Filme Noir no Centro Cultural Banco do Brasil

Dizem que os filmes eram escuros porque não havia dinheiro para uma iluminação decente. E assim teria nascido a "estética noir", famosa depois de se tornar a queridinha da crítica francesa, então no auge da influência mundial. Mas essa é apenas uma piada cinematográfica. O que o espectador poderá conferir nesta boa mostra Filme Noir e suas Fronteiras, promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil, é a extraordinária qualidade destes filmes, produzidos nos Estados Unidos entre os anos 40 e 50. Há um lado verdadeiro na anedota: como essa safra noir corria na faixa considerada dos "filmes B", de baixo orçamento, sobre ela não pesava a estreita vigilância dos estúdios. Quer dizer, os diretores gozavam de relativa liberdade para fazer o que queriam. Daí a qualidade da série noir, que aliás, ganhou essa denominação da própria crítica francesa e seduziu muitos cineastas. Entre eles gênios como Orson Welles, John Ford, Nicholas Ray e Fritz Lang e diretores extraordinários como Anthony Mann, Don Siegel, Jacques Tourneur e Richard Wallace. Exemplos não faltam da qualidade dos filmes selecionados. Basta dizer que o primeiro programado é A Marca da Maldade, de Welles. Um filme da fronteira, da ambigüidade, com o próprio Welles, ainda jovem, fazendo um obeso tira desonesto, Hank Quinlan, tipo característico da sua galeria de personagens. A Marca da Maldade é conhecido dos cinéfilos pelo longo plano-seqüência da abertura na fronteira mexicana. O plano é menos um exercício vazio de virtuosismo do que uma plataforma estética de Welles. E que prepara o espectador para o que vem a seguir: um mundo ambivalente, no qual não se sabe direito onde está o bem, onde está o mal. E no qual, mesmo um crápula como Quinlan se mostrará (através de outra personagem, vivida por Marlene Dietrich) alguém dotado de alma humana. É apenas um exemplo entre outros. Essa característica multifacetada está presente em praticamente todos os onze filmes de que se compõe a mostra. Filmes de temática criminal, mas na qual os criminosos são vistos contra o pano de fundo de uma sociedade também corrupta. É nessas obras de iluminação reduzida que, por paradoxo, a relação entre indivíduo e sociedade melhor se esclarece. Em suma, é cinema que, sob a aparência da história criminal (ou policial) põe em foco o drama humano. Este drama está no padre alcoólatra de Domínio de Bárbaros (de John Ford); no boxeador decadente de Punhos de Campeão (Robert Wise); no bandido obcecado por uma mulher e casado com a irmã dela, em Nascido para Matar (também de Wise), no inocente que deve pagar pela culpa alheia de Medo que Condena (de Don Siegel), entre outros.Nesses filmes, o período predominante é a noite. Todos fumam e bebem. Os ambientes são sombrios. Em geral, chove. E os faróis dos carros cortam a chuva, e desenham sombras nas ruas molhadas, nas paredes e nas calçadas. O ambiente é essencialmente urbano. A cidade é o habitat natural do noir. Nela está o dinheiro e a ganância, a competição pela vida, as rivalidades. A busca obsessiva do sucesso, do sexo. E portanto o conflito, o drama, a morte. Quem conhece esses filmes não deve perder a oportunidade de revê-los. Quem não conhece vai ficar surpreso com o simples fato de que, naquele tempo, se fizesse cinema comercial com assinatura de autor e dirigido ao público adulto. São filmes críticos, duros, inovadores no conteúdo e consistentes na forma. Como puderam existir? Simples. Havia um público para eles. Talvez não fosse o público mais numeroso, nem o mais abonado, mas era suficiente para não deixar os estúdios no vermelho, embora isso ocasionalmente ocorresse. Mas, um pelo outro, os filmes acabavam se pagando. Divertiam (porque diversão não é pecado, ao contrário), mas também expressavam de forma contundente uma época difícil da sociedade americana. Ficaram. De quantos desses filmecos milionários de hoje, produzidos em série como sabonetes inodoros, se pode dizer o mesmo?(70 lug.). R. Álvares Penteado, 112, centro, 3113-3651 www.bb.com.br/cultura. De 3.ª a dom. R$ 4. Até 12/2 Filme Noir e Suas Fronteiras. Hoje, 14h, A Marca da Maldade, de Orson Welles; 16h, Punhos de Campeão, de Robert Wise; 18h, Nascido para Matar, de Robert Wise; 20h, Fuga do Passado, de Jacques Tourneur. Centro Cultural Banco do Brasil/Cinema

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