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Filme 'O Mensageiro' mostra ascensão e queda de um repórter

O ator Jeremy Renner vive o jornalista Gary Webb, que investiga a participação dos EUA no tráfico de drogas

TONICA CHAGAS, Especial para O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2014 | 11h45

NOVA YORK - Jeremy Renner não sabia nada sobre o jornalista americano Gary Webb (1955-2004) até ser sondado para fazer o papel dele e ler o script de O Mensageiro, que acaba de estrear no Brasil. O ator ficou tão eletrizado pela história que criou uma produtora, a Combine, "para fazer o filme como tinha que ser feito".

"Esta história ocorreu há pouco mais de 100 quilômetros de Modesto, onde eu cresci", lembrou o californiano Renner. "Descobrir que era verdadeira foi ainda mais importante para fazer dela um filme", disse o agora dublê de ator e produtor ao Estado, em meio à maratona de entrevistas para o lançamento de O Mensageiro no mercado internacional.

Repórter do San Jose Mercury News, jornal da região de São Francisco, nos Estados Unidos, Webb foi responsável por uma série de matérias publicadas em 1996, mostrando a ligação da CIA, a agência norte-americana de inteligência, com os rebeldes que lutavam contra o governo sandinista na Nicarágua, em meados da década de 1980. Sob o título Dark Alliance (Aliança Sombria, em tradução aproximada), a série expôs a cumplicidade de setores do governo de Ronald Reagan no tráfico de cocaína que subsidiava a compra de armas para os chamados Contras.

Segundo as investigações do jornalista, para multiplicar o rendimento proporcionado pela droga, tornando-a mais barata e acessível, essas transações acobertadas pelo governo germinaram a epidemia mortífera de crack na população negra de Los Angeles. Webb baseou suas reportagens em relatório de uma investigação feita pelo próprio Departamento de Justiça dos EUA e a série foi uma das primeiras publicadas em âmbito global graças à internet.

O diretor de O Mensageiro, Michael Cuesta, que já trabalhou com Renner na televisão, o define como um ator instintivo. O artista concorda com a definição e diz que procurou retratar Webb como um ser humano e não apenas como um jornalista cobrindo uma história. "Meu instinto era focalizar nele como pessoa, como um pai", conta.

Além de ler as reportagens, o livro sobre elas escrito por Webb e o do jornalista Nick Schou, no qual o roteiro se baseia, Renner viu e reviu vídeos domésticos cedidos pela família do repórter, em que ele aparece brincando com os filhos, por exemplo. "Michael Cuesta tratou da parte do trabalho dele como jornalista naquela história", afirma o ator. "Eu procurei mergulhar nas relações pessoais, no coração."

Leitor esporádico de notícias na internet "para não ficar completamente no escuro sobre o que está acontecendo no mundo", ele acredita provavelmente na metade do que lê. Por isso valoriza a tenacidade de Webb como jornalista investigativo e o defende do descrédito a que foi submetido depois da publicação da série Dark Alliance.

O mais importante, salienta, é ver como a mídia dá uma volta e muda o que Webb disse, insinuando que ele estava errado. Dessa forma, a trajetória de um profissional premiado perdeu a credibilidade, o que, por fim, o levou ao suicídio.

De certa forma, Renner compara o desafio de interpretar um personagem real ao de um jornalista com o perfil de Webb. "Fazer um cara que as pessoas conhecem ou podem pesquisar a respeito é como seguir um mapa do qual você não pode se desviar muito", explica. "Há uma responsabilidade de ser verdadeiro, assim como o trabalho do jornalista é ou deveria ser..."

Fora do sistema. Com carreira iniciada em meados da década de 1990, Renner, aos 43 anos, já tem duas indicações para o Oscar (como melhor ator em Guerra ao Terror, de 2008, e como coadjuvante em Atração Perigosa, de 2010). Instalou-se na faixa de salários milionários graças a filmes de super-heróis de histórias em quadrinhos como Thor e Os Vingadores (o segundo desta série já está pronto e tem estreia marcada para o primeiro semestre de 2015).

Ele estava em negociações para fazer o papel do ciberativista da WikiLeaks Julian Assenge em O Quinto Poder quando leu o script com a história de Webb e optou por ele. Criou a produtora Combine justamente porque pretende continuar fazendo filmes como este, fora do sistema da indústria cinematográfica americana. Começando a somar elogios pelo trabalho em O Mensageiro, Renner compreende que, "criativamente, os estúdios também gostariam de fazer este tipo de filme, mas são forçados a fazer o 'pão com manteiga' porque estão encurralados pela TV".

Na véspera desta entrevista em Nova York, ele estava no norte da África filmando sua segunda participação na série Missão Impossível, protagonizada por Tom Cruise pela quinta vez. Essa atividade constante o faz sentir falta do que para ele é mais importante agora: Ava, sua filha de um ano e meio. Com o encantamento de pai de primeira viagem, ele tira o celular do bolso e põe para rodar um vídeo em que ela aparece brincando no piano do pai, que também é músico. Espera retomar essa faceta artística, que anda meio negligenciada, quando começar a ensinar a filha a tocar de verdade.

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