Filme novo de Christophe Honoré estreia no Mix

Ator pornô François Sagat falou sobre a diferença entre atuar na indústria de filmes adultos e no drama francês

Marcio Claesen, Estadão.com.br

12 de novembro de 2010 | 19h29

    Chiara Mastroianni e François Sagat em cena de Homem no Banho

 

Não é só de diversidade sexual que é feito o 18º Festival Mix Brasil. Sob as mãos da curadora Suzy Capó, o evento deste ano tem também uma pluralidade bastante expressiva de gêneros e estilos. Dito isso, não causa surpresa o novo longa-metragem de Christophe Honoré, Homem no Banho, estar na programação fazendo sua estreia sul-americana no evento.

 

O elenco conta com Chiara Mastroianni, que já fez parcerias com o diretor em Canções de Amor (2007) e Não, Minha Filha Você Não Irá Dançar (2009), mas é o protagonista que chama atenção: o ator pornô François Sagat, em seu primeiro papel dramático no cinema.

 

Em conversa com o Estadão.com.br, Sagat, que está em São Paulo a convite do Mix, falou de como foi participar do longa e quais as diferenças entre atuar na indústria de filmes adultos e em filmes “sérios”. Homossexual assumido, ele também revelou o que pensa sobre os direitos gays e ocasamento entre pessoas do mesmo sexo. Sagat ainda está em L.A.Zombie do diretor canadense Bruce Labruce, uma espécie de pornô com terror.

 

Como surgiu o convite para integrar o elenco de L.A.Zombie e o que o público pode esperar do filme?

Conheci Bruce (Labruce, diretor do filme) há dois anos em uma festa em Paris. Falamos de um vídeo que fiz no Youtube para o Halloween, vestido como um vampiro loiro. A gente começou a filmar um ano depois em Los Angeles. Todo o projeto foi centrado em torno do meu personagem. Não considero o filme uma história com começo e fim. Há pouca interpretação. A maioria das opiniões do público que recebi até agora foi surpreendentemente boa.

 

Você também está no elenco do novo longa de Christophe Honoré, Homem no Banho. Pretende atuar em mais filmes dramáticos e conciliar com a carreira na indústria pornô?

Na verdade, não tenho intenção de fazer nenhum outro papel. Nunca pedi para trabalhar (risos). Os projetos vieram até mim. Christophe Honoré me contatou e perguntou se eu estava disposto a fazer o filme. Não me vejo fazendo pornô e atuando ao mesmo tempo. Pode ser muito difícil. Não fiz nenhum pornô desde setembro de 2009, mas não posso dizer o que vai acontecer no futuro.

 

Você já viu o filme? Gostou do resultado?

Eu já o vi várias vezes em festivais e promovo meus filmes direitinho! Acho que estou muito ruim em certos diálogos e bem em outros. Parece bastante realista a maneira como o diretor tentou mostrar alguns aspectos emocionais. Para as pessoas que querem ver coisas bonitas, tudo muito calculado, bem, este filme não é para elas. Eu me senti abençoado por poder contribuir para este filme. Não foi fácil de fazer, mas nada é simples se você quer um resultado forte. Christophe é muito claro e preciso com o que quer com seus atores e atrizes. Há muita improvisação, mas eu me senti suficientemente dirigido.

 

O que é mais difícil: fazer um filme com história ou uma produção pornô?

É sempre difícil no meu caso fazer um filme com história e diálogos. Fato. Sou reconhecido na indústria pornô talvez por ser bem sucedido desde o início. Atuar é algo muito diferente. Eu me sinto seguro e confiante quando faço pornô. Tem a ver com a maneira que você coloca seu corpo e suas habilidades sexuais em situações extremas. Já atuando em um filme "sério" você precisa de técnica na maior parte do tempo. Acho que eu preciso ter aulas de interpretação se quiser "tentar" ser ator. Talvez eu não tenha sido feito pra isso... É muita responsabilidade.

 

Você tem uma tatuagem que lembra as bandeiras da Tunísia e Turquia que seria uma homenagem à cultura árabe. Como encara o fato de os árabes, e a cultura muçulmana em geral, se opor tão fortemente à homossexualidade?

Na verdade, não é realmente um "tributo". Apenas gostei destes símbolos gráficos. Eu respeito qualquer cultura, não só a árabe. Sou homossexual, mas não estou preocupado com isso. Não vou sair gritando nas ruas que sou homossexual. Quem se opõe a esta opção, talvez seja porque tenha medo de suas próprias tempestades.

 

Sua estréia na indústria pornô ocorreu só depois dos 25 anos. Em sua opinião, isso te ajudou a resistir aos vícios dessa indústria?

Bem, eu ainda estou aqui hoje... Mas você quer mesmo saber como é a indústria pornô nos Estados Unidos hoje em dia?  Drogas e vícios estão por toda parte em todo lugar, no cinema, no esporte, na moda, em todo lugar. Eu trabalhei com pessoas muito sérias, bons homens de negócio, muito responsáveis. Da minha parte, eu nunca tive problemas. Então, eu não posso te dizer se sou um sobrevivente. Eu tinha 25 anos, sim, mas ainda era muito jovem. Admito, não aconselharia ninguém jovem demais a trabalhar com pornografia.

 

Você ainda mora na França? Como você vê a questão dos direitos gays? Você já disse inúmeras vezes que não pretende se casar. O que você pensa sobre o casamento gay?

Sim, eu moro na França. Eu tenho muita dificuldade de falar sobre isso. Sabe, eu não pertenço à “comunidade”, então, dar minha opinião sobre algo em que eu não estou envolvido é muito difícil. Eu acho que “ser” gay ainda é ser sexualmente diferente. Eu não sou contra o casamento gay. Eu só acho que não é uma prioridade, como a adoção por casais do mesmo sexo, por exemplo. Na França, temos os “PACS” (pactos de parceria civil). É uma boa opção para os casais se unirem.

 

link 'Mix Brasil foi fundamental para formar público do cinema LGBT', diz Suzy Capó, curadora do festival

video TV Estadão na abertura do Mix, que chega à maioridade

link Festival da diversidade sexual completa 18 anos

 

Tudo o que sabemos sobre:
MixBrasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.