Vantoen Pereira
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Filme 'M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida' é espelho no qual se reflete o Brasil

Obra do cineasta Jeferson De, que estreia dia 3 de dezembro, reflete sobre violência e desigualdades

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2020 | 05h00

Jeferson De não dispensa suas madrinhas, Zezé Motta e Léa Garcia. Zezé fez com ele o curta Carolina, sobre Carolina Maria de Jesus, a lendária autora de Quarto de Despejo. O livro virou um fenômeno editorial no Brasil do começo dos anos 1960. A favela vista pelo ângulo da favelada. O jovem Jeferson já dizia a que vinha. Criou o chamado “Dogma feijoada”, um cinema de comprometimento sociopolítico e estético. Entre erros e acertos, ele virou uma das vozes negras mais interessantes do cinema brasileiro.

No dia 3 de dezembro estreia seu longa M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida, uma produção da Migdal Filmes de Iafa Britz. Jeferson chegou a oferecer o papel de protagonista a Lázaro Ramos, que declinou. Quem teve sorte nessa foi Juan Paiva, que ficou com o papel. Teria de ser ele, porque o personagem é um estudante de medicina. A juventude é necessária. Juan foi o Wesley da novela Totalmente Demais, é o Anderson da atual temporada de Malhação. O que o garoto tem de bonito, tem de talentoso.

Talvez o sonho de Jeferson De seja ser o Antoine Fuqua do cinema brasileiro. Você sabe quem é. Fuqua dirigiu Dia de Treinamento, O Protetor e o remake de Sete Homens e Um Destino, todos com Denzel Washington. Fuqua conseguiu criar um enclave negro na Sony/Columbia. Quando o repórter o visitou no estúdio, surpreendeu-se com a quantidade de jovens negros na equipe. Black lives matter. O sucesso dos filmes de Fuqua lhe garantem essa liberdade em Hollywood. M-8 é um número, uma etiqueta que identifica um dos cadáveres na morgue da faculdade. À dupla de colegas de quem fica próximo, Juan assinala o mal-estar. Eles não percebem que os cadáveres retalhados nas aulas de anatomia são predominantemente negros? Ele chega a se projetar nesse M-8. Tem pesadelos horríveis.

Juan encontra na rua essas mães negras, da periferia, que clamam pelos filhos desaparecidos. Enterrar M-8 torna-se uma forma de afirmação para ele. De cara parece que Jeferson De vai seguir a trilha do cinema de gênero – o horror. Não faltam sinais inquietantes, como a presença do cadáver mudo no terreiro onde ele acompanha a mãe.

Juan Paiva tem tudo para fazer uma bela carreira. Mas o filme é dominado pela presença trágica de Mariana Nunes, como sua mãe. Quando ela está em cena, não tem para ninguém. M-8 é relevante por seu foco nas questões racial e social do Brasil. A cena da abordagem policial, quando Juan é derrubado, é uma síntese da brutalidade da repressão no País. O policial ainda repreende o garoto, diz que ele “está dando mole em zona de branco rico”. Aquilo é um espelho no qual se reflete o Brasil. 

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