Renato Nascimento
Renato Nascimento

Filme 'Slam – Voz de Levante' expressa identidade e resistência da poesia contemporânea

Mistura de expressão artística e competição que surgiu em Chicago, em 1984, e no Brasil completa 10 anos, é o tema de documentário

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 Novembro 2018 | 06h00

Tudo começou na amizade – Roberta Estrela D’Alva trouxe o Slam para o Brasil e, em 2011, foi concorrer no campeonato mundial em Paris. Quando explicou para sua amiga, a cineasta Tatiana Lohmann, que estava indo à França para participar de um encontro mundial de poesia falada, ‘Tati’ quis saber quem iria documentar o fato. “Ninguém, ora.” Tatiana comprou a passagem e foi, munida de uma câmera. Assistiu ao triunfo de Roberta, que chegou a ser uma das favoritas para ganhar. Quando perdeu, Roberta chorou, chorou. Tatiana desligou a câmera para abraçar a amiga.

E isso lá é tema de filme? É, e bom. Estreou na quinta, 22, o longa Slam – Voz de Levante. Naturalmente que o filme não é (só) sobre Estrela D’Alva e o mundial de Slam. É muito mais amplo. Para tornar tudo isso mais claro cabe esclarecer o que é essa ‘voz da revolta’. O ‘poetry slam’ surgiu em Chicago em 1984, idealizado pelo poeta Marc Smith como uma mistura de expressão artística e competição.

As regras são simples. Cada participante tem 3 minutos para soltar a voz e se apresentar, sem acompanhamento musical, perante um júri que não é de especialistas. Recrutado entre o público, o júri avalia tudo – originalidade, performance e recepção, porque, ao se apresentar sobre um tema livre, o que se espera do poeta é que seja visceral, como se tudo, a sua vida principalmente, dependesse do verbo que está soltando.

Roberta Estrela D’Alva. É o apelido que Roberta Marques do Nascimento carrega desde os 13 anos, quando começou a fazer teatro na escola. Para ter/merecer uma estrela no nome, a pessoa tem de brilhar. Roberta sempre teve essa luminosidade. Formou-se em Artes Cênicas pela USP e fez mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Fundou a primeira companhia de teatro hip-hop do Brasil, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. É mestra no assunto e prepara a tese de doutorado, sobre ‘A Voz’ (da periferia). É atriz e cantora. Pioneira no poetry slam no Brasil – o movimento está completando dez anos –, Roberta faz uma pausa no doutorado e aplica atualmente toda a sua energia no campeonato nacional de slam que organiza e vai ocorrer em dezembro, no Sesc Pinheiros (R. Pais Leme, 195).

Normalmente, e até por sua formação como atriz, ela apresenta. Em Paris competiu. “Fomos com a cara e a coragem, sem ter feito nenhum planejamento”, explica Tatiana. “Como havia feito um filme em que intervinha muito como autora, me deu uma vontade de mudar. Não queria repetir a experiência, não queria aparecer tanto. E pedi para a Roberta que não olhasse para a câmera, não falasse comigo. Aquilo nasceu numa intuição, nem sabíamos se ia dar certo. Ao longo de seis anos, fomos reunindo muito material. E, embora eu seja diretora, considero-me também montadora. O filme nasceu na ilha, sem roteiro. Tínhamos 350 horas de material, que fomos enxugando, construindo uma linearidade, o slam e a Roberta ano a ano. Foi o documentário premiado no Festival do Rio do ano passado.”

Desde então, e até estrear agora no Brasil, Slam rodou alguns eventos nacionais. “Começamos a ouvir que o filme era muito bom, muito forte, mas estava longo demais. Como no slam se discutem questões de gênero, de raça, de condições sociais e políticas, o que está em jogo é a periferia, com todo o seu sentimento. Algumas pessoas começaram a dizer que o filme estava repetitivo. A gente (Roberta e eu) batia pé. ‘Não tentem mexer no nosso filme, ele é assim.’ Mas aí começamos a nos dar conta de que as pessoas também amavam o filme, que o entendiam como uma flecha que estávamos lançando no coração de um sistema injusto. E o que elas queriam é que nossa flecha fosse mais certeira. A montagem linear sofreu transformações para chegar ao formato atual. Os blocos foram reorganizados por eixos temáticos e Slam – Voz de Levante perdeu 16 minutos. Ficou mais compacto, mais aguerrido.”

Para o espectador que ainda assiste ao Mix Brasil – Festival da Cultura da Diversidade – cuja premiação ocorreu na quarta-feira, 21, com a vitória de Sócrates, de Alex Moratto, mas vai até domingo –, Slam será como um prolongamento da #Penso logo resisto. Porque o que esses poetas, homens e mulheres, liberam é a sua revolta contra a exclusão em suas várias faces. Racismo, machismo, homofobia. A maioria dos ‘slammers’ atua fora dos circuitos de arte tradicionais, embora, e isso é verdade, alguns já estejam lançando livros e alcançando reconhecimento em outros círculos. “A ideia foi sempre a de fazer um filme para ampliar o movimento, para popularizá-lo.”

Para Tatiana, o formato particular do slam sempre teve algo de programa de auditório. E Roberta, atriz/MC, não atriz e MC, destaca que se adaptou bem à função de apresentadora porque esse tipo de expressão, de poesia, não é só uma questão de voz. É também expressão corporal, atitude. O slam nasceu como protesto, enraizado na realidade. É mais do que provável que o campeonato que se aproxima seja marcado pelo temor que ainda provoca o momento vivido pelo País. Roberta e Tatiana, trabalhando no filme, nesses anos todos, viram crescer o número de mulheres slammers e também crescer no movimento o número de jovens. Diversidade é o lema – de temas e participantes, de possibilidades. Diversidade é o infinito. Toda a revolta do mundo em 3 minutos.


 

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