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Filme 'Morte e a Donzela' mostra Egon Schiele em versão comportada

Filme revê a participação feminina na vida e obra do pintor; há qualidades, mas, no fundo, é a versão casta para o mundo atual.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2018 | 06h00

Já houve uma cinebiografia de Egon Schiele com Mathieu Carrière e Jane Birkin no começo dos anos 1980, mas não obteve maior repercussão. Há agora uma nova versão que estreia nesta quinta, 19. Egon Schiele – Morte e a Donzela, de Dieter Berner, privilegia a participação feminina na vida e obra do pintor. O acréscimo ao seu nome designa uma obra, muito conhecida, por sinal. Depois desse filme, o diretor trabalha em mais um, investigando a vida de outro notório pintor expressionista de Viena, Oskar Kokoschka. Alma & Oskar é sobre o romance entre o dublê de pintor e escritor e Alma, a viúva do compositor Gustav Mahler.

Há um momento de Morte e a Donzela que tem provocado controvérsia, por onde passa o filme. Uma representação erótica num cabaré, Morte e a Donzela, e a Morte é um negro poderoso que tenta arrebatar uma bela jovem (branca). Acena está sendo demonizada e considerada incorreta, embora pudesse ser uma releitura do diretor sobre a revanche da África colonizada contra a Europa colonizadora.

Não se trata da única polêmica envolvendo o filme. Há documentação de que Schiele era pedófilo, atraído por garotas muito jovens. Chegou a abduzir uma de 13 anos. O filme registra o fato, mas a representação do que pode ter ocorrido não poderia ser mais idílica nem inocente. Sugere uma reabilitação histórica do artista. Outro processo e posterior julgamento, sob a acusação de pornografia, rende uma abordagem mais acurada.

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O movimento secessionista de Viena ganhou apelo no imaginário do público graças ao mentor de Schiele – o elegante e refinado Gustave Klimt. Obras como O Beijo influenciaram Schiele e Kokoschka, e ambos tornaram-se artistas destacados da escola de Viena. Mas se insurgiram, todos, contra o conservadorismo da Academia da época. O primeiro a romper foi Klimt, por meio de uma carta pública que os conservadores tentaram minimizar, chamando-o de “edipiano”. Schiele e Kokoschka foram adiante.

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Até por sua ligação com as mulheres que o inspiravam, considera-se que o primeiro, um pouco como o sueco Ingmar Bergman no cinema do século 20, era movido a testosterona. Mas se o erotismo impregna vida e obra do artista, é quase ausente do filme, que é bastante pudico. Berner capricha nas cores, nos tecidos, dirige um ator que não é apenas talentoso – Noah Saavedra – mas que guarda certa semelhança física com a imagem conhecida de Schiele. Tudo muito cuidadoso, mas não tanto estimulante.

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O filme começa em Viena, 1918, durante a guerra. A irmã de Schiele arromba a porta da casa e encontra a cunhada morta e o irmão gravemente enfermo – a febre espanhola atingiu o casal. Schiele morreu prematuramente, aos 28 anos. A partir daí começa o flash-back, revisitando os anos 1910, 1911 e 14, entremeados de cenas que mostram a irmã, Gerti, desesperadamente tentando adquirir quinino no mercado negro, para tentar salvar o irmão. Berner respeita fatos históricos – a sugestão de incesto com a irmã, a atração por garotinhas e por teatros de variedades que apresentavam nus artísticos. Schiele apaixona-se pela modelo negra Moa – dessa vez, os críticos não chiaram –, mas não espere nada muito intenso. Cinebiografia, nesse momento de conservadorismo, um arista transgressor como Egon Schiele seria um desafio e tanto, um ato de coragem. Sem dúvida que Morte e a Donzela tem qualidades, mas, no fundo, é a versão casta para o mundo atual.

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