Filme turco "Distante" detaca-se em Cannes

Na competição, disputando a Palma de Ouro com Babenco, mais três filmes foram apresentados: o italiano Il Cuore Altrove, o turco Distante e o americano Elephant. Todo festival tem suas estranhezas e uma delas, em Cannes deste ano, é a presença deste Il Cuore Altrove (algo como O Coração está em outra parte), de Pupi Avati, veterano cineasta da península. Certo, sabe-se que a Itália não vive grande momento em termos de cinema. Mas por que um filme como esse, dramalhão que parece saído do túnel do tempo, ganhou sua oportunidade no, em tese, mais prestigiado festival do mundo? Avati, que está em Cannes pela quinta vez em sua vida, apresenta nada menos que a história do amor impossível entre uma moça cega e rica e um professor tímido. O problema não é tanto o enredo (ou pelo menos não é só ele) como a maneira de contá-lo. Uma inverossímil fotografia dourada, violinos açucarados ao fundo, diálogos piegas. Um academicismo de museu. Pode parecer incrível, mas foi bem aplaudido no final, o que dá uma idéia (arrepiante) do tipo de público presente em Cannes. No lado oposto do espectro cinematográfico temos o estimulante Uzak (Distante), do realizador turco Nuri Bilge Ceylan. Gosto é gosto e muita gente se entediou com este filme de tempos lentos. Pelo contrário, me pareceu o mais interessante trabalho até agora apresentado em Cannes. A história é a de Mahmut, fotógrafo radicado em Istambul, que hospeda Yusuf, um conterrâneo da aldeiazinha do interior de onde veio. Há um ditado segundo o qual os hóspedes, como os peixes, começam a cheirar mal depois do terceiro dia. É o que acontece. A pequena intriga não deixa de ter momentos engraçados, como aquele em que o fotógrafo deseja ver um vídeo pornô, mas não quer que a visita perceba. Mas o tom predominante é a da melancolia. Mahmud é um ser perdido da vida. Desfez um casamento, brigou com a amante, está só. Não vê sentido na existência. Yusuf é um rapaz simples. Só quer fugir da crise econômica que acabou com os empregos em sua cidade natal. Deseja apenas uma oportunidade. O interessante é o tom seco, despojado, sem nenhuma afetação, com que tudo se expressa. Ceylan trabalha com planos longos, luz fria, poucos diálogos, e fotografa Istambul num sentido todo ao inverso do de um cartão postal. Em entrevista, explica suas influências, que se sentem no filme. "Estava em Londres, sentindo-me muito só quando entrei num cinema e assisti a Solaris, de Andrei Tarkovski. Foi uma revolução em minha vida. Fui ao cinema três dias seguidos". Tarkovski, segundo Ceylan, nos ajuda a dar sentido à vida, não porque seja um cineasta feliz, ou escapista, muito pelo contrário, mas porque não evita os problemas, não esconde a dor de viver. E isso nos faz bem. Ceylan trabalha também com o pequeno detalhe, com aquela estranha força que as coisas ínfimas têm de influenciar o destino dos homens. Por exemplo, ele desconfia que Yusuf tenha furtado seu relógio de prata, mas descobre que foi injusto com ele. Arrepende-se, mas sente raiva do arrependimento. Sentimentos contraditórios, ditos pelo olhar do personagem, quase sem necessidade de diálogos. Essa opção pelo mínimo, segundo ele, se deve à maior influência de sua vida, mais importante ainda que a de Tarkovski: a de Checkov, outro russo. Acrescentaria que essa atenção depositada na dor do viver mostra outro diálogo artístico, este com o polonês Krzyzstof Kieslowski. Claro, Ceylan não tem a mesma intensidade de Kieslowski e ninguém o está comparando com o mestre polonês, mas ambos parecem fazer parte da mesma família intelectual, a dos melancólicos de talento que, como ninguém, conseguem expressar seu sentimento diante do absurdo da vida. Muito mal recebido pelo público foi Elephant, do americano Gus Van Sant, um dos títulos mais esperados da competição. Esperado, por dois motivos: primeiro Van Sant teve um começo de carreira interessante (com Drugstore Cowboy), depois comprometido por filmes problemáticos, como o remake de Psicose, o clássico de suspense de Hitchcock. Segundo, porque o tema do filme é o famoso crime de Columbine, quando dois adolescentes arrumaram armas e trucidaram vários colegas e funcionários da escola onde estudavam. A violência pelas armas na América, em particular nesse caso, foi o vencedor do Oscar de documentário, Tiros em Columbine, de Michael Moore, atualmente em cartaz em São Paulo. A decepção do público talvez venha tanto do excesso de expectativa como da frieza com que Van Sant desenvolve seu tema. Ele começa por apresentar seus personagens em longos planos-sequência, com uma estrutura narrativa circular, em que a mesma cena é reevocada de vários pontos de vista. Não há construção psicológica dos personagens ou ela é muito superficial. O banho de sangue é filmado sem nenhuma espetacularização, o que é prova de pudor do cineasta. Mas nada causa impressão, nem mesmo essa banalidade da pulsão de morte no coração do país mais poderoso do mundo. Pegou mal, talvez, uma cena em que os dois garotos são mostrados tendo uma relação no banheiro, como se insinuasse que da homossexualidade ao crime não haveria mais que um passo. Enfim, não aprovou. Em entrevista, Van Sant diz que não procurou explicar a motivação do crime. "Deixei essa interpretação a cargo do espectador", disse. Vem daí, talvez, o títul estranho. Ele remete a uma antiga história sobre quatro cegos que apalpam um elefante e o descrevem de quatro maneiras diferentes. Ou seja, vale a interpretação de cada um.

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