Filme ‘Não Olhe Para Cima’ divide opiniões nas redes

Longa com Leonardo DiCaprio e Meryl Streep tanto é elogiado como visto como caricatural

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

Não Olhe Para Cima está bombando na Netflix. E também nas redes sociais. Um jornalista postou em seu Twitter: “Quem escreveu o roteiro do filme também escreveu o roteiro do Brasil”. Outro internauta comentou em sua página no Facebook: “O filme é ótimo, mas não é ficção - é um documentário.” Nem todos gostam. Alguns críticos acham o filme caricatural, embora sua “causa” seja justa. Enfim, é a nova polarização da internet e não houve outro assunto nas redes sociais neste fim de semana natalino, pelo menos em determinadas bolhas. 

Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence interpretam cientistas tentando alertar o mundo para um desastre em 'Não Olhe para Cima'. Foto: Niko Tavernise/Netflix

Com razão. À medida em que vamos vendo esse novo trabalho de Adam McKay, sentimos uma estranha - e incômoda - sensação de familiaridade. É como se estivéssemos revivendo o noticiário dos últimos anos sob a forma de farsa, porém com grau enorme de realidade. Os personagens não nos são nada distantes - governantes venais e insensíveis; jornalismo de futilidades, incapaz de reconhecer as mais evidentes pressões da realidade; empresários gananciosos a ponto de destruir o planeta para aumentar seus lucros; religiosos idiotas e multidões que se movem como rebanhos; descrença na ciência e no conhecimento; negacionismo; violência verbal e física, sob império da pulsão de morte. Parece familiar? 

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A história é imaginativa. Uma doutoranda em astronomia, Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), exulta ao captar no telescópio um gigantesco meteoro até então desconhecido. Comunica a descoberta ao professor Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) e este começa a fazer cálculos. Até que se detém, aterrorizado. O meteoro parece estar em rota de colisão com a Terra e o encontro se dará em pouco mais de seis meses. Se nada for feito, será o fim da experiência humana sobre o planeta.

Aluna e professor conseguem uma audiência na Casa Branca. Vão se encontrar com a presidente Orlean (Meryl Streep) para comunicar a emergência e pedir providências. Depois de um chá de cadeira de sete horas, a dupla percebe que a presidente está preocupada com outros assuntos, tais como a nomeação de um ministro para o Supremo, acusado de corrupção. Vão à TV, mas no programa comandado por uma perua, Brie Evantee (Cate Blanchett) e um comediante de notícias, Jack Bremmer (Tyler Perry), também não os levam a sério. 

Verdade que a presidente Orlean é uma espécie de Donald Trump de saias. Mas representa toda sorte de líderes populistas contemporâneos, que só têm olhos para seu projeto de poder e tratam com frivolidade e desprezo as pessoas que neles votam. É uma crítica geral aos neo-populismos de extrema-direita que pululam pelo mundo. Modelito ajustado à perfeição ao nosso caso doméstico - daí o frisson nas redes sociais

McKay, autor também de A Grande Aposta e Vice, investe fundo nessa chave da sátira. Lúcido, não desconhece que políticos disruptivos, além da manipulação das massas, contam sempre com a cumplicidade de setores influentes da sociedade para pôr em prática seus projetos de poder. Um deles é Peter Isherwell (Mark Rylance), um empresário poderoso do ramo de celulares, que descobre o potencial econômico do meteoro e interfere nos planos de salvação do planeta. O próprio Dr. Randall Mindy (DiCaprio) não é inocente. Deslumbra-se com a fama instantânea e tira o foco da emergência para concentrá-lo nos holofotes e na exuberante Brie Evantee (Blanchett).

Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence e Meryl Streep em 'Não Olhe para Cima' Foto: NIKO TAVERNISE/NETFLIX

O propósito da sátira é criar uma imagem ficcional amplificada e, pelo absurdo, chamar a atenção para a loucura da atualidade. Stanley Kubrick fez isso de maneira genial em Doutor Fantástico (1964), tragicomédia sobre a ameaça do holocausto nuclear durante a Guerra Fria. No mais modesto Não Olhe para Cima, basta a ameaça do meteoro para traçar um retrato do desvario atual com a devastação ambiental e o negacionismo diante da pandemia da Covid. Com um limite: os personagens fictícios do filme parecem bem menos caricaturais que os da vida real.

