Fabrizio Bensch/ Reuters
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Filme romeno 'Touch Me Not' vence o Urso de Ouro no Festival de Berlim

O prêmio de melhor diretor foi dado a Wes Anderson, de 'Isle of Dogs'

Rodrigo Fonseca, Reuters

24 de fevereiro de 2018 | 16h12

BERLIM - Atento ao pleito feminino (e feminista) para que se valorize mais o espaço de mulheres cineastas na indústria do audiovisual, o time de jurados do 68º Festival de Berlim, presidido pelo realizador alemão Tom Tykwer (Corra, Lola, Corra), concedeu os dois troféus mais importantes do evento, o Urso de Ouro e o Grande Prêmio do Júri, a uma romena e a uma polonesa, respectivamente. Adina Pintilie, ligada às artes plásticas, arrebatou a estatueta dourada - a mais cobiçada da festa de premiação realizada no sábado, na capital alemã - por Touch Me Not.

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O longa-metragem dela soma ficção, documentário e artes plásticas para falar da angústia de uma mulher incapaz de ser tocada. Para dar cabo de suas neuroses, ela se aproxima de garotos de programa, uma stripper trans e um rapaz com alopecia. Já Malgorzata Szumowska foi prestigiada com um ursinho prateado em resposta à sua narrativa irônica e fabular sobre a construção de um Cristo Redentor numa cidade da Polônia onde acontece o primeiro transplante de rosto daquele país. São, portanto, dois filmes sobre organismos em transformação.

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"Diálogo... isso é tudo o que eu espero com este filme que junta tanta coisa, tantas linguagens, para falar sobre a nossa incapacidade de encarar o outro", disse Adina ao Estado, sendo premiada ainda com o Prêmio de Melhor Filme de Estreia, por sua luminosa chegada aos longas-metragens de ficção (ainda que mesclada a estéticas documentais) .

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Na premiação de Melhor Documentário, cujo vencedor foi The Waldheim Waltz, da austríaca Ruth Beckermann, sobrou uma surpresa para o Brasil: o cineasta Luiz Bolognesi conquistou uma menção honrosa por Ex-Pajé. Seu filme é um retrato da etnocídio indígena na Amazônia. "Procuramos respeitar ao máximo a beleza estética das civilizações amazônicas, para que transmitir a potência poética da cosmogonia dos índios, cuja cultura corre risco de extinção", disse Bolognesi, roteirista de Como Nossos Pais e de Bingo - O Rei das Manhãs.

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Jornalistas do mundo todo criticaram a seleção competitiva deste ano por ter investido pouco na invenção formal e na ousadia (exceto Touch Me Not) em seu rol de 19 concorrentes. Mas alguns se destacaram em resenhas escritas nas mais variadas línguas por seu rigor na construção de planos e de ritmo, como é o caso de Ilha de Cachorros. A animação que abriu o evento, no dia 15, rendeu ao americano Wes Anderson o prêmio de Melhor Direção. Foi Bill Murray, dublador de um dos cães do filme, quem recebeu o troféu em nome do cineasta, ausente á cerimônia. "Este filme vai ser graaaande", prometeu o comediante, divertindo a plateia. "Nunca imaginei que um dia trabalharia como um cachorro e ganharia um urso".

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Coproduzido pela diretora carioca Julia Murat, Las Herederas, drama paraguaio sobre um casal sexagenário de lésbicas dirigido pelo estreante Marcelo Martinessi, deu a Ana Brun o prêmio de Melhor Atriz. Grande vencedor da noite, pelo número de láureas que conquistou, Martinessi recebeu ainda o Troféu Alfred Bauer, concedido a filmes que apontam novos caminhos para a linguagem audiovisual, por buscarem abordagens inusitadas (no caso, um retrato LGBT da classe média decadente da América do Sul). Centrado no processo de "volta por cima" de uma moradora de Asunción, Chela (Ana), que se reinventa após a prisão de sua companheira, este ato de sinergia cinéfila entre Paraguai-Brasil-Uruguai ganhou também com o Prêmio da Crítica, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci). "Com delicadeza no olhar, Marcelo dá tempo para a construção dos personagens: tempo de tela, mas também tempo de criação", disse Julia Murat ao Estadão, feliz por seu bicampeonato em terras germânicas: em 2017, ele também foi premiada pela Fipresci, com Pendular. "O trabalho de Martinessi com Ana Brun e Margarita Irún foi extenso e cuidadoso. Eles se encontravam três vezes na semana, durante meses, para trabalhar. Marcelo é uma pessoa que consegue misturar mundos: sabe ser diplomático e delicado ao mesmo tempo que é obsessivo  e exigente".

