Filme lança a anarquia e os sonhos do Brasil em Locarno

‘Com os Punhos Cerrados’ narra a trajetória de três ativistas no Ceará; Festival entra na fase final

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2014 | 18h01

LOCARNO - O festival de Locarno entra em sua fase final e começam as apostas em quem deve levar o prêmio de melhor filme da mostra competitiva. Se o russo Uralq, exibido no início do evento, está entre os favoritos, nos dois últimos dias surgiram Cavalo Dinheiro, do português Pedro Costa, Listen Up Phillip, do norte-americano Alex Ross Perry, com Jason Schwartzman e Jonathan Pryce, que tem, talvez, a melhor dupla de atores da competição, e o coreano Alive, de Park Jungbum. 

Ex-assistente de direção de Lee Chang-dong, Jungbum é também ator neste longa sobre um homem que divide seu tempo trabalhando na construção civil, cuidando da irmã doente e da filha pequena. Com três horas de duração, é um retrato duro, e ao mesmo tempo esperançoso, dos excluídos da Coreia. 

É para os que lutam para não viver à margem da sociedade, sem nem sempre ter sucesso, que Pedro Costa também se volta mais uma vez. Seu rigoroso longa conta a história de um bairro, Fontainhas, destruído, onde seus habitantes tentam recuperar suas vidas e sua dignidade. Um tratado sobre pequenas/grandes vidas épicas em sua luta pela sobrevivência. 

Listen Up Phillip, fala de Phillip (Schwartzman), um jovem escritor de sucesso que é incapaz de sair do individualismo para se relacionar melhor com sua namorada, com o mundo e com o novo amigo, um escritor veterano e famoso (Pryce), que é tão angustiado e socialmente problemático quanto Phillip. “São dois homens infelizes. Eles terminam o filme essencialmente do mesmo jeito que começaram. Já as mulheres do filme conseguem aprender mais. Já o Phillip, não se sabe para onde vai. Não é que não haja esperança, mas faz pensar até que ponto as pessoas realmente conseguem mudar”, completou Alex Ross Perry.

Com visual inspirado na Nova York dos anos 80, longa se baseia no romance Recognitions, de William, de Mark Forture. 

Pode parecer contraditório afirmar que Com os Punhos Cerrados, um dos longas brasileiros da seleção do Festival de Locarno 2014, que fez esta semana sua estreia mundial no evento, é, ao mesmo tempo, nostálgico e precursor. Mas esta talvez seja a melhor forma de, não definir, mas absorver um trabalho que, é antes de tudo uma forma de se colocar no mundo. 

Escrito, dirigido, produzido pelo trio Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti, da produtora cearense Alumbramento, o longa narra a trajetória dos ativistas Eugenio, Joaquim e João. Em uma Fortaleza distópica, eles montam uma rádio clandestina, invadem as transmissões das rádios tradicionais da cidade com poesias, músicas e provocações de toda forma. Colocam seus corpos e suas vozes a serviço do discurso pela liberdade, enquanto planejam a revolução, despertando obviamente a ira dos poderosos locais, que contratam Salomé, uma misteriosa e sedutora agente, para se infiltrar na rádio. Inspirada nas grandes femme fatales do cinema, ela diz querer se juntar à revolução e vai mudar a vida dos três. 

Com elipses de tempo e espaço, poucos diálogos e uso acertado de canções emblemáticas como Bella Ciao, o hino da resistência italiana na Segunda Guerra, Hijos del Pueblo, o hino anarquista espanhol, e Les Anarchistes, de Leo Ferré, os diretores, que também atuam no filme, bradam contra a opressão e o sistema capitalista. Constroem uma narrativa poderosa, que pode parecer nostálgica, mas que cala fundo nas atuais inquietações da juventude brasileira. “Aqui em Locarno, as pessoas não questionaram muito sobre Fortaleza, mas pensaram mais no Brasil. No entanto, o mesmo sentimento que há em Fortaleza hoje é o que levou as pessoas a se manifestarem desde julho de 2013. São questões da urbanidade”, completa Diógenes. 

Quando questionados se há certo romantismo nos ideais dos três anarquistas, ativistas e protagonistas da história, os diretores citam sua opção pela arte. “Tem a ver com o discurso do filme, mas também com a gente mesmo. Escolhemos fazer cinema em Fortaleza, sem grana, acreditando no que filmamos. Há nisso um romantismo, que perpassa o filme.” E Ricardo completa: “Mas achar que os discursos são ultrapassados é querer rotular. E não querer discutir essas questões bem atuais. Fazemos filmes para provocar reflexão. Nem sempre as pessoas aprovam, mas temos dado sorte. Nossos filmes despertam muitas coisas”, acrescenta Ricardo.

A repórter viajou a convite do Festival.

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