Divulgação
Divulgação

Filme romeno investiga relações entre mães e filhos

'Instinto Materno', longa de Calin Peter Netzer, venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

20 de março de 2014 | 03h00

Havia duas fortes concorrentes ao prêmio de melhor atriz - Urso de Prata - no Festival de Berlim do ano passado. Os críticos dividiam-se entre Paulina Garcia, a Glória do filme chileno de Sebastián Lelio - em cartaz na cidade - e a romena Luminita Gheorghiu, de Child's Pose. O longa de Calin Peter Netzer estreia nesta quinta nos cinemas brasileiros. Paulina venceu o Urso de Prata, mas Child's Pose, rebatizado como Instinto Materno no Brasil, ficou com o Ouro. Luminita poderia ter sido a melhor atriz. Ao premiar o filme de Netzer, o júri não deixou de avalizar o trabalho da atriz.

É um papel que Meryl Streep poderia fazer muito bem num eventual remake norte-americano. Luminita é um pouco a Meryl Streep da Romênia, uma grande atriz que consegue unir a admiração do público e dos críticos. Netzer e seu roteirista, Razvan Radulescu, escreveram o filme para ela, pensando nela. Não sabiam se ia aceitar, mas Luminita se jogou no projeto. Um filme sobre corrupção e divisão de classes na Romênia pós-comunista. Um admirável retrato, ou estudo, de uma mãe dominadora. Não por acaso, Instinto Materno é o maior sucesso de público da nova onda do cinema romeno.

É uma história instrutiva. Monica Filimon a conta em seu ensaio Beyond New Romanian Cinema, na edição mais recente da revista Cineaste. O diretor Corneliu Porumboiu, uma das estrelas da nova onda da Romênia - dirigiu A Leste de Bucareste, que ganhou a Caméra d’Or em Cannes -, foi a um complexo de salas em Bucareste. Havia várias atrações de Hollywood em cartaz, mas ele queria ver um programa específico. A funcionária advertiu-o: “O senhor tem certeza? É um filme romeno”.

Não é a primeira nem será a última vez - lembrem-se do Cinema Novo - que uma cinematografia que arrebenta em festivais não obtém reconhecimento em casa. Instinto Materno, que estreia hoje, é a exceção do novo cinema romeno. Urso de Ouro em Berlim, em 2013, é o maior sucesso de público entre filmes romenos na própria Romênia. A persona da atriz Luminita Gheorghiu ajuda bastante. Uma espécie de Meryl Streep ou Fernanda Montenegro local, ela com certeza contribuiu para levar o público aos cinemas, mas a força do drama de Calin Peter Netzer garantiu o boca a boca.

Há 15 ou 20 anos, teria sido muito pior, dizia em Berlim, no ano passado, o diretor de Instinto Materno. Calin Peter Netzer referia-se à situação em seu país. O filme é sobre esse filho que provoca um acidente mortal. Ele vai parar na delegacia e imediatamente chega a mãe, interpretada por Luminita. Ela pertence à burguesia do país. Já estava no poder na época da ditadura de Ceausescu. Chama-se Cornelia, o filho é Barbu. Cornelia chega feito um trator. Isso significa acionar toda a rede de influências de que dispõe. Já que houve um acidente com vítima, é bom que se diga que a vítima pertence a uma família humilde. O espetáculo do poder é ostensivo, brutal.

Em Berlim, onde receberia o Urso de Ouro - mas na hora da entrevista, realizada no próprio Palast, o palácio do festival, ele não sabia que isso ia ocorrer -, Netzer contou que, embora não seja autobiográfico, o filme inspira-se na relação que o roteirista Razvan Radulescu e ele tinham (têm) com as mães. “Ficamos amigos há anos, e sempre falamos muito de nossas mães. O filme nasceu desse desejo de falar sobre mães possessivas e dominadoras. Inicialmente, e até para evitar o elemento autobiográfico, pensamos numa mãe inglesa, depois numa mãe italiana. Mas depois nos demos conta de que, para ancorar o filme na realidade, precisávamos de uma mãe romena. Com ela, veio toda a carga social que conhecemos bem.”

Quando a mãe chega, a polícia já iniciou os procedimentos. “Mesmo com telefonemas de poderosos, a polícia não pode eliminar a ocorrência. Demora um dia ou mais para que a pressão funcione. Embora a corrupção permaneça no país, não deixa de ser uma diferença em relação à era Ceausescu. Lá, a pressão teria funcionado imediatamente.” É um filme sobre a relação disfuncional entre mãe e filho. “Estamos falando do complexo de Édipo. Alô, Freud?” E Netzer acrescenta: “Apesar de a acolhida em Berlim ter superado a expectativa, sabíamos que nosso filme abordava uma realidade universal, com a qual críticos e espectadores de outros países poderiam se identificar. A corrupção e a maternidade são ferramentas para abordar o tema - o embate entre responsabilidade e irresponsabilidade.”

Existe a mãe, que parece não ter consciência de como age. Ela simplesmente é, e faz. E existe o filho, Barbu. Na faixa dos 30, ele é um daqueles adultos que não amadureceu. “Reclama, vive dizendo que quer ser independente, repudia os pais, mas até que ponto isso é verdade? Na hora da pressão, Barbu recua, expõe sua vulnerabilidade e torna-se um joguete da mãe, que assume o controle de tudo.” O filme começa numa festa. A mãe dança com o pai e, depois, dança sozinha. Espera Barbu, que não chega. O que chega é a notícia do acidente. O que se segue é muito forte. Quando Barbu vai reagir? Você não perde por esperar. 

Tudo o que sabemos sobre:
Cinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.