Supo Mungam Films
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Filme 'Uma Mulher Alta' ressalta a condição feminina em mundo dominado por homens

Já nos cinemas, produção é baseada no livro 'A Guerra Não Tem Rosto de Mulher', de Svetlana Aleksiévitch

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2019 | 08h00

No Festival de Cannes, em maio, Uma Mulher Alta venceu o prêmio de direção (para Kantemir Balagov) e também o da Fipresci, o prêmio da crítica. Só para lembrar, na mesma seção, que integra a seleção oficial, A Vida Invisível, de Karim Aïnouz venceu o prêmio principal, como melhor filme.

É interessante como Uma Mulher Alta também é sobre a condição feminina no mundo dominado pelos homens. A mulher alta, e ela realmente se destaca das demais personagens, incluindo masculinas, pela altura que a faz destacar-se na multidão, é Ilya. Ela mora e trabalha num hospital militar na devastada Leningrado de 1942, em plena 2.ª Grande Guerra. Ilya parece estar vivendo no automático, apenas por instinto. Nada de bom parece que vai ocorrer com ela e a máscara trágica da atriz Victoria Miroshnichenko já expressa um extremo desalento em relação ao mundo.

Chega ao local Masha, e sua simples presença provocará um efeito devastador sobre Ilya. Masha também é puro instinto, mas em outro sentido. Quando recebe a notícia da morte do filho, ao contrário de se paralisar, como Ilya, ela sai para beber e dançar. Não é uma figura monstruosa. Ela está sentindo, mas sua necessidade de afeto, de sexo, seu desejo de procriar, funciona como mola propulsora, lançando-a sempre à frente.

Confira o trailer do filme

Uma Mulher Alta baseia-se no livro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, da vencedora do Nobel Svetlana Aleksiévitch. Com a autora do livro, o diretor compartilha o desejo de dar um testemunho não moralista da realidade. A câmera de Kantemir não julga - testemunha. O mundo é um horror e as mulheres são as maiores vítimas. Para passar essa ideia, ele desenvolve um relato lento, feito de pequenos gestos, muitos deles automáticos, e praticamente prescinde dos diálogos. Tudo é dito, ou subentendido pela crispação do olhar.

Dito assim parece que o filme é difícil, mas a verdade é que o diretor e suas atrizes - Vasilisa Peralgyna é quem faz Masha - logram estabelecer a empatia com o público. Considerando-se a penúria do pós-guerra, multiplicam-se as decisões penosas. Entre o marido terminal e o filho pequeno, uma mulher decide-se pela eutanásia do primeiro para ter condições de alimentar o segundo. E um médico, já que se trata de um hospital, também tem de tomar decisões extremas.

O filme integrou a seleção do Festival do Rio, na mostra Expectativa 2020. E está na shortlist de indicado para o Oscar de melhor filme internacional, da qual sairão, em janeiro, os cinco finalistas. A simples menção ao Oscar deve aumentar o interesse do público por Uma Mulher Alta.

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