Filme revela a bela narrativa coreana

Havia grandes filmes da Ásia no Festival de Cannes do ano passado: Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-wai, As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang, Eureca, de Shinji Aoyama, e Chuhyang - Amor Proibido, de IM Kwon-taek. Este último foi exibido na Mostra Internacional de Cinema São Paulo, em outubro. Não provocou a comoção que sua beleza autorizava esperar. O público da mostra estava muito mobilizado para ver (e apreciar) o musical de Lars Von Trier, Dançando no Escuro, que ganhou a Palma de Ouro de 2000. Há que se redescobrir agora o musical coreano.A história de Chuhyang talvez seja a mais conhecida da cultura popular coreana. É o Romeu e Julieta nacional. Já havia sido filmada antes. Não da forma como faz o diretor IM Kwon-taek. Considerado um dos mais importantes da Coréia, ele é, certamente, o mais prolífico, tendo feito mais de 90 filmes desde o começo dos anos 60. IM Kwon-taek sabia que não podia fazer uma versão tradicional da história, pois o próprio cinema coreano já havia se voltado, mais de uma vez, para o tema dos amantes proibidos. Um dos filmes anteriores do diretor, o mais famoso, se chama A História de um Pansori. Não adianta procurar no Aurélio, nem no novíssimo dicionário Houaiss. O pansori, com ênfase no i, ainda não existe para o brasileiro. Talvez venha a existir após esse filme deslumbrante.É uma forma de narração musical. No pansori, um cantor, acompanhado por um tambor, na mais simples e direta das percussões, canta e conta o que não deixa de ser uma canção de gesta. IM Kwon-taek incorporou o pansori ao seu filme. Há o cantor, que se apresenta para uma platéia. E aquilo que ele canta, ou conta, é recriado por meio de imagens de imensa beleza. As duas narrativas interferem uma na outra, se completam enriquecem (e comentam). Mal comparando, é como a presença dos cantadores nas sagas glauberianas, Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.A história se passa no fim do século 18, durante a dinastia Chosun. O filho do novo governador de uma província se apaixona pela filha de uma cortesã. A tradição impõe que ela siga os passos da mãe na prostituição, mas os dois se amam sinceramente, o rapaz quer se casar com Chuhyang. Seu pai é contra e faz de tudo para separar os amantes. Pelas circunstâncias da vida, Chuhyang termina virando uma heroína pré-feminista ao lutar por seu amor. Parece simples e talvez seja, na essência. Mas é de uma riqueza e de uma intensidade audiovisuais que faz do ato de ver esse filme uma experiência inesquecível.No ano passado, em Cannes, a reportagem participou do encontro de IM Kwon-taek com um reduzido grupo de jornalistas. Ele estava acompanhado por seu Romeu e sua Julieta. Yi Hyo-jeong e Cho Seung-woo são lindos e mostram que os critérios ocidentais não devem ser os únicos para a aferição e apreciação da beleza. IM Kwon-taek estava feliz e não apenas por estar em Cannes, o mais importante festival de cinema do mundo, participando da competição. Na Coréia, Amor Proibido fez o dobro dos espectadores de Titanic, que não deixa de ser outra variação de Romeu e Julieta. Nos últimos anos, o cinema coreano tem surpreendido o público dos festivais. São narrativas muitas vezes cruas, que põem a ênfase no sexo, como as de A Ilha e Mentiras. A ênfase de Chuhyang - Amor Proibido está nos sentimentos. O sopro lírico faz desse filme um evento raro. Abra seu coração e prepare sua sensibilidade para o grande cinema da Coréia. Chuhyang - Amor Proibido (Chuhyang) - Drama. Direção de IM Kwon-taek. Coréia do Sul/2000. Duração: 120 minutos.12 anos

Agencia Estado,

30 de agosto de 2001 | 21h33

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