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Filme mítico no cinema brasileiro, 'Limite' completa 90 anos

Longa experimental, dirigido por Mário Peixoto, foi eleito o melhor nacional de todos os tempos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 15h00

Há exatos 90 anos, dia 17 de maio de 1931, foi exibido, no Cine Capitólio, no Rio de Janeiro, um filme destinado a se tornar mítico - Limite, dirigido por um jovem de 22 anos, Mário Peixoto

Reza a lenda que a recepção não foi lá muito efusiva. Começou ali a errática trajetória de Limite, exibido de tempos em tempos em poucas sessões para convidados e, por fim, depositado num desses escaninhos da desmemória cultural brasileira. 

Foi tido como desaparecido. Havia gente que sustentava jamais ter existido. Seria uma gigantesca fake news da cinematografia brasileira. Glauber Rocha criticou-o sem tê-lo visto (em seu livro Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, 1963). 

Esporadicamente, o filme era exibido, em especial na Faculdade Nacional de Filosofia, por iniciativa de Plínio Süssekind Rocha, mas a cópia de nitrato já estava se deteriorando. Por fim, iniciou-se o trabalho de restauração e uma nova cópia de Limite foi exibida em 1978 na Funarte, tirando o filme do limbo e podendo ser visto por gerações não nascidas na época em que foi feito. 

Em 1988, foi eleito, em votação organizada pela Cinemateca Brasileira entre os maiores críticos do país, o melhor filme brasileiro de todos os tempos. Posição ratificada em votação mais ampla promovida pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) em 2015, que elegeu Limite o maior filme brasileiro em toda a sua história. 

Depois dos anos de esquecimento, pode-se dizer que há hoje uma saturação crítica sobre Limite. O filme e seu autor são lembrados em livros e também em obras cinematográficas. Seu restaurador, Saulo Pereira de Mello (morto por covid-19 o ano passado), escreveu um pequeno, precioso e preciso volume para a Rocco, intitulado simplesmente: Limite. Saulo também editou para a Aeroplano o volume Mário Peixoto: Escritos sobre Cinema, com textos do diretor de Limite. Inclusive um muito famoso - Um Filme da América do Sul - que Mário, espertamente, atribuiu a Sergei Eisenstein para obter repercussão. 

Há também a literatura. Mário Peixoto publicou nos anos 1930 o livro de poemas Mundéu, elogiado na ocasião por Mário de Andrade. A Record editou Itamar - um dos volumes da gigantesca obra literária projetada por Peixoto sob o título de O Inútil de Cada Um, roman fleuve destinado ao inacabamento. Denilson Lopes acaba de lançar Mário Peixoto - Antes e Depois de Limite, uma leitura queer da trajetória de Mário, focada na questão da homossexualidade do autor. 

Em 1980, Ruy Solberg visitou o cineasta em seu sítio na Ilha Grande e o entrevistou. O filme se chama O Homem do Morcego e é extremamente revelador, com um Mário em plena forma falando do processo de criação de Limite e de seus outros projetos.

Há também o longa-metragem de Sérgio Machado, Onde a Terra Acaba (2002), que adota o mesmo título daquele que seria o segundo longa de Mário Peixoto, uma parceria com a atriz e produtora Carmem Santos, e nunca terminado. Sim, depois de Limite, Mário Peixoto jamais faria um segundo filme. 

Cerca de 30% de Onde a Terra Acaba foram rodados, mas o filme não terminou por desavenças entre o diretor e a atriz. Carmen Santos acabou dispensando Mário Peixoto, contratou outro diretor, preservou o título original e terminou o filme. 

Mário recolheu-se. Comprou o terreno com uma casa em ruínas do século 17, na Ilha Grande, e reformou-a usando a herança do pai. Praticamente isolou-se do mundo. Cuidava do sítio durante o dia e escrevia à noite. Anos mais tarde, o dinheiro acabou-se e ele foi obrigado a vender a propriedade. 

Poderia ter retornado ao cinema. Ruy Solberg conta que o incentivou a filmar o roteiro de A Alma Segundo Salustre e Carlos Augusto Calil, então diretor da Embrafilme, concedeu uma verba para começar. Mário protelava e, no fim, fez uma exigência impossível de ser cumprida - queria que os dois papéis principais fossem dados a Roberto Carlos e a Brigitte Bardot. Fim do projeto, num processo parecido ao de uma auto-sabotagem. 

Talvez Mário não quisesse mesmo fazer outro filme depois de Limite e do fracasso de Onde a Terra Acaba. Cineasta de uma obra só, esta foi suficiente para colocá-lo não apenas na primeira colocação entre os críticos, mas como num permanente quebra-cabeça para estudiosos. Como foi possível, de fato, que um rapazote tenha a ideia e a desenvolva para tão complexa reflexão sobre a finitude, o tempo e a morte?

