O Som e a Fúria
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Filme português 'Technoboss' conta com humor a crônica de um idoso apaixonado

Na 43.ª Mostra de Cinema de São Paulo, a obra do diretor português João Nicolau traz no papel principal a estreia do ex-jurista Miguel Lobo Antunes, de 70 anos, no cinema

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2019 | 19h36

Muito de Tecnhoboss — a comédia de tons absurdos do diretor português João Nicolau, com sessões na 43.ª Mostra — é sobre a ausência de comiseração que o filme direciona para seu personagem principal, Luís Rovisco (a estreia de Miguel Lobo Antunes, 70 anos, no cinema). Divorciado e à beira da aposentadoria (ou da reforma, como dizem os portugueses), Rovisco poderia ser um personagem melancólico, mas o roteiro inclui na sua história tantos elementos únicos que o filme se transforma em uma crônica de amor e compaixão.

Com dificuldades para lembrar-se de entregar relatórios da empresa para a qual trabalhou a vida toda (a SegurVale – Sistemas Integrados de Controlo de Circulação), Rovisco dirige (conduz) entre regiões de Portugal, cantando canções do heavy metal à salsa espanhola, ao volante ou não. Um clima de musical se instala, mas o humor natural de Lobo Antunes (jurista e produtor cultural aposentado, aqui em seu primeiro filme) se mistura ao do personagem, nunca retratado como um pobre coitado.

Outros elementos dão forma ao filme: Rovisco sofre com a morte de seu gato companheiro, Napoleão, se complica com avanços tecnológicos diversos, lida com uma dor no joelho e com um filho com casamento confuso, mas também encontra afeto com o neto e com o chefe-amigo, o britânico Peter Vale (que nunca aparece na tela, embora esteja em diversas cenas do filme). Mas sua missão é mesmo alcançar Lucinda (Luísa Cruz), recepcionista de um hotel que ele atende com frequência, um amor de anos atrás perdido no tempo e que agora ele fará de tudo para recuperar.

Lobo Antunes (irmão de Antonio, o célebre escritor) também se aposentou recentemente, em 2017, e foi depois de o diretor João Nicolau vê-lo dançar em uma festa que o convite para participar do casting chegou. Em São Paulo para apresentar o filme na Mostra, o ator novato demonstra na vida real a simpatia do personagem, embora seja menos carrancudo. 

“Foi muito difícil, mas esse filme salvou a minha vida”, diz. “Não tinha experiência nenhuma de ator. Mas João é muito amigo de meu filho e eu gosto muito dos filmes dele. Ele é quem arriscava mais, porque se o ator fizesse um mau papel, o filme vinha para debaixo.”

Lobo Antunes conta que sua principal preocupação durante as filmagens era não esquecer suas falas e seguir as orientações do diretor, e que só agora, após as primeiras exibições do filme, é que começa a teorizar sobre os caminhos peculiares do personagem. “Não fazia ideia nenhuma do que aquilo custava, de esforço físico, mas eu gosto de trabalhar”, explica.

“O ator tinha que ter determinados tipos de características, tinha que ter uma figura marcante, preferencialmente saber cantar”, explica o produtor Luís Urbano, também em São Paulo para a Mostra. “A ideia era contratar um ator profissional, mas João decidiu abrir o casting, e quando eles se encontraram nessa festa, pensou que poderia ser este o caminho.” 

Technoboss estreou no Festival de Locarno, na Suíça, e as primeiras resenhas comentaram semelhanças no humor do personagem com as atuações de Jacques Tati (1907-1982), mímico e ator francês, mas o produtor arrisca que o personagem (e o tom do filme como um todo) é mais inspirado pelo cineasta finlandês Aki Kaurismäki e pelo ator e comediante americano Larry David.

Além das músicas, que permeiam o filme e emprestam-lhe frescor e bom humor, outro aspecto salta aos olhos: em algumas cenas, um cenário é montado com banners e tecidos, dentro de estúdio, acrescentando ali outra camada do humor surreal. Uma solução criativa para um problema logístico e financeiro, segundo o produtor: filmar as viagens em uma estrada real seria um impedimento definitivo.

Se Tecnhoboss não se alinha diretamente à linha do humor português que na Mostra de 2018, por exemplo, exibiu o amalucado Diamantino, o filme faz escolhas ousadas o suficiente para divertir e emocionar cinéfilos de cá e de lá do Atlântico.

Exibições de Tecnhoboss na 43.ª Mostra de São Paulo

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 | 24/10/19 - 17:20 - Sessão: 601 (Quinta)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 |30/10/19 - 15:00 - Sessão: 1078 (Quarta)

Veja o trailer de Tecnhoboss

TECHNOBOSS TLR PT from O SOM E A FÚRIA on Vimeo.

 

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