Amazon Studios via AP
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Filme ‘Sylvie’s Love’ mergulha na estética dos anos 1950

Obra de Eugene Ashe traz a época para um romance que fala sobre escolhas em um período conturbado

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

26 de dezembro de 2020 | 05h00

Eugene Ashe queria fazer um filme de amor como aqueles de antigamente, daqueles que quase não se vê mais. Algo na linha de Nosso Amor de Ontem, Love Story – Uma História de Amor, ou mesmo Diário de uma Paixão. “Eu adoro esse tipo de produção”, disse o diretor em entrevista ao Estadão, via Zoom. Assim nasceu Sylvie’s Love, que estreou na sexta-feira, 25, na Amazon Prime Video. Ashe e não tem medo de ser melodramático ao mostrar o romance cheio de percalços de Sylvie (Tessa Thompson) e Robert (Nnamdi Asomugha). Ele é um músico de jazz. Ela espera o noivo voltar da Guerra da Coreia. Os dois se conhecem na loja de discos do pai dela, Herbert (Lance Reddick), e se apaixonam. 

Ashe também era fã das produções da atriz Doris Day (de filmes como Ardida como Pimenta, de 1953), de Bonequinha de Luxo, com Audrey Hepburn, e da beleza dos anos 1950. Ao ver fotos antigas da família, descobriu que seus parentes tinham o mesmo visual e se vestiam daquela forma. “Sempre fiquei intrigado do porquê de nunca ver isso refletido nos filmes”, contou. 

Por isso, decidiu ambientar sua obra naquela época – e, assim, completar uma lacuna na cinematografia americana. “Foi como fazer um longa jamais feito”, contou. Os figurinos remetem aos clássicos de então. Sylvie e Robert estão sempre elegantemente vestidos: ela, de Chanel; ele, de figurinos vintage inspirados em Sidney Poitier e John Coltrane. “Mas quero deixar bem claro que não estou fazendo revisionismo. Essas coisas aconteciam de verdade. Havia bailes de debutantes. Na época, as pessoas negras tinham grandes aspirações. Elas queriam as mesmas coisas que os outros americanos desejavam: mudar para os subúrbios, ter filhos, um bom emprego. O movimento pelos direitos civis estava tentando obter acesso para as coisas a que não tínhamos acesso, como poder viver em determinados bairros, conseguir empréstimos no banco e coisas assim.”

No centro do longa estão a paixão de Robert pela música e de Sylvie pela televisão, as festas, as idas à praia, o sol na laje, os shows em clubes de jazz – Ashe, que começou sua carreira artística na música, é um apaixonado pelo gênero. Há personagens cheios de cor, como a prima Mona (Aja Naomi King), Carmen (Eva Longoria) e Chico (Regé-Jean Page). São pessoas de carne e osso, com desejos, dúvidas e fraquezas. 

“O filme fala de ser capaz de escolher o que é importante para você, sem se preocupar com o que os outros queiram ou digam”, disse o diretor. É daí que vem o título, que pode ser traduzido como “O Amor de Sylvie”. “Trata de Sylvie decidindo o que ama, seja sua carreira ou um homem. Sua mãe tinha planejado toda a sua vida para ela. Mas Sylvie acaba indo numa direção diferente.” 

É um tema que dialoga de perto com os dias que estamos vivendo. “Todos estamos tendo de pensar no que é importante, no que realmente amamos”, disse Ashe. “Estamos cansados do trauma e da dor que temos vivido, seja as questões raciais, a pandemia, ou o que está acontecendo no governo. É a hora certa de contar uma história como esta, que nos permite respirar, relaxar e ir para outro mundo, numa época diferente.” 

Não que tenha sido fácil tirar do papel uma história sobre uma experiência negra sem traumas específicos relacionados ao racismo e ao preconceito. Nem mesmo as produções de hoje que olham para o passado das pessoas não-brancas nos Estados Unidos são sobre os dramas comuns de todo ser humano. 

“Elas em geral tratam do movimento pelos direitos civis ou falam da opressão, mas não da alegria que tivemos, nem das diferentes coisas que fizemos.” Por isso, Ashe sentiu que fazer Sylvie’s Love foi, de certa forma, revolucionário. “Eu não achei que fosse, mas é”, disse o cineasta. “Foi muito difícil conseguir financiamento. Não há modelo. Agora existe este filme, então talvez haja mais no futuro.”

Sua sorte foi atrair Nnamdi Asomugha e Tessa Thompson, que além de atores viraram produtores também. “Eles tinham acesso a muita coisa a que eu não tinha, apaixonaram-se pela história e me empoderaram para realizá-la”, conta. É algo cada vez mais comum, a reunião de talentos negros, asiáticos, latinos para fazer acontecer as suas próprias histórias. 

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