Filme mostra lado obscuro do assassino de Trotski

A estréia do documentário espanhol Assaltar os Céus, que trata as razões que levaram Ramón Mercader a assassinar León Trotski, dividiu os espectadores que o assistiram na mostra do ciclo Documentários Imprescindíveis do 4º Encontro Latino-americano de Cinema que se realiza em Lima, no Peru.As reações ao documentário de José Luis López-Liñares (diretor também do documentário A Propósito de Buñuel, que esteve em mostra paralela no Festival de Gramado) e Javier Rioyo se centram sobre o questionamento "da humanização de um assassino para demonstrar ao extremo a que chegam as ideologias fanáticas" e àqueles que destacam "o rigor da investigação para revelar o quebra-cabeças de um personagem tão misterioso".Os diretores reconstróem durante 90 minutos intensos e emocionantes, com base em alguns documentários inéditos de arquivos e recopilando testemunhos de amigos do fundador do ?Exército Vermelho?, a missão de Ramón Mercader como agente espanhol da KGB (a polícia secreta soviética) de cumprir a tarefa transferida por Stalin de assassinar seu mior rival político.O documentário retrata toda a vida de Mercader e seu ambeinte familiar, desde a sua infância em Barcelona nos primeiros anos do começo do século até sua passagem pelo México em 1940 para matar Trotski. Também discute sua posterior carceragem mexicana e em seguida, quando libertado em 1960 após 20 anos de prisão, seu retorno à Moscou, até sua morte na cidade de Havana em 1978.Como detalhe surpreendente do mistério que envolveu a vida deste homem - que se converteu num assassino em nome de uma ideologia que prova neste fim de século ter sido uma causa perdida - o documentário conclui mostrando a lápide de sua tumba em um cemitério moscovita, que ainda mostra na sua base o nome falso do assassino, que foi por 20 anos conhecido por Ramón López.A crítica local disse se tratar de um trabalho de investigação muito rigoroso, com uma seleção de testemunhos muito atinada. Um grande quebra-cabeça sobre um personagem misterioso que vai se revelando o máximo possível. A cineasta Chiara Varese ressaltou a qualidade técnica do documentário, mas criticou "o elo narrativo que não deixa opção ao espectador a não ser induzí-lo a um veredicto sobre Mercader em vez de deixar espaço para reflexão. Humaniza o assassino num desejo de mostrar como uma ideologia leva ao extremo de cometer um crime".Produzido em 1996, ainda que recém estreado em Lima, Assaltar os Céus foi assistido em três sessões lotadas - todas programadas pelos organizadores do 4º Encontro Latino-americano. Sempre com um público curioso, onde se encontravam nostálgicos ex-esquerdistas dos anos 60 e 70, cineastas e críticos de filme, e jovens militantes.

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