Bananeira Filmes
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Filme 'Medusa' fala sobre a pressão da beleza e do comportamento das mulheres

Longa de Anita Rocha da Silveira exibido em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, é um grito feminista

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

12 de julho de 2021 | 17h07

As máscaras estão presentes em Medusa, segundo longa de Anita Rocha da Silveira, que estreou nesta segunda-feira, 12, na Quinzena dos Realizadores, mostra paralela ao Festival de Cannes. Elas cobrem o rosto das jovens que se juntam para bater em outras mulheres, consideradas impuras, e também daqueles que desafiam o conservadorismo de uma cidade brasileira inespecífica, dançando em reuniões clandestinas. Mas não são máscaras cirúrgicas. A produção foi rodada poucos meses antes da pandemia, no final de 2019. “Tudo fica ressignificado depois do que vivemos, mas o filme continua fazendo sentido, porque o que mais quero é ir a uma festa e dançar, mesmo que de máscara”, disse a diretora em entrevista ao Estadão, durante a quarentena que teve de cumprir antes de seguir para a Riviera Francesa.



A cineasta começou a pensar na história na época do lançamento de seu primeiro longa, Mate-Me Por Favor, em 2015, ao ler notícias sobre grupos de adolescentes e jovens mulheres que se juntavam para bater em outra mulher, ou por ela ter mais likes, ou por ser muito bonita, ou por ser considerada promíscua. Veio logo à cabeça o mito da Medusa, que em algumas versões era transformada pela deusa Atena numa criatura horrorosa. “Fiquei pensando nessa necessidade de uma mulher controlar a outra e no machismo estrutural, de como isso está introjetado em nós”, disse. “O principal machismo que sofri foi de uma mulher, o que me marcou muito. Acho que é um assunto que precisa ser debatido. Essa desconstrução tem de vir de todo o mundo.”

Ela também queria trabalhar novamente com Mari Oliveira, que tinha feito um papel importante, mas secundário, em seu filme anterior. Aqui, a atriz interpreta Mariana, uma jovem que segue um ideal de beleza específico com o objetivo de ser uma boa esposa, como todas as outras mulheres de seu grupo, uma igreja evangélica conservadora. Quando pensou nesse ambiente, já havia um crescimento do conservadorismo no Brasil, mas Anita Rocha da Silveira achou que sua obra se passaria num futuro distópico. “O futuro acabou chegando”, disse ela. Medusa ainda acontece numa espécie de universo alternativo, já que a diretora trabalha na chave do fantástico. Suas referências são David Lynch, musicais, Dario Argento

O novo filme é bem mais contundente do que o anterior, em que os jovens de classe média do Rio de Janeiro também frequentavam uma igreja evangélica pop. “Há um amadurecimento da Anita”, disse Mari Oliveira. “Em Mate-me Por Favor, está tudo nas entrelinhas, é uma crítica que você precisa querer fazer. Medusa tem a coragem de colocar na boca dos personagens as coisas que precisam ser ditas. Estamos falando sobre isso, é uma crítica, é sobre conservadorismo, sobre o ganho de espaço das igrejas, a corrupção dentro das igrejas, o patriarcado, a pressão da sociedade sobre as mulheres.” A diretora reconhece que essas igrejas suprem um papel que o Estado e outros grupos não cumprem, de oferecer apoio, cursos, acolhimento, família. Mas, muitas vezes, usam as escrituras para fazer discursos machistas, homofóbicos e racistas.


 


Medusa fala dessa vertente. No filme, os homens formam uma espécie de exército, mas as mulheres não ficam atrás. A punição vem no enfeiar da outra, seja com cortes no rosto ou do cabelo. Quando, no revide de uma vítima, Mariana sofre na pele o castigo imposto à mulher que não se encaixa no padrão, começa seu desprendimento – à custa de um bocado de sofrimento. “Principalmente quando você é jovem, quer muito se encaixar no padrão. E o padrão ali é a beleza do cabelo liso, da maquiagem em tons pasteis. É a bela, recatada e do lar”, disse a cineasta. “É quase uma onda dos anos 1950. É a mulher que está arrumada e cuidando do seu homem. No Brasil isso é muito presente. Queria falar dessa pressão toda para se encaixar e para não ser chamada de louca, não ser tachada de histérica.”

Não à toa, a libertação vem na base do grito, no melhor estilo a união faz a força. “Eu acho que a gente pode perder o controle às vezes. O filme é um exemplo extremo, mas muitas pessoas vão se relacionar”, afirmou Anita Rocha da Silveira. Sem dúvida, o longa tem força para contagiar as plateias cada vez mais sedentas por mulheres na frente e atrás das câmeras. 

Por isso, nada melhor do que estrear na principal vitrine do cinema autoral do mundo, Cannes. “Numa outra situação, talvez estivesse nervosa, preocupada, mas depois desse um ano e meio trancada em casa, estou grata de estar aqui, presente”, disse a diretora. Para a produtora Vania Catani, que frequenta o festival desde 2004, Cannes existir em 2021 já é um milagre. “Eu chorei de emoção. Isso aqui é a Disney da minha vida”, disse ela. “Neste ano, depois da pandemia, com o desmantelamento da política brasileira de cinema, estar aqui é uma grande alegria.” Medusa foi financiado majoritariamente com um programa da Agência Nacional do Cinema (Ancine) que premiou Mate-Me Por Favor por causa de seu desempenho. “Medusa é a prova concreta dessa política que funcionava e se retroalimentava”, disse Catani. 

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