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Filme sobre 'Malala' propõe questões intrigantes

Personagem complexa ganha produção interessante

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2015 | 03h00

Shane Watson, Roger Federer, Brad Pitt – o que três bonitões da vez entram fazendo num filme sobre Malala? Os três entram numa pesquisa que a própria Malala está fazendo na rede. Não fica muito claro o que ela está pesquisando, mas, com certeza, são astros do cinema e do esporte. É um dos momentos mais reveladores do filme de David Guggenheim. Malala, tão falante quando se trata de questões políticas, gagueja diante dos temas ‘boys’ (garotos) e namoro. Diz que sua família, com certeza, ficaria muito surpresa se ela dissesse que quer namorar. Malala Yousafzai ganhou o Nobel da Paz por sua luta para emancipar as mulheres. É uma luta com desdobramentos. Pela educação, pelo direito à infância. A se julgar pelo filme, talvez devesse haver outra luta. Pelo direito dela a... O quê? Aos sentimentos de qualquer garota de 16 anos?

Porque Malala virou uma instituição. Como tal, desperta amores e ódios. Tem gente no Paquistão que diz que ela é uma invenção do Ocidente, que o pai escreve seus discursos e que, no país, existe muito mais gente que luta por direitos, pelos pobres, pelas mulheres. Será mesmo? O mulá que ela desafiou com sua luta provocou um movimento de ódio que culminou com os tiros desfechados contra o ônibus escolar em que ela estava. Malala não foi a única, mas foi a mais atingida. Quase morreu. O tiro esfacelou parte de seu crânio, os ossos partidos entraram no cérebro e danificaram parte dele. Ela perdeu parte dos movimentos do rosto, ficou surda de um ouvido. Mas Malala não desiste. Volta à luta. E o mulá promete novos tiros contra ela.

O pai reflete. Diz que Malala não foi atingida por um indivíduo, empunhando o revólver, mas por uma ideologia. O Islã do ódio, o Talibã. Durante boa parte de Malala, o filme – que estreou ontem –, o discurso é sobre a humanidade do Islã. Alá é misericordioso no Corão, mas os que hoje empunham o livro sagrado em seu nome fazem d’Ele o terror dos infiéis. Alá jihadista, sanguinário. Escolas são queimadas, meninas impedidas de estudar. Em Paris, há uma semana, o Estado Islâmico fez mais de uma centena de vítimas numa sucessão de atentados. Preconceito, fanatismo, obscurantismo. O mundo está cada vez mais difícil. Virou um enredo de terror – estamos falando de gênero. Não de gênero humano, mas também. Meninas, mulheres como cidadãs de segunda. E terror, como no cinema e na literatura, por essa capacidade de certos eventos, como de autores, de produzir medo, de inquietar.

É fácil querer desembaraçar-se de Malala dizendo que o filme é hagiográfico. Isso não elimina o problema, o real. A figura de Malala e sua luta são admiráveis, ou não? Os créditos finais informam que o filme baseia-se no livro Eu Sou Malala, que ela escreveu com Christina Lamb. Mas há uma sutil diferença que muda tudo. O título original não é Malala, mas He Named Me Malala. Ele me chamou Malala. Ele, o pai, um professor autodidata que achou que a filha merecia ter uma educação.

Um dos entrevistadores pergunta se foi o pai que colocou a filha nessa via e ele mesmo, quando Malala está em coma, pensa no que a garota pode estar pensando. “Sou apenas uma criança, por que ‘eles’ (os adultos, os pais) me impingiram isso?” A própria Malala responde. Seu pai lhe deu o nome da heroína do povo afegão, que liderou guerreiros em fuga e transformou uma derrota contra os britânicos, na guerra colonial, em vitória. Mas só o nome não faria dela ‘Malala’.

Ela insiste – escolheu sua via, fez-se Malala. E o espectador se pergunta – essa menina de 16 anos que ruboriza diante da imagem de Brad Pitt? Que protege o irmão quando os outros brigam com ele, mas, quando estão sozinhos, bate no caçula? O filme recorre a múltiplas formas de narração. É um documentário bem pouco tradicional, nas bordas da ficção. Tem entrevistas, mas também tem animação, material de arquivo.

Assim como o pai viaja na mente da filha, Malala, impedida de voltar à casa, sonha com ela, numa busca emocionada pelo tempo perdido. A mãe sente falta da casa, do Paquistão. Malala virou uma cidadã do mundo. Por que, de certa forma, ainda chora por aquela casa? O que significa? A origem? O Nobel, que ela recebeu em 2014, entra bem no final, nos créditos. A única certeza, quando o filme termina, é que essa Malala, se não existisse, teria de ser inventada.

 

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