Filme 'Mão na Luva' expõe a crise do casamento

Longa de Joffily e Bomtempo é baseado em peça de Vianinha

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2014 | 18h00

Completam-se este ano dez anos da morte de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. Ator e dramaturgo, ele deixou sua marca no teatro, cinema e TV. Foi uma voz ativa da resistência ao governo militar e deu importantes contribuições no rumo de uma cultura nacional-popular, no conceito gramsciano. Foi o criador de A Grande Família e o ator (emblemático) de Um Homem sem Importância, de Alberto Salvá. Se era para lembrar Vianinha ou provar sua permanência, o projeto Mão na Luva atingiu em cheio o objetivo.

O filme que estreou ontem baseia-se na peça de 1966. A última montagem data de 1984. Marca nova parceria do produtor e diretor José Joffily com o ator e também diretor Roberto Bomtempo. Já estiveram juntos em Quem Matou Pixote?, Dois Perdidos Numa Noite Suja e Achados e Perdidos, até chegar agora a Mão na Luva. No segundo e no atual, Bomtempo, além de ator, é também codiretor.

Joffily pode não ser um grande diretor, mas tem acertos indiscutíveis no currículo. Olhos de Vampa, Achados e Perdidos. Mão na Luva soma-se a seus acertos. A contribuição de Bomtempo não pode ser negligenciada. Como ator e codiretor, ele tem o mesmo foco humanista de Joffily (e Vianinha). Interessam-se todos pelas relações humanas e pelos entraves - políticos e sociais - que dificultam e até impedem a harmonia dessas relações. O título já carrega significado simbólico. A mão perfeitamente ajustada na luva representa o desejo da relação afetiva plena.

Só que, no filme como na peça, o casamento está terminando e o casal passa sua última noite junto. É tempo de inevitáveis acertos de contas. Ásperas batalhas verbais (e até embates físicos) são entrecortados por flash-backs. A casa participa como personagem. Feita de concreto, é fria e parece aprisionar a dupla. Portas de vidro abrem brechas nessa solidez. Revelam um desejo de transparência. 

Fala-se de tudo. Desejos, traições. Nem tudo é agressão e sofrimento. Existem momentos de entendimento. Os diretores evitam a armadilha do teatro filmado. Seu trabalho é sensível e romântico. E Miriam Freeland, mulher de Bomtempo na realidade, faz uma grande estreia. É ótima.

Em livro, diretor fala de sua experiência

Casada há 30 anos com José Joffily, a doutora em design Cândida Maria Monteiro registrou 20 anos de conversas com o marido cineasta. O resultado virou livro - Inquietações Cinematográficas (144 páginas, Editoras PUC-Rio e Reflexão). Joffily fala de ficção e documentário. Relatando sua experiência, ilumina a produção audiovisual do País. Não é um livro de teórico, mas diverte e traz informações preciosas.

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