Filme testa no cinema sucesso entre universitários

Alberto Graça tem vivido na estrada nos últimos tempos. Já mostrou O Dia da Caça em 22 Estados brasileiros, exibindo-o nas universidades. O filme que estréia amanhã já tem no currículo 30 mil espectadores - nesse circuito alternativo. As exibições foram acompanhadas de pesquisas: 84% do público achou O Dia da Caça bom ou ótimo, mas o melhor, destaca o diretor, é que 92% dos entrevistados declararam-se dispostos a recomendar o filme para amigos e parentes.É um policial, um thriller sobre a ação do narcotráfico no País, numa trilha que, saindo de Brasília, chega até a Amazônia, fazendo, de forma cada vez mais violenta, o percurso de volta. As cenas da Amazônia são boas, mas não é delas que vem a polêmica que O Dia da Caça poderá provocar. Talvez essa polêmica não venha nem mesmo da ligação que Graça sugere entre o tráfico e o poder, a política, centralizada em Brasília. A CPI do Narcotráfico está aí para confirmar que tem fundo de verdade o que, inicialmente, para o cineasta, era só ficção. O que talvez choque é o personagem do travesti, Vander, interpretado por Paulo Vespúcio. Em plena era do politicamente correto, de olhar simpático às minorias, Graça cria um travesti do mal, um gay sádico e perverso. Mas leal. É o que eleva Vander da caricatura, dando-lhe uma dimensão que vai além do clichê em que parece se instalar. Não é ele o protagonista da trama. É Nando, interpretado por Marcello Antony, da novela Terra Nostra. Nando, segundo o próprio Nando, é um Hamlet do tráfico. No começo, ele vive à margem desse universo, ao qual já pertenceu. Tem uma oficina mecânica. A lealdade o leva a aceitar a missão proposta por Canosa, por meio de um emissário, o policial federal branco (Jonas Bloch). Nando aceita a missão de buscar 30 quilos de droga na Amazônia. Leva Vander, seu amigo, seu irmão desde os tempos do reformatório. É uma cilada, uma queima de arquivo, uma briga de quadrilhas. Logo Nando e Vander estão com a cabeça a prêmio, caçados por criminosos e por federais.Da trama também participam Felipe Camargo, como um jornalista que segue a trilha de Canosa, e Barbara Schulz, uma deusa (a mulher mais bonita a aparecer no cinema nacional nos últimos tempos) que faz a amante franco-brasileira de um traficante que morre e ela segue com Nando e Vander. Canosa é pouco mais que um nome na história - uma foto, na qual ele aparece abraçado com Nando. Canosa é Nelson Pereira dos Santos, o diretor, e a sua presença é explicada por Alberto Graça, que diz ser Nelson o grande "traficante de imagens do cinema brasileiro". Outra referência: Graça trabalhou com Miguel Faria Jr. em O Homem Célebre e Faria Jr. também é o diretor de República dos Assassinos, em que Anselmo Vasconcelos cria um dos personagens mais alucinantes do cinema brasileiro, o travesti Eloína. Vasconcelos está agora em O Dia da Caça, que tem outro travesti perturbador, Vander. "Não foi uma coisa pensada, mas, inconscientemente, acho que talvez tenha a ver; o trabalho do Anselmo foi genial e com certeza foi uma referência para o que eu queria com Vander", diz o diretor.Vander é o braço armado de Nando. Usa uma luva de pregos para dilacerar suas vítimas. Encarna a fascinação do mal, mas, como já se disse, não é o mal absoluto. Sua devoção a Nando torna o personagem ambíguo. Pode ser que o interesse de Vander por Nando tenha uma origem sexual mas, quando o amigo liga-se à francesa, Vander, que inicialmente a considera uma inimiga, diz que agora ela faz parte de sua família também. A ligação de Vander com o policial Branco reproduz até certo ponto a de Eloína com o tira de República dos Assassinos, baseado no tristemente célebre Mariel Mariscot.Com todos os defeitos que possa ter (e, efetivamente, tem, sendo o maior deles a reciclagem de cenas e situações já vistas até demais em thrillers americanos), O Dia da Caça é um filme para ser visto. Tem qualidades de produção e até de narração. Graça quis fazer um filme que fosse visto por diferentes públicos, do intelectual da USP ao trocador de ônibus. "Um filme popular e autoral", resume. Para promover O Dia da Caça, o diretor criou, com recursos da Lei Rouanet, o programa Cinema em Movimento, para mostrar o filme nas universidades. Exibiu-o em 55 universidades de 22 Estados, realizando seis sessões em cada uma delas.No total, foram cerca de 300 sessões, durante as quais O Dia da Caça foi visto por 30 mil espectadores. Simultaneamente, ocorreram debates, envolvendo não só o diretor, mas também jornalistas, como Arthur Xexéo. O programa continua: o filme entra amanhã em 40 municípios de todo o País e, a partir do dia 14, será exibido para os sem-tela, em praça pública nas cidades que não possuem cinemas. Só isso já faz de O Dia da Caça um filme a ser conferido no panorama brasileiro atual.

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