Filme leva para as telas a história do cantor do hit 'Marina'

Calabrês que emigrou para a Bélgica e ganhou o mundo com sua música

Flavia Guerra , O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2014 | 22h54

Assim como milhares de italianos, Rocco Granata deixou sua Calábria natal, em 1948,para tentar uma nova vida em um país estrangeiro. Quando tinha 10 anos, seu pai, que já havia emigrado para a Bélgica há algum tempo, mandou buscar toda a família. "No início, achei ótimo, pois iria ver meu pai e havia a promessa de uma vida melhor. Mas conforme o trem se distanciava da estação, mais eu já sentia saudade. Não imaginava que seria tão difícil", conta Rocco, o personagem real que inspira o filme Marina, que estreia no País.

"E sabe o que era mais difícil? Além do preconceito, do fato de meu pai trabalhar em uma mina de carvão, difícil mesmo era sermos sempre chamados de ‘comedores de macarrão’. Os belgas não sabiam o que era rúcula, nem o que era a vida com o tomate. Foi dificilíssimo. Hoje, há tudo isso na Bélgica, e a vida dos que emigram é mais fácil", responde o cantor e ator, revelando seu espírito italiano. "Exato. Apesar de ter crescido na Bélgica, minha alma é italiana. E italianos são assim. Comer é sagrado. E está ligado à qualidade de vida. Sem contar os amigos, a família e a música. É o que faz de nós, italianos", declara ele.

Ainda que tenha sido obrigado a viver por um tempo sem a gastronomia calabresa, sem a música Rocco não ficou. Aos 13 anos, já estudava e tocava acordeão e compunha suas primeiras melodias. Uma delas, Marina, que criou com apenas 17 anos, tornou-se um sucesso tamanho que o alçou ao estrelado, em 1959. "Marina é um fenômeno que jamais pensei ser possível. Já foi gravada por mais de 100 artistas. E até hoje é tocada. Em todos meus shows, tenho que cantá-la", conta ele sobre o hit que compôs pensando, na verdade, em uma marca de cigarros norte-americana. "Eu pensava na melodia, no ritmo. Nunca pensei que minha vida viraria um filme. E olhe que tudo que está lá realmente aconteceu. Tirando uma ou outra passagem, é a minha vida", garante também o cantor, que também atua no filme dirigido pelo belga Stijn Coninx – diretor de Daens – Um Grito de Justiça (1992), indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Marina, a propósito, leva para as telas esta trajetória trágica, cômica e ao mesmo tempo aventurosa de Rocco que, como todos os jovens, quer ser reconhecido, pertencer a seu grupo e encontrar seu caminho, ainda que a contragosto de seus pais.

Coprodução entre as belgas Eyeworks e Le Les Films du Fleuve (dos irmãos Dardenne) e da italiana Orisa Produzioni (de Cristiano Bortoni, diretor de Vermelho Como o Céu), Marina é inspirado em A Minha Vida, biografia de Rocco lançada em 2009. "Coninx disse que queria fazer um filme sobre a minha vida. De fato, um documentário já havia sido feito, mas seria outra coisa. Adorei a ideia, mas exigi que fosse totalmente falado em calabrês. É meu idioma, o da minha terra. E era importante que assim o fosse", relembra Rocco, que no filme faz uma ponta no papel do dono de uma loja de instrumentos musicais que vende o primeiro acordeão para o garoto Rocco. "Meu pai adorava que eu estudasse música. Dizia sempre que era algo que tinha de fazer parte da nossa vida, mas não queria que eu a seguisse como carreira. Ele sempre dizia que eu tinha que ter uma profissão e não trabalhar em uma mina de carvão como ele", conta o cantor.

Mas, como nos roteiros de cinema, a música era tudo para o garoto, que via no reconhecimento de seu talento a chance de ser reconhecido como cidadão. "Nós somos italianos, vivemos aqui, mas ninguém nos vê. Quando estou no palco, aí sim, sou visto, sou alguém", diz o jovem Rocco, na pele do ator Matteo Simoni, à sua mãe em cena de Marina.

Para Rocco, além da história pessoal do protagonista, Marina revela o dia a dia de quem arrisca tudo para conquistar uma nova vida. "Meu pai foi corajoso ao deixar a Itália, que vivia a crise após a Segunda Guerra. Mas como ele, tantos italianos o fizeram. Para o Brasil mesmo foram tantos italianos, de toda parte. Calabreses, napolitanos, sicilianos, vênetos, puglieses. Há que se respeitar e admirar esta gente", declara ele, que nunca cantou no Brasil. "Passei por São Paulo há algum tempo, mas foi só uma escala, vindo de um show que fiz na Argentina. Quero voltar um dia. Queria cantar com Caetano. Chegamos a falar sobre isso com seu agente, mas não aconteceu ainda", revela ele. "Sei que a presença da cultura italiana é forte no Brasil e isso me faz feliz. O Brasil, assim como a Itália, é um país caloroso, nossas personalidades são parecidas. O mesmo não acontece com os belgas. É outra forma de lidar com as questões da vida. Mas amo os dois países. Eu me casei com uma belga, tenho filhos belgas. Aprendi a apreciar as duas culturas."

Marina, o filme, traz a história de Rocco pelo olhar de quem entende as diferenças e semelhanças culturais. Não por acaso, o ator escalado para viver o cantor é belga filho de imigrantes calabreses. "Meu pai, assim como o dele, foi para a Bélgica, mas não me ensinou a falar calabrês. Só fui aprender quando fui escalado para o filme. Foi maravilhoso. Só assim pude me conectar com minhas raízes, visitar a Itália e escrever um novo capítulo da nossa história", afirmou ainda Simoni. "Ele é a minha cara quando eu tinha sua idade. Estou feliz com a escolha", aprovou Rocco.

MARINA

Direção: Stijin Coninx.

Gênero: Drama (Bélgica-Itália/ 2013, 118 min.).

Classificação: 14 anos.

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