, numa parceria da Mostra com a editora Ubu e o Ventre Studio, que promoverá uma leitura das cartas (por Bárbara Paz).

Outro amigo, o palestino Elia Suleiman, apresenta seu novo longa, premiado em Cannes, em maio – O Paraíso Deve Ser Aqui –, e recebe o Prêmio Humanidade. Renata lembra que Amos e Suleiman são amigos e a prova viva de que o diálogo é possível no Oriente Médio

 

DESTAQUES:

Pacificado

O longa que o norte-americano Paxton Winters realizou numa favela do Rio venceu a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián

 

Sinônimos

Urso de Ouro no Festival de Berlim, o longa do israelense Navad Lapid narra uma bela história de pertencimento. Jovem judeu que deixou Israel tenta se adaptar à França. Como companheiro, tem um dicionário

 

A Vida Invisível

O longa de Karim Aïnouz que venceu a mostra Un Certain Regard em Cannes é uma das atrações da programação especial que terá o Municipal como palco

 

Parasita  

O sul-coreano Bong Joon-ho venceu em 2019 a Palma de Ouro, em Cannes, por esse ‘assunto de família’, na verdade duas famílias que interagem. É a primeira vez que a Coreia do Sul leva o principal prêmio do festival

 

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