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Filme peruano ‘Magallanes’ mostra o retorno do reprimido político

Longa marca a estreia na direção do peruano Salvador de Del Solar e é destaque do dia na Mostra

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2015 | 03h00

O trauma político se infiltra de modo sorrateiro em Magallanes, filme peruano de Salvador Del Solar. É a estreia, como diretor, do protagonista de Pantaleão e as Visitadoras, adaptado da obra de Vargas Llosa. Ótimo começo para Del Solar, diga-se. História forte, na qual o passado de terror no enfrentamento ao Sendero Luminoso vai emergindo aos poucos.

Os fantasmas surgem quando Magallanes (Damián Alcázar) reconhece uma passageira que leva em seu táxi. Ela é uma cabeleireira (Magaly Solier, de La Teta Asustada) em dificuldades financeiras. Ele, Magallanes, além de taxista, dá assistência a um coronel idoso (Federico Luppe), doente e esquecido do passado.

Há aí uma clara alusão ao que parte das sociedades latino-americanos deseja fazer com seu passado nada glorioso – esquecê-lo. Como se as feridas de crimes, torturas e outras violências pudessem ser fechadas pelo simples fato de não se falar sobre elas.

Se o coronel é o esquecimento, Magallanes é a lembrança. A memória que desperta a culpa e busca a reparação. Nessa dialética se desenvolve o movimento da história proposta por Del Solar. Entre as tentativas de remissão e quem deseja que nada se diga. Uma soma de silêncios. Nem mesmo as vítimas desejam falar, pelo menos a princípio. Porque são fatos do passado, muito dolorosos, e todo mundo precisa tocar a vida adiante. Até se concluir que não se vai de fato para a frente a não ser que os fantasmas do passado sejam enfrentados.

Em sua estreia, Del Solar conta com um elenco de ponta. Mesmo em papel silencioso, há a presença sempre marcante do argentino Federico Luppi. Magaly Solier, depois do sucesso internacional de La Teta Asustada ficou muito conhecida. E o mexicano Damián Alcázar simplesmente tornou-se um ator ícone do cinema latino-americano. Por falar nisso, ele protagoniza outro filme da Mostra, o bonito road movie laboral A Tênue Linha Amarela. Vê-lo na tela é um prazer. Em especial pela capacidade que pertence apenas aos grandes atores de sugerir, apenas com a expressão facial, todo um mundo de sentimentos, sem recurso à palavra.

Portanto, os temas da violência política recobrem a vida particular das pessoas. Da pobre Celina (Magaly Solier) a Magallanes, movido pela culpa. Do coronel silencioso (Luppi) ao esbirro saudoso da adrenalina dos tempos de guerra em Ayacucho. São, as nossas, sociedades fraturadas por essas lutas desiguais, travadas a qualquer custo e a qualquer preço. Elas deixam marcas, nas pessoas e na história das nações. Não adianta ignorá-las. Voltam sempre, como no retorno do reprimido de que falava Freud a propósito das neuroses.

Kaminski e Eu, de Wolfgang Becker, é um dos filmes mais aguardados da Mostra. Diretor do sucesso Adeus, Lênin, Becker agora fala do relacionamento entre um grande pintor, Manuel Kaminski (Jesper Christensen) e o jornalista Sebastian Zöllner (Daniel Brühl), que deseja escrever sua biografia.

É um filme de trabalho excepcional, que custou anos de esforço ao seu diretor, como ele próprio disse após a primeira apresentação de Kaminski e Eu em São Paulo.

O filme, talvez até por isso, é um tanto sobrecarregado, embora tenha um núcleo bastante inspirado e instigante para público mais cultivado. O tom não agrada tanto. Becker decidiu contar essa história em tom farsesco, o que é sempre um risco. Às vezes exagera na dose e certas passagens flertam com a comédia pastelão. Do meio para o final, o filme encontra um leito mais navegável. Mas não se pode deixar de lamentar a oportunidade perdida de fazer um grande filme e uma bela reflexão sobre o significado da arte em nosso tempo de plágio e dispersão intelectual.

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