Filme recria conflito entre ninfeta e homem maduro

Os 27 Beijos Perdidos é o título original para uma história nem tão original assim, mas contada de maneira bem satisfatória. O filme vem da Geórgia e é dirigido pela cineasta Nana Djordjadze. Trata-se de uma variante, em tons às vezes meio oníricos, do tema da ninfeta e do homem maduro.A Lolita, no caso, chama-se Sybill, vai passar um mês de férias na casa da tia, que mora numa cidade chamada Krasnyje Utki. A mocinha tem 14 anos bem desenvolvidos, e cai nas graças de um garotão da sua idade, Mickey. Mas ela está a fim, mesmo, é do pai de Mickey, Alexander, viúvo triste, 41 anos, que se diverte como pode como astrônomo amador. Quer dizer, passa por sonhador, um amante de estrelas (do firmamento), mas mantém os olhos bem postos na terra quando alguma mulher bonita passa por perto. Enfim, claro, o triângulo amoroso vai causar problemas a todos. Filho contra pai, por causa da ninfeta Sybill.O aspecto legal do filme é atmosfera em que a história é contada. Tudo tem cor vagamente crepuscular, dourada, romântica. Como se a tal cidadezinha de nome impronunciável boiasse em algum lugar fora do tempo, fora do espaço. Lá não é a Geórgia, a ex-república soviética, o tempo é indefinido, meio antigo talvez e tudo só existe como palco para os atores e a história. É apenas um verão feliz, com personagens banhados em sensualidade, e que fazem o pano de fundo para uma garota que está descobrindo o sexo e quer experimentá-lo com um adulto que poderia ser seu pai. Tudo é levado com muita tranqüilidade e alguma graça. E de maneira nenhuma prepara o espectador para a tragédia que virá a seu tempo. E que, apesar da falta de preparo, não parece nada inverossímil.De certa forma, essa mudança ríspida de tom, próxima do fim, é que dá um upgrade a um filme que, de outra maneira, poderia ser classificado como apenas simpático, elegante, inócuo. O tom trágico, brusco, mostra que se deveria ter levado mais a sério aquela sensualidade latente nas ações dos personagens. O sexo pode levar ao ciúme e este à violência. Mas quando uma história é contada costuma-se fazer a gradação de intensidades com mais ênfase. Não é o caso. Aqui tudo é brusco. Busca-se mais a ruptura que a continuidade. É uma opção pela originalidade que vem do título - 27 beijos perdidos porque Sybill prometera 100 a Mickey e só lhe deu 73. Essa é a contabilidade amorosa, feita a posteriori por Mickey.Além da mudança de direção da história, ela se beneficia do clima de estranheza que Nana sabe colocar com sabedoria, aqui e ali. Por exemplo, há um elemento que parece exterior à trama, mas que depois vai fazer todo o sentido do mundo. Trata-se da presença, no vilarejo, de um velho capitão francês, com seu navio avariado em terra, ao lado do qual se fazem as melhores festas da região. Os casais dançando à luz de lampiões, tendo por fundo o velho casco cansado de guerra, serve como motivo poético para o baile de paixões que está acontecendo. E quando o navio e seu navegante finalmente se fizerem ao mar, será como fecho adequado para essa história cômica, triste -bonita, enfim.27 Beijos Perdidos (27 Missing Kisses). Drama. Direção de Nana Djordjadze. Georgia/2000. Duração: 98 minutos. 14 anos.

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