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Filme ‘Não Olhe Para Cima’ divide opiniões nas redes

Longa com Leonardo DiCaprio e Meryl Streep tanto é elogiado como visto como caricatural

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

Não Olhe Para Cima está bombando na Netflix. E também nas redes sociais. Um jornalista postou em seu Twitter: “Quem escreveu o roteiro do filme também escreveu o roteiro do Brasil”. Outro internauta comentou em sua página no Facebook: “O filme é ótimo, mas não é ficção - é um documentário.” Nem todos gostam. Alguns críticos acham o filme caricatural, embora sua “causa” seja justa. Enfim, é a nova polarização da internet e não houve outro assunto nas redes sociais neste fim de semana natalino, pelo menos em determinadas bolhas. 

Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence interpretam cientistas tentando alertar o mundo para um desastre em 'Não Olhe para Cima'. Foto: Niko Tavernise/Netflix

Com razão. À medida em que vamos vendo esse novo trabalho de Adam McKay, sentimos uma estranha - e incômoda - sensação de familiaridade. É como se estivéssemos revivendo o noticiário dos últimos anos sob a forma de farsa, porém com grau enorme de realidade. Os personagens não nos são nada distantes - governantes venais e insensíveis; jornalismo de futilidades, incapaz de reconhecer as mais evidentes pressões da realidade; empresários gananciosos a ponto de destruir o planeta para aumentar seus lucros; religiosos idiotas e multidões que se movem como rebanhos; descrença na ciência e no conhecimento; negacionismo; violência verbal e física, sob império da pulsão de morte. Parece familiar? 

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A história é imaginativa. Uma doutoranda em astronomia, Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), exulta ao captar no telescópio um gigantesco meteoro até então desconhecido. Comunica a descoberta ao professor Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) e este começa a fazer cálculos. Até que se detém, aterrorizado. O meteoro parece estar em rota de colisão com a Terra e o encontro se dará em pouco mais de seis meses. Se nada for feito, será o fim da experiência humana sobre o planeta.

Aluna e professor conseguem uma audiência na Casa Branca. Vão se encontrar com a presidente Orlean (Meryl Streep) para comunicar a emergência e pedir providências. Depois de um chá de cadeira de sete horas, a dupla percebe que a presidente está preocupada com outros assuntos, tais como a nomeação de um ministro para o Supremo, acusado de corrupção. Vão à TV, mas no programa comandado por uma perua, Brie Evantee (Cate Blanchett) e um comediante de notícias, Jack Bremmer (Tyler Perry), também não os levam a sério. 

Verdade que a presidente Orlean é uma espécie de Donald Trump de saias. Mas representa toda sorte de líderes populistas contemporâneos, que só têm olhos para seu projeto de poder e tratam com frivolidade e desprezo as pessoas que neles votam. É uma crítica geral aos neo-populismos de extrema-direita que pululam pelo mundo. Modelito ajustado à perfeição ao nosso caso doméstico - daí o frisson nas redes sociais

McKay, autor também de A Grande Aposta e Vice, investe fundo nessa chave da sátira. Lúcido, não desconhece que políticos disruptivos, além da manipulação das massas, contam sempre com a cumplicidade de setores influentes da sociedade para pôr em prática seus projetos de poder. Um deles é Peter Isherwell (Mark Rylance), um empresário poderoso do ramo de celulares, que descobre o potencial econômico do meteoro e interfere nos planos de salvação do planeta. O próprio Dr. Randall Mindy (DiCaprio) não é inocente. Deslumbra-se com a fama instantânea e tira o foco da emergência para concentrá-lo nos holofotes e na exuberante Brie Evantee (Blanchett).

Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence e Meryl Streep em 'Não Olhe para Cima' Foto: NIKO TAVERNISE/NETFLIX

O propósito da sátira é criar uma imagem ficcional amplificada e, pelo absurdo, chamar a atenção para a loucura da atualidade. Stanley Kubrick fez isso de maneira genial em Doutor Fantástico (1964), tragicomédia sobre a ameaça do holocausto nuclear durante a Guerra Fria. No mais modesto Não Olhe para Cima, basta a ameaça do meteoro para traçar um retrato do desvario atual com a devastação ambiental e o negacionismo diante da pandemia da Covid. Com um limite: os personagens fictícios do filme parecem bem menos caricaturais que os da vida real.

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