Filme sobre independência da Argélia provoca protestos em Cannes

Um filme sobre a luta sangrenta pela independência da Argélia estreou na sexta-feira em Cannes em meio a segurança policial intensa, enquanto manifestantes do lado de fora protestavam, dizendo que o filme macula a memória do Exército francês.

JAMES MACKENZIE, REUTERS

21 de maio de 2010 | 16h03

"Hors la Loi" (Fora da Lei), pela equipe responsável pelo premiado "Dias de Glória," de 2006, completa a seleção oficial e acrescenta um elemento de controvérsia ao maior festival de cinema do mundo.

Quase cinco décadas após a independência da Argélia, em 1962, o diretor Rachid Bouchareb trata de uma questão que ainda é altamente delicada na França, mas disse que sua intenção é provocar discussões, e não confrontos.

"Eu sabia que o passado colonial e a relação com o passado colonial entre França e Argélia ainda é muito tensa, mas acho que as reações e tudo o que vem sendo dito, antes mesmo de alguém assistir ao filme, têm sido excessivas."

Como se para destacar o que ele disse, policiais de choque se postaram diante do Palais des Festivals enquanto centenas de manifestantes portando bandeiras, entre eles veteranos militares e partidários da Frente Nacional, de extrema direita, passaram em passeata pela prefeitura de Cannes.

"Queremos deixar claro com nossa manifestação que é intolerável que dinheiro público francês seja usado para macular o Exército francês e as ações da França na Argélia", disse o ex-senador francês e veterano de guerra Jacques Peyrat.

Milhares de pessoas morreram na brutal guerra de independência da Argélia, um conflito que deixou feridas profundas ainda abertas na Argélia e na França.

Mas Bouchareb disse que espera que o país ajude a fomentar um debate aberto e que "depois disso precisamos passar para outra coisa".

"Não há razão pela qual gerações posteriores tenham que herdar o passado desta maneira."

"Hors la Loi" trata de um tema que decorre de "Dias de Glória", do mesmo diretor, que contou a história de soldados do norte da África que combateram pela França na 2a Guerra Mundial.

O filme foca três irmãos, representados por Jamel Debbouze, Roschdy Zem e Sami Bouajila, três dos quatro atores de "Dias de Glória" ,que receberam um prêmio coletivo de melhores atores em Cannes em 2006.

Bouchareb inicia a história em 1925, quando uma família argelina é expulsa de suas terras ancestrais depois de as terras serem dadas a um colono europeu.

Ele mostra um incidente notório ocorrido em 1945, quando tropas francesas abriram fogo contra manifestantes pró-independência, desencadeando uma explosão de violência na qual foram mortos milhares de argelinos e cerca de 100 europeus.

A parte principal da história acontece na França, para onde a família se muda, indo viver em uma favela nos arredores de Paris, e mostra a brutalidade da polícia francesa e também a violência fria do movimento pró-independência argelina FLN.

Mas os criadores do filme negam que "Hors la Loi" seja antifrancês e disseram que não acreditam que a maioria dos franceses o enxergará assim.

"A França é um grande país, e este filme vai contribuir para a memória histórica", disse Tarak bem Ammar, um dos co-produtores.

(Reportagem adicional de Claire Watson)

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