Esquina Filmes
Esquina Filmes

Filme ‘Pendular’ idealiza busca do equilíbrio

No longa de Júlia Murat, que concorre em Brasília, casal de artistas isola-se em um estúdio para criar e amar

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2017 | 06h00

Júlia Murat apresentou no fim, de semana, na competição do Festival de Brasília, seu longa que concorre aos Candangos. Na quinta, 21, Pendular estreou em salas diversas, incluindo São Paulo e Rio. Neste fim de semana, Júlia volta a Brasília para apresentar, fora de concurso, o documentário Operações para Garantia da Ordem, em parceria com Miguel Antunes Ramos. A mídia e os protestos de rua em 2014. Antes mesmo de falar sobre Pendular, a diretora (e corroteirista) comentou, a pedido do Estado, a recepção brasiliense a seu longa. “Foi muito boa, mas começamos o debate muito tensos, por tudo o que havia ocorrido.”

O que ocorreu é que, também no fim de semana passado, Daniela Thomas, parceira de Walter Salles, apresentou, em competição, Vazante e o filme foi massacrado no debate. Vazante é sobre uma garota, quase uma menina, que se casa com um senhor de escravos, no interior do Brasil colonial. Ele quer uma esposa, ela ainda brinca de boneca. Carente, envolve-se com um jovem escravo. O resultado é trágico, mas a verdadeira tragédia é que Daniela, uma mulher inteligente e sensível, foi decretada inimiga pública número um por seu duplo foco incorreto – nas questões da mulher e do negro.

Os debates andam acirrados, e não apenas em Brasília. Nas redes sociais, está todo mundo se matando, pró e contra – de Temer à política econômica, à prisão do ex-presidente Lula, ao candidato do Brasil no Oscar, etc. Nesse quadro, o filme de Júlia Murat é um daqueles objetos não identificados que, às vezes, aterrissam no cinema brasileiro. Um filme sobre a busca da harmonia... “Não, da harmonia não, do equilíbrio”, ela corrige, mas não pense que, por isso, Júlia já o fez pensando em refletir o momento atual. Ela própria ri de seu processo lento. “Comecei esse filme em 2011, há seis anos, quando estava iniciando minha relação com o Matias (Mariani, corroteirista). Vínhamos cada um da sua história e, de alguma forma, se desenhou esse filme, que não é autobiográfico, sobre um casal de artistas que tenta resolver suas diferenças encerrado num estúdio.”

Ele, escultor, ela, bailarina. Rodrigo Bolzan e Raquel Karro (que veio da ginástica, do Cirque du Soleil). Nenhum dos dois personagens tem nome. Ele cria esculturas enormes, ela ensaia coreografias mais leves. Interagem e, no final, a criação dele muda. “Trabalhamos nisso porque dança e escultura constroem sentimentos mais que discursos. A racionalização não é impositiva porque nada é 100% claro”, diz Júlia. Mas seis anos de gestação! “Foram de gestação mesmo porque, durante o processo, tivemos duas filhas, e eu estava grávida da segunda enquanto filmava.” A montagem? “Foi outro parto. Gosto de fazer as coisas no meu ritmo.” Pendular é um filme plástico, bonito. Nasceu sob a influência de uma performance de Marina Abramovic com o marido, Ulay, em 1980. Há 37 anos – Rest Energy.

Mesmo que não ganhe nada em Brasília – mas as chances são boas –, Pendular já foi premiado pela crítica internacional (Fipresci) como melhor filme da Mostra Panorama no Festival de Berlim, em fevereiro. A crítica mundial não se ocupou de um aspecto nada negligenciável do filme de Júlia. A idealização do mundo dos artistas. Eles estão ali isolados, criando e fazendo sexo. Em Brasília, chegou a surgir a questão – o sexo foi verdadeiro? “Não, mas na minha próxima ficção, Regra 34, sobre sexo na internet, terá de ser.” Nenhuma questão sobre quem paga a conta das esculturas e do imenso disco sobre o qual se elabora a coreografia do desfecho. Outra coisa. O mundo externo participa como som. “Sim, nosso som foi muito elaborado”, esclarece a diretora. Quando a câmera sai à rua e o filme se torna documentário, a primeira imagem é de um homem sem braço. Júlia não o colocou ali, mas o incorpora à sua visão. A imperfeição do mundo vs. a perfeição – ou pelo menos equilíbrio – da arte? Em Brasília, o tema sequer chegou a ser levantado.

Entrevista

Filha de cineasta – Lúcia Murat –, Júlia é autora de uma obra pequena (é muito jovem), mas expressiva. Ela conversou com o repórter na manhã de quarta, no Espaço da Augusta.

No início de Pendular, eram uma bailarina e um escritor. Por que mudou?

Porque a gente não queria que o filme fosse discursivo. Quando comecei com o Mateus (Mariani), me veio, de forma muito natural, essa coisa de pensar o amor. Mas a gente não pensa muito. Sente. A performance da Marina Abramovic, Rest Energy, que é muito conceitual, foi decisiva. Nos deu um norte. E o personagem virou escultor, porque dança e escultura constroem sentimentos mais que discursos.

Há um idealização dos artistas no estúdio. Por que?

Não era uma intenção. Criar é um processo que pode ser muito duro e intenso e, para mim, em geral é. Exige pensamento, pesquisa. 

Tudo o que sabemos sobre:
Júlia MuratFestival de Brasília

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

  • Stan Lee: todas as 29 aparições nos filmes da Marvel
  • Projeta Brasil do Cinemark apresenta filmes brasileiros por apenas R$ 4
  • Glória Maria faz cirurgia para remover lesão cerebral e passa bem
  • MIS abre novo lote para exposição imersiva de Da Vinci 
  • Mônica San Galo lamenta morte de Jesus Sangalo: 'pode-se morrer de mágoa'

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.