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Filme 'Miss França' mostra pessoa não binária que sonha vencer concurso de beleza

O longa do diretor Ruben Alves estreia nesta quinta-feira, 19, nos cinemas brasileiros

Matheus Mans, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2022 | 20h00

Tudo começou com uma conversa: o cineasta Ruben Alves soube que um amigo não estava se sentindo bem com seu corpo e gênero. Queria mudar. Tempos depois, em busca desse sonho, iniciou o processo de transição para ser o que sempre quis: uma mulher. Ruben, que fez sua estreia como diretor há nove anos com A Gaiola Dourada, acompanhou tudo com orgulho e, hoje, toma a história de inspiração para dirigir e roteirizar Miss França.

Estreia dos cinemas desta quinta-feira, 19, o longa-metragem conta a história de Alex (Alexandre Wetter), uma pessoa de gênero fluído, que é ou se entende como mulher em algum momento da vida, homem em outro, e que está cansada da monotonia da vida na França. Para quebrar com essa mesmice e perseguir um sonho de criança, decide fazer o impensável: se candidatar no concurso de miss do país escondendo sua real identidade.

“Sempre quis homenagear essas pessoas e, sobretudo, homenagear as pessoas que têm a coragem de ser quem elas são”, explica Ruben Alves em entrevista ao Estadão. Além da amiga transexual, o diretor também explica que o próprio protagonista Alexandre Wetter foi uma de suas maiores inspirações. “Encontrei nas redes sociais e achei incrível como essa pessoa pode ser tão livre sendo um rapaz, mas vivendo o feminino dele dessa forma”, diz.

‘Miss França’, a história moderna sobre identidade

A história de pessoas que fingem outra identidade ou gênero não é novidade. A lenda de Mulan, que ganhou duas adaptações pelas mãos da Disney, já trazia a história da guerreira que se passava por homem para ser aceita no exército chinês. No entanto, uma série de concessões na história por seu aspecto infantil enfraquece a discussão sobre a identidade da personagem, mergulhada em uma trama de fantasia e interesses amorosos.

Isso sem falar de filmes que tratam a transexualidade de maneira degradante ou como recurso narrativo, como As Branquelas, A Pele que Habito, Predestinado e Vestida para Matar. Ou, ainda, os que trazem responsabilidade temática, mas que insistem em colocar as pessoas transsexuais em papel de vítima ou como parte de uma história trágica, como Uma Mulher Fantástica e Albert Nobbs. São filmes que merecem revisionismo histórico.

Miss França, enquanto isso, segue um caminho responsável. Ainda que ingênuo em alguns momentos, o longa-metragem aposta em uma história leve, até mesmo com algumas sacadas de comédia, que empoderam a protagonista. “Eu não queria não mostrar tragédia. O percurso é dramático, mas feito com leveza”, explica o cineasta. “Essa luz de acreditar nesse sonho é quase um conto de fadas, meio Disney. Também nunca fiquei realmente preocupado em como tem que ser. Sempre foi e tem que ser assim. Deveria ser assim”.

Com esse olhar de trazer uma história leve, mas contemporânea, Ruben Alves faz parte de um processo importante de amplificar a diversidade. “É muito importante contar uma história com uma personagem como a Alex. O mais importante é perceber que todos nós temos sonhos e não há gênero no sonho. São sonhos”, contextualiza o cineasta. “A pessoa diferente na sua frente vai te trazer outra coisa, uma riqueza que você não conhecia: seja na cozinha, no jeito de se vestir, no jeito de pensar. Isso é maravilhoso. É uma história sobre isso: a liberdade de sermos quem somos, sobre a coragem de se assumir em uma sociedade fechada. Estamos evoluindo, mas nos fechando cada vez mais. Não entendo”.

Para a estreia no Brasil, Alves, que fala português com perfeição, espera que essa diversidade atinja o público sem tropeços no caminho. “Minha expectativa é mostrar como esse povo é livre, que não está à espera de políticos sobre como deve ou não fazer. É um povo que sente, é orgânico, com muita humanidade”, afirma o diretor. “Espero que aceitem o filme, entendendo que essa história é sobre a luta e coragem de ser quem somos”.

 

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