Filme mostra viagem ao inferno dos manicômios

Luís Bolognezi tinha 15 anos quando leu O Processo. Nem é preciso dizer quanto ficou impressionado. Lembrou-se de Joseph K quando escrevia o roteiro de Bicho de Sete Cabeças. Ao ler o livro de Austregésilo Carrano que deu origem ao belíssimo trabalho de Laís Bodanzky - Canto dos Malditos -, Bolognezi percebeu na trajetória do alter ego do escritor paranaense a mesma irracionalidade que impulsiona o personagem famoso de Kafka rumo ao inferno em que se transforma sua vida. E Bolognezi, claro, filtrou Carrano por meio de Kafka.Não foi a única influência por ele assimilada enquanto escrevia o roteiro do mais belo filme brasileiro desde a retomada, no começo dos 90. Prepare-se para um raro impacto. Bicho estava previsto para estrear em fevereiro. A data ainda não foi fechada e agora talvez seja transferida para abril já que em março seria loucura disputar espaço com os lançamentos do Oscar. Bicho merece todo cuidado no processo de chegar ao público. Todo filme merece, mas Bicho especialmente. Não por acaso foi o tríplice vencedor no 33.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: melhor filme para o júri, os críticos e o público.Grande Laís - Seu filme ganhou sete Candangos e dois prêmios especiais, totalizando nove troféus na festa brasiliense do cinema. Entre os Candangos, os de melhor filme, diretora e ator (Rodrigo Santoro, ótimo). Ficaram faltando algumas estatuetas. A de melhor atriz coadjuvante, para Cássia Kiss, e especialmente a de melhor roteiro, para Bolognezi. A única explicação é que o júri presidido por Wilson Cunha, do Canal Brasil, não quis concentrar os prêmios num só filme e adotou o critério distributivo. O critério, em si, pode ser eventualmente válido, mas nesse caso houve injustiça.Bolognezi, que já havia feito Cinema Mambembe com Laís, conta como surgiu a idéia do filme. Laís participava de um grupo que discutia cidadania e loucura. Pesquisava para um documentário. Teve a revelação ao ler o livro de Carrano. Chegou para Bolognezi, companheiro de arte e vida, e lhe disse: "Esse é o filme que eu quero fazer." Bolognezi leu, acusou o impacto, mas percebeu que era um projeto difícil de realizar. Achou o livro ardido, a história, barra-pesada. Esteve a ponto de desistir, mas aí foi tocado pela apresentação do livro de Carrano, escrita por Paulo Leminski. O poeta de Curitiba mora no coração de Bolognezi. Ele chorou. E assumiu o projeto.Carrano cursava artes cênicas nos anos 70, no Teatro Guaíra, quando ocorreu com ele a experiência ficcionalizada por meio de Neto, o personagem que Rodrigo Santoro cria com tanta garra. Era hippie, consumia drogas. Seu pai descobriu, convidou-o para visitar um amigo no hospital. A cena é reproduzida no filme. Lá chegando, Carrano foi conduzido por seguranças e enfermeiros para uma sala e dopado. Começou ali a sua descida ao inferno.Tudo o que o filme mostra ele sofreu na pele. Tudo aquilo e muito mais. Carrano não esquece a sensação pânica da expectativa do eletrochoque, que lhe era aplicado, duas vezes por semana. Ele esperava aquela hora como quem morre. Um dia, de tão desesperado, lambeu o chão da cela - aquilo não era um quarto - como penitência. A cena é descrita no livro, mas não foi aproveitada por Bolognezi em seu roteiro. "Seria excessivo, as pessoas não iriam acreditar", diz o roteirista.Seu desafio era justamente esse. Contar a história de Carrano de forma a torná-la verdadeira para o público. Laís, nas sucessivas entrevistas que vem dando desde a estréia do filme, no Festival do Rio BR 2000, cita sempre O Estranho no Ninho, de Milos Forman, como uma de suas fontes de referência. Ela chegou a exibir aquele clássico para os atores, como exemplo do que queria fazer. As referências de Bolognezi foram outras - Kafka, O Processo e a carta do escritor ao pai. E também Michel Foucault, A Microfísica do Poder. Foi assim que o ataque do roteiro de Bolognezi ao sistema manicomial brasileiro foi adquirindo consistência - e densidade. Mas ele ainda não estava satisfeito."Sabia que aquele era o tema principal, mas não me bastava; queria outro tema, que lhe fosse complementar." encontrou-o num dos apêndices do livro, no depoimento do pai de Carrano. E usou o conflito familiar para dar ao filme o pathos que desejava. Como Laís, ele também não conhece o cult Vida em Família, que Ken Loach realizou baseado nas idéias do antipsiquiatra R.D. Laing, mas terminou refazendo a vida de família à brasileira.Tudo começou com o impacto que o livro de Carrano teve sobre a imensa sensibilidade de Laís. "O livro tem um tom de crônica e ao mesmo tempo é agoniado, cheio de fúria, um grito de desespero", diz Bolognezi. Ele temia cair na pieguice com essa história de amor e ódio, pois era assim que via a relação de Carrano com o pai. O próprio Carrano esclarece que seu pai era ainda pior do que Othon Bastos, que interpreta o papel no Bicho. "Ele era mais insidioso; nunca me colocou um dedo, mas deixou que os outros me fizessem todo aquele mal."É verdade que Carrano conseguiu reconstruir sua vida e hoje virou ativista do movimento antimanicomial, que luta para libertar o Brasil dos grilhões do atraso que transforma as vidas dos internos em institutos psiquiátricos num horror permanente. Carrano chama esses manicômios de chiqueiros psiquiátricos. Qualquer pessoa que tenha sido internada sofre horrores e ainda é vista com desconfiança. Ele sabe o que é isso. Perdeu emprego, namorada. Por isso luta. Para que outros não tenham de passar pelo que passou.Detratores - Carrano já moveu a primeira ação indenizatória em saúde mental do Brasil, por erro médico-psiquiátrico, contra as entidades mantenedoras dos hospitais em que sofreu sua via-crúcis e contra os psiquiatras Alô Ticolaut Guimarães e Alexandre Sech. Acha que o filme será importante na ampliação da luta antimanicomial. "Comento com amigos que antes era como se quisesse chamar a atenção tiroteando com um 38; agora tenho uma metralhadora nas mãos." Os detratores de sua luta dizem que os ativistas do sistema antimaniciomial querem extinguir, pura e simplesmente, os manicômios, pondo os loucos na rua. Carrano não gosta da palavra louco, tão pejorativa. Mas vá lá que seja - os loucos. A idéia é mudar o sistema manicomial por meio de trabalhos substitutivos, com internação do paciente em hospitais gerais apenas em casos de crises.Sua maior emoção, ele a teve ao ser chamado por Laís ao palco do Teatro Nacional de Brasília, na noite da premiação. Na caminhada da sua poltrona até o abraço da diretora passaram por sua mente todas as imagens da dor, da humilhação, do desespero. Os aplausos do público o estimularam a lutar ainda mais. Bolognezi reescreveu várias vezes o roteiro até chegar ao quinto o que foi filmado. Pelo primeiro, já havia recebido um beijo de Laís, prova de que estava no bom caminho. O mais difícil talvez tenha sido convencer Carrano de que o título do seu livro tinha de mudar. Canto dos Malditos estigmatizaria muito um produto já difícil. Canto virou Bicho e com uma força de estarrecer.

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