Filme sueco vence o Leão de Ouro no Festival de Veneza

‘A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence’, de Roy Andersson, fala do absurdo da existência humana contemporânea

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2014 | 15h03

VENEZA-Um filme sueco de nome quilométrico surpreendeu e ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 2014. A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence (Um Pombo sentado num Galho Refletindo sobre a Existência), de Roy Andersson, usa de um tom levemente surrealista para falar do absurdo da modernidade. Ao receber o troféu, o diretor sueco homenageou a cinematografia italiana, de Roberto Rossellini e Vittorio de Sica, com menção particular a Ladrões de Bicicletas, obra-prima de De Sica, que disse admirar. Andersson já teve um dos seus filmes, Vocês, os Vivos, participando da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

O filme ostenta grande rigor formal, com planos sequências geométricos, muito bem feitos e um humor frio e sofisticado. Visualmente, lembra algumas telas de Hopper, com sua luz fria a destacar a solidão humana. É um belo e intrigante trabalho, que não faz feio ao receber o Leão de Ouro.

Mas a verdade é que a decisão do júri, presidido pelo músico francês Alexandre Desplat, não era esperada. Em entrevista após a premiação, Desplat justificou a escolha pela qualidade estética da obra de Andersson. Ao lhe perguntarem se sabia se o filme era tão minucioso que levara um ano para ser filmado, disse que nada sabia sobre os concorrentes e, tanto ele como os outros jurados, preferiram vê-los com olhos frescos, buscando apenas a qualidade estética. Não há por que duvidar.

Um dos favoritos, o documentário do norte-americano Joshua Oppenheimer, The Look of Silence, sobre o genocídio na Indonésia durante a ditadura Suharto, venceu o Grande Prêmio do Júri, além de ter ficado com o Prêmio da Crítica, dado pela Fipresci, a Federação Internacional dos Críticos. É, talvez, o mais impressionante entre os 20 títulos que disputavam o Leão de Ouro. Boa parte da equipe, inclusive o entrevistador, mantiveram o anonimato por temerem represálias ao conversar com agentes do exército responsáveis por massacres ocorridos no passado.

O surpreendente russo The Postman’s White Nights, de Andrei Konchalovski, ficou com o troféu de melhor direção. É outro trabalho que promove um diálogo interessante entre o registro documental e o ficcional, com o diretor concentrando-se no cotidiano de um pequeno vilarejo no norte da Rússia, com os personagens interpretando seus próprios papéis. O filme foi o penúltimo a ser apresentado e surpreendeu aos espectadores com a sua tocante simplicidade. Foi cogitado para o Leão de Ouro. 

Nesse lugarejo esquecido do mundo e dos homens, um carteiro é o único elo com a civilização. Suas histórias mínimas, tentando conquistar a mulher mais bonita do lugar, participando de festas e tornando-se amigo do filho pequeno da amada formam um tênue fio condutor dessa história humana, que a todos seduziu no Lido. Ao receber o prêmio, Konchalovski insistiu num ponto que já havia defendido em entrevistas anteriores: deseja fazer um cinema para adultos num mundo cinematográfico voltado apenas para o consumo adolescente. É uma espécie de lamento humanista sobre o mundo da trivialidade, no qual o cinema comercial parece imerso até o pescoço.

Já o filme italiano, titulado em inglês, Hungry Nights, de Saverio Costanzo, consagrou seus dois intérpretes, o americano Adam Driver e a italiana Alba Rohrwacher. A crítica internacional torceu o nariz para o que considerou uma concessão do júri ao cinema italiano. Já um jornalista italiano questionou o júri por não haver dedicado prêmios aos três concorrentes do país. O que motivou uma resposta elegantemente indignada do presidente do júri, perguntado se dois prêmios tão importantes não eram suficientes para dar destaque ao cinema italiano. Almas Negras, sobre a máfia calabresa, e O Jovem Fabuloso, sobre o poeta Giacomo Leopardi, foram ignorados.

Outros belos filmes foram ignorados, como Birdman, dos Estados Unidos, e Red Amnesia, da China. Aqui, talvez, cometeu-se a grande injustiça ao não se premia a atriz Lu Zhong, que interpreta uma velha militante atormentada pela consciência. E os italianos ainda se queixam. São os chineses, desta vez, que teriam algo a lamentar.

Competição termina equilibrada, sem grandes polêmicas

Num festival sem grandes polêmicas, Veneza 2014 realizou este ano uma mostra bem equilibrada. Pelo menos, mais equilibradas que em edições anteriores. Os filmes bons predominaram, e, de fato, havia uma série de opções de premiação para o júri, que soube aproveitá-las. Uma linha foi seguida pelos jurados e, aparentemente, sem grandes dissensões internas entre eles.

Passada a premiação, fica a boa qualidade dos concorrentes num festival que, nos últimos anos, tem oscilado muito. Ao contrário do que aconteceu no passado recente, as aberrações foram casos isolados. Em especial, o último filme apresentado em concurso, Good Kill, que espantou a maioria dos observadores por sua simples presença numa mostra de prestígio. Equívoco da curadoria ou pressão dos estúdios? Como saber?

Mas a média foi boa. Mesmo o cinema italiano fez-se representar de maneira digna, com um belíssimo filme sobre a máfia, Almas Negras, outro sobre o drama de um casal, Hungry Hearts, e um terceiro sobre o grande poeta Leopardi, este o mais tradicionalista de todos, mas, ainda assim, interessante.

Outro personagem italiano importante, o diretor Pier Paolo Pasolini, ganhou uma obra em homenagem, porém dirigida pelo norte-americano Abel Ferrara. Willem Dafoe interpreta Pasolini em suas últimas horas de vida, antes de ser assassinado por um garoto de programa na praia de Óstia. Muita gente estranhou a maneira não naturalista como o caso é abordado, mas se tratava menos de contar a vida de um escritor e multiartista de maneira linear do que captar-lhe a essência do espírito rebelde. O filme é bonito; não recebeu prêmios, mas marcou o festival com sua presença.

A lamentar, apenas, a quase completa ausência da cinematografia sul-americana em mostra internacional tão importante como a de Veneza. O Brasil, em particular, teve representação muito aquém do que merecia. Marcou presença (se a expressão cabe) no Lido apenas com um episódio dirigido por Hector Babenco para um longa de episódios e um curta-metragem da mostra Horizontes, a animação Castillo y el Armado, de Pedro Harres. Ainda assim, falada em portunhol. É pouco.

OS PRINCIPAIS VENCEDORES

Leão de Ouro - Melhor filme: A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence, de Roy Andersson (Suécia)

Leão de Prata - Melhor direção: Andrei Konchalovski, por The Postman’s White Nights

Grande Prêmio do Júri:

*The Look of Silence, de Joshua Oppenheimer (Indonésia, Dinamarca, Grã-Bretanha)

*Copa Volpi - Melhor ator: Adam Driver, por Hungry Hearts (Itália)

*Copa Volpi - Melhor atriz: Alba Rohrwacher, por Hungry Hearts (Itália)

Prêmio Especial do Júri: Sivas

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