Supo Mungam Films
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Filme 'O Silêncio dos Outros' reabre discussão sobre crimes da ditadura espanhola

Documentário produzido pelos irmãos Almodóvar, Pedro e Agustín, luta contra esquecimento e prega que a Espanha tem de encarar seu passado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 de março de 2019 | 03h00

Preso e torturado há 50 anos, um homem ainda acredita que justiça será feita. Uma mulher indaga-se sobre o irmão, dado como morto, mas que, na realidade, ainda bebê, foi roubado e entregue a outra família. E outra mulher, sentada à beira de uma estrada, chora porque em algum lugar, sob aquele asfalto, podem estar os restos da mãe. 

Filhos separados dos pais, 100.000 mortos que não puderam ser enterrados por seus entes queridos. Como isso pode ter ocorrido num país católico como a Espanha?

Irmão de Pedro, Agustín Almodóvar – ambos produziram O Silêncio dos Outros na empresa El Deseo –, reflete que mais de 40 anos já se passaram desde a redemocratização da Espanha e, portanto, é mais que tempo que o país encare seu passado. 

A Guerra Civil, à qual se seguiu a ditadura do vitorioso Franco, ainda é um flagelo a pesar nas consciência. A guerra dividiu famílias, produziu dores profundas. 

Em 1975, após a morte do generalíssimo, o anseio por liberdade era tão grande que a sociedade assinou uma lei de anistia que garantiu a impunidade dos torturadores. Há alguns anos, voltaram as histórias dos bebês roubados, e o clamor se fez ouvir.

Em 2007, o governo socialista de José Luiz Zapatero votou uma lei contra o esquecimento, que foi revogada pelos conservadores. 

Os diretores Almudena Carracedo e Roberto Bahar apostam numa volta dos socialistas ao poder, na Espanha, para exumar os esqueletos nos armários. A ideia do filme surgiu há oito anos, quando as histórias dos bebês roubados invadiram a mídia. 

Ao longo de seis anos e 450 horas de material colhido em dois continentes, eles se valeram da jurisprudência de cortes europeias e argentinas que permitiram reabrir investigações sobre os bebês. A prática, que prosseguiu na Espanha após a morte de Franco, foi adotada pela ditadura argentina – separar bebês de suas famílias ‘degeneradas’. Inspirou o movimento das Mães da Plaza de Mayo e um filme vencedor do Oscar – A História Oficial, de Luís Puenzo.

Estreado em pleno carnaval, O Silêncio dos Outros tem passado com brilho em importantes fóruns – o AFI Doc Festival em Washington, o Human Rights Watch Festival, em Nova York, o BFI Southbank, em Londres, etc. 

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