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Filme 'O Caseiro' pretende provocar medo

Diretor Julio Santi fala de suspense no longa sobre fantasmas 'internos'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2016 | 19h59

Nos últimos anos, tem havido, no cinema brasileiro, uma tentativa de se apossar de códigos de gêneros. Mas os novos diretores – pois são novos diretores – também querem subverter esses códigos. Nisso seguem uma tendência já antiga. Mesmo que o cinema nacional não tenha tradição no gênero, Ivan Cardoso, nos anos 1970, criou o terrir – terror com riso, filtrando suas narrativas pelo filme B e pela chanchada. Nos exemplares recentes, Sinfonia da Necrópole é terror cantado e dançado, Vampiro 40º é terror em forma de gibi e assim por diante. Estamos falando de terror. Julio Santi quer provocar medo, mas, mais que terror, adotou o suspense.

Santi começou a escrever o argumento com o irmão, Felipe. Deram livre margem à imaginação. “Meu irmão tem mais de mil DVDs e Blu-Rays. Vemos muito suspense, dissecamos os clássicos. Depois do argumento, coescrevi o roteiro com João Segall. De novo, a gente não se policiou. Não sabíamos se o filme seria produzido, então escrevemos a história do jeito que gostaríamos de vê-la contada.” Levada à Orion, a proposta foi encampada pela produtora Rita Buzzar e virou o filme O Caseiro, que estreia nesta quinta, 23. A imagem inicial é deslumbrante – uma canoa no meio de um rio, um homem com uma capa, de pé, a paisagem esfumada ao fundo.

“Essa imagem vem de um filme coreano que vi e não me lembro”, diz o diretor. O repórter ajuda – é A Ilha, de Kim Ki-duk. “Queríamos uma imagem forte que já colocasse o público no clima, por isso ela fica um tempo na tela.” Bruno Garcia faz o protagonista, um professor. Não é propriamente um caça-fantasmas brasileiro, mas se interessa pelo estudo do sobrenatural. Uma aluna lhe pede ajuda – sua irmã está sendo agredida por uma entidade misteriosa no sítio que pertence à família. Ele vai para oferecer socorro. “Estudamos muito os clássicos do gênero e a estrutura em três anos. Essa questão estrutural foi muito importante para a gente. Não queríamos, em momento algum, que o espectador soubesse mais que os personagens. Ele faz suas descobertas com o Bruno.”

Existem ecos de muitos filmes – os gêmeos sinistros de A Inocente Face do Terror, de Robert Mulligan, as duas meninas no corredor de O Iluminado, de Stanley Kubrick. “Mais até que as meninas, o garoto protagonista de Kubrick foi uma inspiração. A menina que faz Júlia e está no cartaz é muito parecida com ele, mas foi uma coisa que aconteceu. Não a procuramos por isso. Da mesma forma, durante o processo, houve uma troca de diretor de fotografia e o que terminou fazendo O Caseiro – Ulrich Burtin – me deu um livro que achava que ia me interessar. A Outra Volta do Parafuso, de Henry James, deu origem ao filme Os Inocentes (de Jack Clayton). Foi muito importante.”

O decisivo nisso tudo é que O Caseiro marca a segunda experiência no longa de um cineasta que frequentou o curta e desenvolveu importante atividade teatral. Santi formou-se em Letras na USP e fez mestrado em Literatura Brasileira na Unicamp. Possui formação de ator de teatro pela escola Célia Helena, onde também se iniciou como dramaturgo. Em 2012, escreveu e dirigiu o primeiro longa-metragem, O Circo da Noite, produção independente premiada no Festival Internacional de Oaxaca. Foi também melhor diretor no Rengo Internacional Film Festival, no Chile.

Ele admite estar ansioso com a estreia de O Caseiro. “O filme foi feito com pouco dinheiro, e isso, se por um lado é bom, porque implica em menos pressão de resultado, de outro cria dificuldades porque é duro trabalhar com poucos recursos. É preciso se desdobrar quando a gente não tem dinheiro. Não estou reclamando. É a história que queríamos contar, e contamos como queríamos, ou conseguimos.”

A ideia é provocar medo com recursos simples, e não sendo explícito. E Santi diz uma coisa que também bate com o que pensa o roteirista João Segall (leia ao lado). “A gente trabalhou muito com referências, no roteiro e na direção, acreditando numa norma do cinema de Hollywood. Eles são ótimos na reinvenção de seus códigos. Modestamente, queremos fazer bem uma coisa que sabemos que atrai público.” A pergunta que não quer calar – fantasma existe? “No filme, dizemos que sim, mas o pior fantasma é sempre aquele que vive no interior das pessoas.” É disso que fala O Caseiro.

João Segall - ROTEIRISTA - 'Mais que sustos pensávamos nos personagens'

João Segall é um jovem escritor, de 23 anos, que assina com O Caseiro seu primeiro roteiro importante.

Por que o cinema de gênero?

Porque é muito interessante trabalhar com códigos já estabelecidos e tentar algo novo. Hollywood faz isso muito bem. Ninguém reinventa, como eles, os códigos que já dominam. Respeito as tentativas de outros roteiristas e diretores, o terror cantado e dançado etc e tal, mas, no nosso caso, seguimos outro caminho. Fomos fiéis a certos códigos, só diferimos por incorporar elementos brasileiros, que estão no nosso imaginário, como o espiritismo.

Vocês já pensavam nos sustos ao escrever?

O que a gente pensava era nos personagens. O espectador pode nem se dar conta, mas a gente pensou muito cada personagem. Construiu uma vida para cada um deles. A Gabi, a irmã do meio, foi bastante pensada. O aluno de Bruno Garcia. 

Nesse sentido, as duas meninas são muito interessantes...

...Não digo que o filme seja perfeito, porque não é, mas estamos orgulhosos de muita coisa. Sei que não vai ser muita gente a rever o filme, mas quem fizer isso vai ver que colocamos muitas pistas antecipando o desfecho. De primeira, pode-se perder, mas na revisão aparece.

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