Cosme Alves Netto, Fernando Birri e Gabriel García Márquez. FOTO: Divulgação
Cosme Alves Netto, Fernando Birri e Gabriel García Márquez. FOTO: Divulgação

Filme sobre Cosme Alves Netto evidencia o amor desinteressado e total pelas imagens

Diretor retrata o personagem singular por intermédio das obras que tiveram maior significado em sua vida

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

30 Julho 2015 | 05h00

Há o personagem singular e o homem cuja importância na preservação da memória fílmica brasileira deve ser destacada. Em Tudo por Amor ao Cinema, Aurélio Michiles une os dois. Mesmo porque se trata de uma mesma e única pessoa – Cosme Alves Netto, amazonense como o diretor, cinéfilo e alma da Cinemateca do MAM, no Rio de Janeiro. 

O Cosme personagem foi inesquecível. Cardíaco, era sempre visto com um “puro” cubano em riste. O país caribenho não lhe forneceu apenas o ideal de uma causa e o hábito do charuto, mas também a indumentária. Para quem o conheceu parece impossível imaginar Cosme sem a guayabera tropical que adotou como camisa. Era doce, irônico e mantinha a fama de amar o cinema, mas poucas vezes era visto dentro da sala de projeção. Preferia esperar os amigos do lado de fora para comentar os filmes, como se já tivesse visto todos. 

O Cosme caçador de imagens foi fundamental para um país descuidado com a preservação de sua memória – e não apenas fílmica. Nesse sentido, fazia dupla com o outro grande “cinematequeiro” do País, Paulo Emilio Salles Gomes, criador da Cinemateca Brasileira. Ambos, pode-se dizer, influenciados pelo francês Henri Langlois, o mitológico diretor da Cinemateca Francesa, mentor e pai espiritual de todos os preservadores de película do mundo. 

Essa modalidade de caçador de imagens é uma forma particular de exercer o amor pelo cinema. Diferentemente do amor do fã, ou do crítico, trata-se de um amor não seletivo, às vezes mal compreendido pelos estranhos à confraria. O fã idolatra determinados astros e estrelas. O cinéfilo adora seus autores, com exclusão de outros. Por isso, existe tanta intolerância na cinefilia, como nas seitas em geral. Já a preservação é uma espécie de amor total, desinteressado e abrangente. Nada lhe é indiferente. Não existem, para ele, filmes ruins. Todos têm direito à existência e, com o tempo, os maus filmes se tornam preciosos documentários sobre sua época. 

Mas, claro, mesmo esse amante inveterado da película abriga suas preferências, suas favoritas no imenso harém da cinematografia mundial. São os filmes formadores, aqueles cuja presença marca uma existência humana. Cosme os tinha. Sabiamente, Aurélio Michiles usa essa memória fílmica afetiva de Cosme para construir um documentário que vai além do convencional. Desse modo, as imagens de Encouraçado Potemkin a Cantando na Chuva, passando por Cabra Marcado para Morrer são usadas para edificar esse perfil. 

O homem de esquerda, preso durante a ditadura, se representa na revolta impressa em celuloide por Eisenstein. O Cosme esteta, amante da alegria e das belas imagens, vê-se também nos movimentos de Gene Kelly em Cantando na Chuva. O militante astuto está espelhado nas imagens de Dona Elizabeth Teixeira e dos camponeses de Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, cujas filmagens foram interrompidas pelo golpe de 1964. Com a integridade das imagens ameaçada, elas foram armazenadas no depósito da Cinemateca sob o título falso e, levemente irônico, de Rosa do Campo. Cosme viveu seu tempo e os filmes formaram sua circunstância. 

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