Em falta de respostas definitivas a essa pergunta, melhor voltar ao filme, à cópia que ganhou restauração definitiva em 2007, numa parceria da Cinemateca Brasileira com a Cineteca di Bologna, iniciativa do cineasta Walter Salles e financiamento do World Cinema Foundation, de Martin Scorsese. Nesta, podemos apreciar a beleza da fotografia de Edgar Brasil, os movimentos de câmera, os enquadramentos ousados e sofisticados. O estilo com que o mar e natureza são registrados e as técnicas inovadoras empregadas por Edgar Brasil para dar forma às reflexões fílmicas de Mário Peixoto. 

O filme é mais poético que narrativo, embora mantenha uma célula básica de enredo. A imagem recorrente é a de um barco à deriva com três náufragos -a mulher nº1 (Olga Breno), a mulher nº 2 (Taciana Rei) e o homem nº 1 (Raul Schnoor). Os personagens não têm nomes. São seres, digamos, impessoais, que assumem a totalidade da tragédia humana. No entanto, têm histórias e as evocam em sucessivos flashbacks.Uma das mulheres é costureira, comete um crime, vai presa, mas consegue escapar com a ajuda de um carcereiro que deseja seus favores sexuais. A outra mulher, casada com um homem bêbado, é infeliz. O homem é viúvo mas tem uma amante. Numa visita ao cemitério, encontra-se com o marido de sua amante, papel desempenhado pelo próprio Mário Peixoto. Alguns críticos vêem, nos movimentos entre os dois homens, uma alusão velada à homossexualidade. 

Essas recordações do passado - os flashbacks - retornam, uma e outra vez, ao barco com os três náufragos e com as condições de sobrevivência se degradando. Não há mais comida nem água potável. O homem atira-se à água na direção de um objeto visto ao longe. Uma das mulheres morre. A outra sobrevive, mas talvez apenas temporariamente, agarrada a um pedaço de madeira depois de uma tempestade destruir o barco. Uma revoada de urubus evoca o tema da morte, assim como já o fizera no início do filme. Tudo se fecha em círculo. 

Assista ao trailer:

Inclusive na imagem recorrente, que aparece no início e no final, a de uma mulher enlaçada por dois braços masculinos algemados. Imagem de grande potência. Mário Peixoto conta que ficou impressionado ao vê-la numa banca de jornais em Paris, no tempo em que, muito jovem, estudava na Europa. Estava na capa da revista Vu. Depois de ser impactado por essa imagem seminal, Mário foi para casa e imediatamente começou a escrever um esboço. 

 Na volta ao Brasil, terminaria o “cenário” (roteiro) que se transformaria em Limite.  A trilha musical foi idealizada por Brutus Pedreira e se compõe de peças de Satie, Debussy, Borodin, Ravel, Stravinsky, César Frank e Prokofiev.

Entre elas, sobressaem as notas da Gymnopédie, de Eric Satie , na leitura impressionista de Debussy. São elas que fornecem tecido sonoro à melancolia de base do filme, cuja gênese talvez repouse numa contradição profunda de Mário Peixoto.

Ele disse, mais de uma vez, que o tema profundo do filme é a tese de que o tempo não passa de uma ilusão. No entanto, é também famosa a passagem relatada por Walter Salles em Onde a Terra Acaba. Walter vai visitar Mário e este pede que o recém-chegado olhe para um relógio de parede. “O que vê? O ponteiro dos segundos parece dizer sempre ‘mais um, mais um’. Mas o que diz de verdade é ‘menos um, menos um’.” Ao invés do tempo como ilusão, Mário talvez tivesse consciência profunda de sua passagem inexorável.  

O tempo é a soma das perdas. Até a perda final e definitiva. Por isso o filme se chama Limite, e não por outro motivo.

Enfim colocado no topo do panteão, Limite pôde ser comemorado como se deve. O 90º aniversário de sua primeira exibição não passará em branco. Em seu site, a Cinemateca do MAM promove um evento virtual com a exibição do clássico e debates sobre a obra. 

Veja a programação completa: 

SEG 17 MAI - DOM 23 MAI (período disponível no Vimeo da Cinemateca)

Limite, de Mário Peixoto. Brasil, 1931. Com Olga Breno, Taciana Rey e Raul Schnoor. 120’. Classificação indicativa Livre

www.vimeo.com/channels/cinematecadomam

DEBATES:

SEG 17 MAI

19h - Em memória de Saulo Pereira de Mello. Conversa com Filipi Fernandes e Walter Salles. Mediação Hernani Heffner.

TER 18 MAI

16h - Saulo e Limite. Debate com Alex Vasquez, Luciana Corrêa de Araújo e Rafael Saar. Mediação: José Quental

QUA 19 MAI (Youtube e Facebook do MAM)

19h - Masterclass de Denilson Lopes. 90 anos esta noite. Uma leitura da exibição de limite em 17 de maio de 1931. Mediação: Hernani Heffner

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