Filme reencontra os filhos de "Rose"

Cabra Marcado para Morrer, o seminal documentário de Eduardo Coutinho, fez escola. Até o finlandês Mika Kaurismaki nele se inspirou para promover o reencontro de Samuel Fuller com os índios da Ilha do Bananal. A ilha fluvial brasileira seria cenário de um filme hollywoodiano que se chamaria Tigrero. A influência do longa de Coutinho pode ser vista, também, em O Sonho de Rose ? 10 Anos depois. Em 1985, a cineasta documentou, na Fazenda Annoni, no Rio Grande do Sul, a luta de 1.500 famílias sem terra pela reforma agrária. O filme, lançado em 1987, ganhou o Coral Negro no Festival de Havana. Dez anos depois (1995), Tetê Moraes voltou ao cenário para realizar O Sonho de Rose, filme que, só agora, chega ao público de São Paulo.A demora de seis anos tem sua razão de ser. Captado originalmente em vídeo, O Sonho de Rose foi editado neste suporte e conquistou a Margarida de Prata, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. No meio do caminho, houve desentendimentos entre a cineasta e o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), um dos produtores do projeto original. Ano passado, com todos os problemas contornados, Tetê Moraes lançou o filme no Festival de Cinema do Rio e ganhou o Prêmio BR de Melhor Documentário (segundo avaliação do público).O resultado da transposição do vídeo para a película, feita em Nova Iorque, é de altíssima qualidade. O novo documentário reencontra vários dos assentados que Tetê Moraes entrevistou em 1985, quando 1.500 famílias cuparam um latifúndio improdutivo de Sarandi (500 km de Porto Alegre). A desapropriação da Fazenda Annoni se arrastava havia 14 anos. A morosidade burocrática só foi superada pelos protestos dos quase 8 mil acampados.Tetê Moraes documentou o processo de luta pela terra dos lavradores gaúchos e centrou-se, com mais atenção, num personagem: a sem-terra Rose (Roseli Seleste Nunes da Silva), que dera à luz, no acampamento, ao terceiro filho, Marcos. A morte de Rose e de mais dois sem-terra, esmagados sob as rodas de caminhão de empresa agrária, deu origem à pergunta: eles foram vítimas de acidente ou de um atentado? E serviu de combustível ao vigoroso Terra para Rose. Ao regressar à antiga Fazenda Annoni, Tetê Moraes refez, de forma similar, caminho percorrido por Eduardo Coutinho, que, no começo dos anos 80, saíra em campo em busca dos personagens de filme interrompido pelo golpe militar de 1964 e de sua protagonista, a líder camponesa Elisabeth Teixeira.A partir das imagens originais, Tetê estabeleceu o confronto passado/presente. Ou seja, as imagens de 1985 e as mudanças ocorridas na vida de cada família, ao longo de dez anos. Quem está acostumado com os documentários brasileiros sobre camponeses nordestinos ou caipiras do centro-oeste/sudeste espanta-se com o visual dos assentados sulistas. Louros em maioria e com sobrenomes que revelam origem italiana ou alemã, os lavradores articulam bem seus argumentos, têm dentes sãos, vestem roupas boas. E acreditam na força da organização e da reivindicação (e não apenas na ajuda de Deus) para atingir seus objetivos.Alguns dos depoimentos reunidos em O Sonho de Rose são emocionantes. A trilha sonora, de Luiz Cláudio Ramos, trabalha variações de Assentamento, canção de Chico Buarque, e contribui para envolver o espectador. Até chegar à sua parte final e mais envolvente ? o encontro com o viúvo e os três filhos de Rose ?, o filme mostra que os ocupantes da Annoni espalharam-se por diversas (e distantes) agrovilas e assentamentos. Alguns seguiram os caminhos do coletivismo, trabalhando em cooperativas. Outros preferiram gerir seu pedaço de terra individualmente.O filme não faz proselitismo. Claro que ele é simpático ao MST e à reforma agrária. Mas os comandantes do movimento não aparecem para defender suas bandeiras. Nem os assentados fazem discursos engajados. Estão preocupados mesmo é com a educação dos filhos, o trabalho cotidiano, a garantia das conquistadas alcançadas.Os depoimentos do viúvo e dos três filhos de Rose (pequeninos quando de sua morte) criam algumas arestas. Afinal, os herdeiros da sem-terra ? que Tetê Moraes transformou num símbolo da luta pela reforma agrária ? vivem na periferia da cidade, de biscates. E deixam transparecer, em especial o viúvo (com a nova companheira ao lado), que se sentem injustiçados. A própria Tetê se transformou ? fora das telas, pois isto não aparece no filme ? em advogada deles. E conseguiu, numa parceria com o Incra e o MST, arrumar 18 hectares de terra titulados em nome do viúvo José. Apenas um letreiro avisa que a família de Rose foi assentada.O cinema de Tetê Moraes é mesmo de intervenção social. Formada na efervescência política dos anos 60, ela não esconde em nenhum de seus trabalhos (inclusive em seu primeiro longa, Lajes, a Força de Um Povo) o imenso desejo de contribuir, com suas imagens, para a construção de um país mais justo.

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