France 2 Cinemá
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Filme ‘Os Cowboys’ chega ao Brasil com ficção de ferida real

O próprio diretor e roteirista Thomas Bidegain reivindica a sombra de ‘Rastros de Ódio’ sobre seu belo drama

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 Março 2017 | 03h00

Roteirista profissional, Thomas Bidegain escreveu quatro filmes para Jacques Audiard. “Adoro escrever para cinema. Isso me permitiu conhecer muita gente interessante. E dar vida aos personagens dos outros é um exercício fascinante. Exige entrega, disciplina.” Estimulado por Audiard, Bidegain tornou-se diretor – de Os Cowboys, belo filme em cartaz (desde a quinta, 16). “Foi maluco. Escrevia O Refúgio para Jacques num turno, fosse manhã ou tarde, e no outro escrevia o meu filme”, lembrou.

Os Cowboys não tem esse título por acaso. A bem da verdade, já houve outro Os Cowboys – de Mark Rydell, com John Wayne – em 1941. Bidegain usa o gênero para abordar questões contemporâneas – a força da cultura islâmica na França. Nas três etapas – escritura, realização, lançamento –, a feitura foi marcada por ataques do terror que sacudiram o país. “Estava apreensivo, mas o filme foi muito bem de público e crítica.” O amigo Audiard gostou. “Jacques visitou o set, foi muito bacana comigo.” O repórter informa, na entrevista por telefone, que outro filme francês sobre o tema – Fatima, de Philippe Faucon –, também está em cartaz no Brasil. “Gosto muito do filme, da atriz. E, embora diferentes, acho que são filmes complementares. Para entender um pouco o islamismo na França, sugiro que seus leitores vejam os dois.”

Vem de longe o fascínio de Bidegain pelo western. “Sou basco e, durante toda a minha infância, brincava de mocinho com meu irmão. Na nossa fantasia, os bascos eram os índios.” Agora, são os islâmicos. O filme narra a busca que pai e filho fazem da filha e irmã que fugiu de casa para seguir o namorado islâmico. Desaparecem no mundo. Começa o êxodo. No meio do caminho... Olha o spoiler. O filme narra a jornada do garoto, que vira homem. Um tema clássico do western. O final é muito belo, muito maduro. De alguma forma evoca um dos maiores filmes de Hollywood no começo dos anos 1960 – Clamor do Sexo, de Elia Kazan, com Warren Beatty e Natalie Wood. Mas a matriz de Bidegain é outro filme, maior ainda, com Natalie – o mítico Rastros de Ódio/The Searchers, de John Ford, com John Wayne e Jeffrey Hunter.

Tio e sobrinho procuram a garota sequestrada pelos índios e que, anos depois, se aculturou e virou mulher de um chefe. Ethan Edward/Wayne virou um homem amargurado e sombrio. Caça Debbie para matá-la. “Rastros de Ódio foi meu modelo, mas não precisei revê-lo enquanto escrevia. Tudo o que me interessava já fazia parte do meu imaginário. Depois, sim, mostrei o filme aos atores.” Só um parêntese – o tempo todo Bidegain fala de La Prisionnière du Desert/A Prisioneira do Deserto, título que Rastros de Ódio recebeu na França. Os atores, François Damiens, o pai, e Finnegan Oldfield, o filho. “François é um ator muito popular na França. O público o adora por suas comédias. Já havia trabalhado com ele, escrevendo A Família Bélier.”

Isso significa que Bidegain escreveu Os Cowboys para Damiens? “De maneira alguma. Nem para Jacques (Audiard) escrevo pensando nos atores. Às vezes, depois, adapto os diálogos à embocadura de algum ator. Nesse caso, nem precisei fazer isso. A química entre François e Finnegan foi muito boa. E François vestiu a camiseta do drama.” O problema do filme é real. Muitas famílias francesas estão hoje ‘brisées’ (partidas) porque filhos e filhas aderiram ao islamismo. “Não fiz o filme para julgar, condenar. É um fenômeno real. Mais importante é compreender. Já existe ódio demais na França para que ainda queira jogar gasolina na fogueira.”

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