Filme mongol tem série de pré-estréias em SP

Peter Brosens é belga, mas quase não fala francês. Pede que a entrevista, por telefone, seja feita em inglês. Ele reside atualmente na Alemanha, mais exatamente em Leipzig, "a cidade em que Johann Sebastian Bach morreu", acrescenta. Brosens é um dos diretores de O Estado do Cão, que terá pré-estréias diárias, durante toda a semana, no Espaço Unibanco 4. A estréia oficial será, possivelmente, no dia 23, mas é bom assegurar-se vendo logo o filme. A estréia depende da reação do público, e ela foi modesta na primeira semana de pré-estréias, que O Estado do Cão já teve, na mesma sala.É uma raridade - um filme mongol. Exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo do ano passado, foi definido pelos críticos como candidato a cult daquele evento. Não ganhou essa referência pelo exotismo da origem, mas por tratar-se realmente de obra criativa e original. O Estado do Cão baseia-se em lendas, narrativas orais da Mongólia, que dizem que os cães, ao morrer, reencarnam em homens. A partir daí a dupla de diretores tece uma espécie de parábola poética sobre o próprio significado da existência.Brosens dividiu a direção com o mongol Dorjkhandyn Turmunkh, que vive hoje nos Estados Unidos, e conta como conheceu o parceiro. Documentarista, ele fez alguns filmes na América do Sul (Equador e Peru), discutindo aspectos curiosos (ele prefere dizer "intrigantes") sobre a cultura dos índios da região. Brosens sempre foi atraído pela Mongólia. "É tão misteriosa", diz. Depois de ver Urga, do russo Nikita Mikhalkov, ele se convenceu de que devia conhecer a Mongólia e, talvez, filmar lá. Ao embarcar em Londres, não tinha referência alguma sobre o país mas encontrou nos arquivos do British Film Institute o telefone de um diretor mongol. Era o de Turmunkh, que foi seu cicerone na Mongólia. Tornaram-se amigos e, mais do que amigos, parceiros. Bolaram a aventura de O Espírito do Cão e fizeram o filme. Brosens desembarcou na Mongólia em 1993. O filme foi feito cinco anos depois. Não foi fácil montar a produção. No Ocidente, onde Brosens buscava recursos, ninguém queria saber de um filme mongol sobre cachorros que reencarnam em homens. Mas os diretores não desistiram. O filme tornou-se vital para eles. Sentiam que tinham de fazê-lo. Pronto, O Estado do Cão passou em cerca de 60 festivais de cinema em todo o mundo, incluindo a mostra paulista, onde virou cult.Dois mundos - Baasar é o cão do filme. Na verdade, não houve um Baasar, mas vários. Nenhum cão foi treinado para fazer o papel e a conseqüência é que Brosens e Turmunkh tiveram de filmar muito, com vários cães. Rodaram cerca de 15 horas de material, reduzidos na montagem para cerca de 90 minutos. Brosens tenta explicar o mistério e a fascinação da Mongólia. "É uma região encravada entre dois mundos - Oriente e Ocidente". Embora fizesse parte do império soviético, que a manteve fechada durante boa parte deste século, a Mongólia foi ocupada por orientais, dos quais absorveu a cultura. Quase toda a população professa a religião budista e o sistema ético, religioso e filosófico fundado por Siddarta Gautama, o Buda, consiste basicamente na crença ou ensinamento de como se escapa, por meio do mais alto conhecimento, da roda de nascimentos e se chega ao nirvana. Sendo o renascimento uma das pedras fundamentais do budismo, não admira que os mongóis budistas acreditem em cães que renascem como seres humanos.O mais curioso é que, adotando o olhar de Baasar e mostrando como ele revê sua vida, antes de renascer como homem, "O Estado do Cão" parece filiar-se à vertente inaugurada por Robert Bresson no genial "A Grande Testemunha", mais conhecido por seu título original - "Au Hazard, Balthazar". Brosens admite a coincidência, mas nega a influência. Nunca viu o clássico de Bresson e, portanto, diz que não pode ser influenciado por uma obra que não conhece.Ele reconhece que o filme não se enquadra nas categorias de documentário nem ficção, na estreita acepção dos termos. "Trabalhamos no limite, alimentando nossa ficção do documentário e embebendo nosso documentário na ficção" - fala no plural, por ele e Turmunkh. Algumas das cenas mais intrigantes do filme não têm explicações racionais, por parte do co-diretor - a contorcionista que fecha "O Estado do Cão", por exemplo."Já tínhamos filmado quase tudo e ainda sobrava filme virgem quando vimos a contorcionista numa feira; achamos tão sugestiva que filmamos bastante com ela: mais tarde, na montagem sentimos que aquelas imagens casavam com o sentido do texto, que fala em opostos que se complementam, e resolvemos usar as imagens, mas elas não foram planejadas; foi o que se chama de acaso feliz". Brosens não tem medo de ser sincero, mesmo arriscando-se a banalizar um pouco os mistérios e significados de uma obra que foge tanto aos padrões do cinemão de Hollywood. "Em todo processo criativo há sempre uma área sombria que não pode ser explicada racionalmente", diz.O poeta do começo foi outro acaso feliz. Depois daquilo, já filmou uma série sobre poetas mongóis. "Trabalham as palavras, em relação às imagens, de forma muito rica", define. Gostaria de fazer mais filmes na Mongólia. "É um mundo fascinante que nos abre portas com as quais nem sonhamos".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.