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Filme lembra trajetória da pioneira do cinema Alice Guy-Blaché

Documentário ‘A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo’ tem direção de Pamela B. Green

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 05h00

Pamela B. Green agradece a Shirley MacLaine. Numa entrevista na TV, a atriz vencedora do Oscar por Laços de Ternura – e estrela de dois grandes filmes de Billy Wilder, Se Meu Apartamento Falasse e Irma la Douce –, esbravejava contra o papel secundário que a indústria destina às mulheres. A título de provocação, Shirley lembrou a primeira mulher diretora de filmes, Alice Guy-Blaché. Alice quem? A própria Shirley ironizou. Tinha certeza de que pouquíssima gente sabia que essa mulher existiu, que dirigiu filmes e teve o próprio estúdio nos EUA do começo do século.

“Eu nunca tinha ouvido falar dela. Foi Shirley quem aguçou minha curiosidade. Devo-lhe essa”, diz Pamela numa entrevista por telefone dos EUA. Seu filme entrou na primeira leva do retorno das salas em São Paulo. Ainda está sendo uma frequência reduzida – por motivos de segurança, boa parte do público ainda não está indo aos cinemas, preferindo ver os filmes no streaming. Cinéfilos de carteirinha estiveram, nas duas últimas semanas, comprometidos com a 44.ª Mostra, cuja repescagem termina neste domingo, 8. Se você também desconhece Alice Guy-Blaché e não faz a menor ideia de seu legado, terá uma surpresa. Feministas de carteirinha passarão a colocá-la no seu panteão particular.

Num certo sentido, a história de Pamela B. Green talvez se assemelhe à da própria Alice. Ela já trabalhava na indústria desde 2001, mas nas vendas e outras atividades burocráticas. “Nunca havia dirigido um filme, nunca havia me imaginado nessa função, mas Alice terminou virando uma obsessão para mim. Durante oito anos segui sua trilha, passei a pesquisar sobre ela. No início, não sabia nem por onde começar. Não foi uma tarefa fácil. Todo mundo dizia que eu estava louca. Não era pesquisadora, nem cineasta. Não havia cursado a escola de cinema. Não saberia estruturar um documentário. Não, não, não. O que eu acho, no retrospecto, é que se Alice, lá atrás, foi uma pioneira num meio machista, mais de um século depois eu não poderia me intimidar. Fui à luta e, procurando por Alice, o que posso dizer é que me encontrei.”

Existiam fotos, entrevistas gravadas, filmadas, mas esse material nunca havia sido visto. “Era como se houvesse um complô para mantê-la desconhecida. Se o filme – Be Natural – A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo (Be Natural, The Untold Story of Alice Guy-Blaché) – contribui para alguma coisa, creio que é para recontar os primórdios da história do cinema. A gente ouve muito falar dos irmãos Lumiére, de Georges Méliès, de David Wark Griffith. A história do cinema é uma saga masculina. Mas havia essa mulher extraordinária, à frente do seu tempo. Alice começou a dirigir antes de Méliès. Encarou os desafios da narrativa e da técnica. E nos 22 anos em que esteve ativa como filmmaker, fez mais de mil filmes como diretora ou produtora. É um legado riquíssimo.”

E ela conta: “O mais curioso é que, à medida que escavava no passado em busca de uma mulher que, às vezes, me dava a impressão de nunca haver existido, comecei a ouvir sempre a mesma história – seus filmes estariam perdidos, severamente deteriorados pela falta de cuidado”. “Mas os filmes começaram a ser encontrados e surgiu um tititi na indústria. The Talk of the Town passou a ser a história dessa mulher – eu! – que estava descobrindo uma pioneira da qual nunca ninguém havia ouvido falar. Comecei a receber apoio – de mulheres como Jodie Foster, que terminou fazendo a narração, Abigail Disney, Elaine Thomas, Barbara Bridges. E não apenas mulheres – Robert Redford, Hugh Hefner.”

Apesar disso, houve muitos momentos de dúvida, em que Pamela pensou em desistir. “Tinha um cachorro que eu amava e morreu, tive uma infecção no pulmão e outra no ouvido. Senti que ia morrer, mas aí o filme me deu vontade de viver. Tinha de concluir o que havia começado.”

Nove meses antes da célebre primeira sessão de cinema no Grand Caffé de Paris, em dezembro de 1895, os Lumières mostraram seu invento, o cinematógrafo, a um reduzido grupo de pessoas. Dele participava Alice Guy, que, na época, era secretária de uma empresa ligada à fotografia. É fato que os próprios Lumières não viam futuro em seu invento. Alice viu, e antes de Méliès, em 1896, ela já estava fazendo o primeiro filme.

Em Cannes, Pamela teve apoio de Thierry Frémaux, que, além de curador do festival, tem um cargo de direção no Institut Lumière, de Lyon. Frémaux fez o próprio filme sobre o legado dos Lumiéres. Incentivou Pamela a fazer a história agora contada de Alice Guy-Blaché.

Em Cannes, a plateia adorou. Repetiram, alto e bom som “Bonsoir”, como no desfecho de um filme de Alice. “Até por ela, mas principalmente por mim, quero fazer logo outro filme. Só espero que não demore mais oito anos”, diz Pamela.

ELAS TAMBÉM FIZERAM HISTÓRIA

Jane Campion

Segunda mulher a ser indicada para o Oscar de direção, a neozelandesa foi a primeira a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1993, por O Piano, prêmio que foi dividido com o chinês Chen Kaige de Adeus, Minha Concubina. Jane permanece como a única mulher vencedora do maior prêmio do mais importante festival do mundo.

Lina Wertmüller

Mesmo não levando, a italiana fez história no Oscar como a primeira mulher indicada na categoria de direção. Foi em 1997, por Pasqualino Sete Belezas. Giancarlo Giannini é genial como o mafioso assim chamado por ter sete irmãs nada bonitas. Enviado para campo de extermínio alemão, na 2ª Guerra, enfrenta seu maior desafio – seduzir a dirigente nazista.

Kathryn Bigelow

Primeira mulher a receber o Oscar de direção, por Guerra ao Terror, de 2010. Na época, a cineasta norte-americana concorria com o ex-marido James Cameron – de Avatar –, ganhador de três Oscars por Titanic, e o derrotou. Kathryn provocou polêmica ao declarar, numa entrevista, que se sente atraída por personagens provocantes.

Dee Rees

Foi a primeira mulher negra indicada para concorrer ao Oscar de melhor roteiro – por Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi, em 2018. Não ganhou. Nascida em Nashville, Tennessee, Dee também dirigiu o filme e ganhou várias indicações para prêmios importantes. Ela também é diretora de Bessie, longa sobre a Imperatriz do Blues Bessie Smith.

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