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Causou espanto (mas não incômodo) a escolha do melhor ator: apostava-se pesado em Joaquin Phoenix (por Don't Worry, he Won't Get Far On Foot), mas ganhou Anthony Bajon, pelo drama truffautiano La Prière, do francês Cédric Kahn. Já o prêmio de roteiro contemplou o exercício de dramaturgia mais original de toda a Berlinale: Museo, de Alonso Ruizpalacios, com Gael García Bernal. Ambientado em 1985, o longa recria um roubo de obras de arte ameríndias. Queridinha da crítica europeia, a dramédia Dovlatov, do diretor Alexey German Jr., rendeu à diretora de arte Elena Okopnaya o Prêmio de Contribuição Artística. O longa ganhou também a láurea do Júri de Leitores do Berliner Morgenpost. Numa fronteira tênue entre a desilusão e a ironia, o filme é centrado no panorama político e literário da União Soviética dos anos 1970.

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Além da menção honrosa a Ex-Pajé, de Bolognesi, outros prêmios foram concedidos ao Brasil, neste ano em que 12 produções com cineastas nacionais se espalharam por diferentes mostras da Berlinale. O banquete de prêmios para essa turma começou a ser servido na sexta, com a entrega do Troféu Teddy. A Láurea LGBTQ consagrou o documentário Bixa Travesti, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman (feito a partir de performances da cantora trans Linn da Quebrada) e a ficção gaúcha Tinta Bruta, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Este último conquistou ainda o Prêmio CICAE, dado pelas associações europeias de cineclubes, para uma trama introspectiva (e provocante) sobre um jovem que se apresenta em chats da internet com o nome de Rapaz Neon. Já o diretor cearense Karim Aïnouz papou o Prêmio da Anistia Internacional com Aeroporto Central, no qual documenta o cotidiano de refugiados reunidos em um hangar desativado de um centro aeronáutico.

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"É importante essa vitória, pois ela deposita créditos na representação do homem árabe no cinema, que costuma ser representado como terrorista, criminoso", disse Karim ao Estado. "Naquele areorporto estão diferentes povos do Oriente Médio que convivem num aeroporto desativado de Berlim em busca de harmonia e dignidade".

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Registro dos julgamentos do Impeachment de Dilma Rousseff, O Processo, de Maria Augusta Ramos, ficou em terceiro lugar no disputado pódio da votação de júri popular da mostra Panorama, arrebatando espectadores com seu dinamismo de montagem. E não estranhe a ausência de láureas para José Padilha, que inflamou os ânimos da Alemanha na última segunda-feira com 7 Dias em Entebbe: o diretor aceitou exibir seu thriller sobre o conflito Israel x Palestina em condição hors-concours neste ano em que comemora os dez anos do Urso dourado dado a seu Tropa de Elite. 

Encerrada a Berlinale. 68, o cinema autoral agora aguarda notícias de Cannes, cuja 71º edição vai de 8 a 19 de maio, na França, tendo a australiana Cate Blanchett no comando do júri.

Veja a lista completa dos vencedores:

Urso de Ouro: Touch Me Not, de Adina Pintilie (Romênia)

Grande Prêmio do Júri: Mug, de Malgorzata Szumowska (Polônia)

Documentário: The Waldheim Waltz, de Ruth Beckermann (Áustria); com menção honrosa para Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi (Brasil)

Direção: Wes Anderson (Ilha de Cachorros)

Atriz: Ana Brun (Las Herederas)

Ator: Anthony Bajon (La Prière)

Roteiro: Manuel Alcalá e Alonso Ruizpalacios, por Museo (México)

Contribuição Artística: Elena Okopnaya, pela direção de arte e o figurino de Dovlatov (Rússia)

Troféu Alfred Bauer (dado a pesquisas de linguagem): Las Herederas, de Marcelo Martinessi (Paraguai) 

Filme de Estreia: Touch Me Not, de Adina Pintilie (com menção honrosa para An Elephant Sitting Still, de Hu Bo, da China)

Curta-metragem: The Men Behind The Walls, de Ines Moldavsky (Israel)

Prêmio da Crítica: Las Herederas, de Marcelo Martinessi (Paraguai) 

Júri Ecumênico: In The Aisles, de Thomas Stuber (com menção para U-July 22)

 

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