Filme revê episódio sangrento da história da Austrália

Apenas 24 horas após o desembarquede 20 mil soldados australianos e neozelandeses na península deGalipolli, durante a 1.ª Grande Guerra, um terço deles já estavamorto ou ferido. Oito meses depois, no fim da campanha, osmortos e feridos somavam quase a integralidade desses 20 mil. Éum dos mais sinistros recordes de mortandade da história dasguerras. Não admira que o episódio de Galipolli tenha atraído odiretor Peter Weir. Seu filme com Mel Gibson e Mark Lee estásaindo em DVD da Europa. Traz extras como trailer de cinema e umdepoimento do diretor.Weir é um diretor australiano indiscutivelmentetalentoso. Mas tende a ser reducionista. Cooptado por Hollywood,ajustou-se à máquina, tornando palatáveis para grandes platéiasassuntos ambiciosos e até indigestos. Sua obra-prima no cinemanorte-americano é A Testemunha, por mais que alguns críticossejam tietes de O Show de Truman - O Show da Vida. Suaestréia no cinema australiano ocorreu com The Cars That AteParis, em 1974. No ano seguinte surgiu Picnic na MontanhaMisteriosa e a história do sumiço de um grupo de moças, pelabeleza inquietante de suas imagens, pela ausência deliberada deexplicações, criou um estranhamento que levou os críticos aapostarem em Weir como o grande - talvez - talento do cinema daAustrália.E então veio, em 1981, Galipolli, na época o filmede maior orçamento feito no país. O episódio da intervenção dasforças australianas nos Dardanelos, onde foram dizimados pelosturcos, constitui-se num dos temas mais polêmicos da história dopaís. Já havia inspirado um filme mítico do cinema australiano:The Forty Thousand Horsemen, onde a derrota era disfarçadacomo vitória por meio das proezas de um bando de cavaleiros naguerra.Weir inspirou-se no filme pouco visto (fora da Austrália menos ainda) de Charles Chauvel para fazer Galipolli. Suanarrativa é centrada em dois personagens. Um deles, hábilcorredor, quer ser herói na guerra. O outro, mais cínico, duvidadas honrarias do heroísmo, mas é suficientemente ambicioso paraquerer participar da guerra por interesses pessoais. Weir usaesses dois personagens, o segundo interpretado por Mel Gibson -que ainda não era astro -, para retomar o lirismo de Chauvel,que filtrava pela amargura das ilusões perdidas de sua dupla deprotagonistas.Tecnicamente impecável, Galipolli divide-se em duaspartes. A primeira é centrada nas brincadeiras juvenis de Gibsone Mark Lee. A segunda, mais soturna, leva o espectador apenetrar no banho de sangue, ao som do Adágio de Albinoni,que Orson Welles também utilizou em O Processo. O resultadotalvez não seja desmistificador como Weir gostaria, pelo excessode clichês líricos e anedóticos que banalizam um pouco o relato.Mas a história dos jovens levados ao sacrifício inútil no altarda pátria possui uma força que não deixa de impressionar, pormais que o esforço do diretor seja para torná-la visualmenteatraente e emocionalmente persuasiva. Galipolli (Galipolli). Austrália, 1981. Direção dePeter Weir. DVD da Europa. Nas locadoras e lojas especializadas,por R$ 40.

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